segunda-feira, 15 de novembro de 2010

15 de Novembro



      Lembro-me, como se fosse hoje, de um trabalho que fiz para a matéria de Brasil I - correspondente ao período colonial -  que tive na faculdade: era sobre o livro de Caio Prado Júnior. A apresentação foi lastimável. Eu ainda cismei de fazer uma afirmação categórica, interpretando livremente o autor, dizendo que ainda vivíamos em plena República Velha. A professora não entendeu e eu não soube explicar. Passados seis anos desta malfadada apresentação, sinto ter agora uma justificativa plausível, posto que minha opinião não mudou muito.
   Para os monarquistas, o dia 15 de Novembro é um dia de luto. Chamam golpe a articulação republicana e se reúnem para tomar chá e lamentar a deposição do Imperador. Talvez isso seja a manifestação do descontentamento com o atual regime - e eu não lhes tiro a razão! São constantes os casos de corrupção, desvios de verbas, improbidades, falta de decoro da parte de políticos. Voltando à minha afirmação categórica, vejo raízes nefastas, a herança maldita de um tempo em que se tratava o bem público como algo privado. Em verdade, uma ruptura efetiva nunca houve. Mesmo quando aparentemente agentes do povo chegam ao poder. O que existe de fato é uma adequação ao sistema e uma mimetização da própria elite que se ajusta aos processos históricos para continuar no comando - ou será que existiu no Brasil uma revolução popular de grande alcance e que tencionasse modificar a conformação do Estado? Acho que dormi nessa aula. O que há, o que sempre houve, é a política dos coronéis, dos personagens bonachões, que apadrinham, que mentem acintosamente, que trocam benfeitorias por votos, que representam o ranço, o vício de uma sociedade que não conhece a verdadeira cidadania. E que não recaia a culpa somente na República Velha! Os tais coronéis são bem mais antigos. Eles têm sobrenomes que remontam ao Império. Têm um passado construído a partir da nossa Independência, onde garantiram assento cativo no cenário nacional.
   Não acredito que a Democracia seja o sistema ideal, todavia ainda não foi superado por outro melhor. E, no caso do Brasil, é uma utopia crer em sua consolidação. Afinal, não entendo como se pode falar em Democracia consolidada com voto obrigatório! Mais: não entendo Democracia sem o conhecimento da cidadania. E a cidadania não está somente nos direitos adquiridos, mas nos deveres também! Parafraseando Stendhal, na Nau do Estado, todos querem uma posição de comando - maiorias e minorias -, todos querem uma 'fatia do bolo', uma autopromoção, reafirmando o pensamento que compreende apenas o bem privado e o direito individual. Assim, a República vai mal!
   É provável que o 15 de Novembro haja sido uma grande conquista, da qual, porém, não soubemos fazer bom proveito. Para que possamos viver em um regime igualitário é preciso que promovamos rupturas, que apostemos em alguma renovação, por menor que ela seja, e não mantenhamos as velhas figuras... Engraçado, não sei o motivo de escrever isso... Bem, parabéns para a República e a quem ainda tem esperança de comemorá-la! Acho que vou tomar chá com os monarquistas!

domingo, 7 de novembro de 2010

Banquete nas Trevas

-A que horas foi o óbito?
-Há cinco minutos.
-Ele está morto mesmo?
-Sim, acabei de verificar a pulsação.
-Passe-me a garrafa, quero mais vinho.
-Quanto tempo será que leva para o acharem?
-Não sei, mas deve demorar... Ninguém gostava dele. É provável que o deixem apodrecer no quintal.
-Tenho medo...
-Não se preocupe, vai parecer um ataque cardíaco...
-Sinto-me aliviada... Esse demônio nunca mais nos atormentará!
   Riscaram o fósforo e a luz tênue da chama iluminou três figuras. Ali, sentadas nas trevas, repartiam pão e vinho, mas somente duas dialogavam. A terceira permanecia em silêncio. 
-Está tão calado, o que houve? Arrependeu-se?
-Estou pensando... Não estou arrependido, mas me perguntando se ele realmente merecia.
-E como não? Ele nos humilhava, nos agredia todos os dias, não permitia que convivêssemos com nossa família, nos intrigava, insuflava rancores, nos tirava a esperança. Era um homem odioso! Agora está lá, caído, estendido na terra; as formigas começam a andar sobre suas carnes flácidas e a entrar pela boca pendente; os olhos ressecam-se, o sangue coagula, a pele perde a cor!
-Você sente alguma satisfação nisso, não? Vejo sua alegria nesta imagem tão aterradora!
-Valdemar era um velho asqueroso, não devemos ter pena dele! Ele nunca me despertou bons sentimentos em vida... Não despertará na morte! 
-Este pão que comemos é seu corpo e o vinho, seu sangue!
-Maldito! Este vinho é demasiado doce e o pão, demasiado tenro. Jamais seriam como o féu que corria em suas veias e a pedra que lhe servia de carapaça!
-Representaste muito bem, minha cara, durante todos esses meses! Fingir-se arrependida pelas brigas, manifestar afeto, chamá-lo de pai... 
-E eu ainda disse quando lhe servi o café: ''com muito amor''. Merecia um prêmio pela minha atuação. Agora só resta chorar no enterro. Queria mesmo cuspir-lhe e gritar: ''já vai tarde, infeliz''!
-Não consigo esquecer seus momentos finais: ele se queixou de ardência na garganta e falta de ar, caiu, debateu-se um pouco e ficou estático... Para sempre!
-Temos que pensar em um álibi!
-Álibi? Estávamos todos fora e quando chegamos, soubemos da morte do Valdemar por ataque fulminante! Aliás, lamentável... 
-Ouçam, acho que alguém chamou a polícia.
-Pensando melhor, acho que eu merecia um prêmio por ter dado um fim nesse homem, sabe?
-O que faremos?
-Vamos esperar... A garrafa de vinho ainda está cheia e restam quatro pães...
-Hum, onde está aquele que multiplica os pães e o vinho, hein? Poderíamos ficar nisso a vida inteira!
-Ele está morto agora.
-Só espero que não ressuscite no terceiro dia! Mandei fazer um vestido lindo para o velório...
-Entraram na casa... Estão andando sobre nós!
-Estão falando alguma coisa! Podem ouvir?
-Ei, eu estou ouvindo... Não! Não pode ser! É... É a voz do Valdemar! Mas ele estava morto!
-Vocês ministraram o veneno na quantidade certa?
-Acho que coloquei pouco!
-Ele sobreviveu! Como pôde levantar-se e chamar a polícia?
-Não sei, não sei, mas esse maldito tem que morrer!
    A moça ergueu-se e, pegando a faca do cesto de pães, correu imediatamente para o pavimento superior, saindo das trevas do porão. O rapaz, sentado à cabeceira da mesa, foi atrás, deixando o outro quieto na escuridão. Valdemar estava sendo socorrido por médicos na sala, observado por policiais. 
-Você ainda está vivo, maldito? - A moça tentou cravar-lhe a lâmina da faca, mas foi impedida.
-Foi ela - balbuciou Valdemar - foi ela! - Os policiais detiveram a moça e o rapaz pela suspeita de terem tentado matar aquele homem.
   Uma vez no hospital, depois de terem-lhe desintoxicado, Valdemar acordou de um longo sono, avistando, ainda com certa dificuldade, um rosto.
-Você? O que está fazendo aqui? A polícia não prendeu você junto com aqueles dois?
-Vim trazer uma lembrança de sua filha, papai, com muito amor!
   Valdemar foi encontrado pela enfermeira com a lâmina de uma faca dentro de sua boca.

domingo, 24 de outubro de 2010

Personalidade do Mês de Outubro

Howard Phillips Lovecraft (1890-1937)

   H. P. Lovecraft é um autor não muito conhecido no Brasil, pois ainda são poucas as traduções das suas obras aqui. Nascido nos Estados Unidos, em meio a uma família com histórico de problemas mentais, experimentou algum reconhecimento durante a vida e morreu precocemente aos 46 anos de idade. Sua Literatura de terror e ficção científica versava sempre sobre um mal ancestral, monstros abissais, pesadelos e neste imaginário estão incluídos os mitos de Cthulhu, o Necromonicon - livro escrito por um árabe louco de nome Abdul Alhazred; a cidade de Arkham - supostamente localizada no Condado de Essex, em Massachusetts; e sua Universidade de Miskatonic. É possível encontrar referências à obra de Lovecraft na história de Conan, cujo autor era seu amigo, e no popular desenho do Batman com seu Arkham Asylum.  Retirei apenas uma frase de 'A Sombra de Innsmouth', que é fundamental para entendê-lo e a qualquer outro autor:

'Onde acaba a loucura e onde começa a realidade?'

   Para mim, essa é uma pergunta fundamental. Eu diria mais: estrutural. Onde acaba a loucura? Onde começa a realidade? De que modo a loucura se faz necessária para um artista? É possível que a arte possa ser integralmente sã? Quando um autor escreve, quando um pintor pinta, quando um músico compõe, tudo que há em seu interior se faz representar em forma de sons, cores e palavras. Por isso o tema e a forma  precisam se combinar originalmente, de maneira a retratar o que o artista traz consigo. Cópias, arremedos, objetos desconhecidos, vias mercadológicas são tudo o que uma boa obra não precisa; é preciso, sim, que o criador se deixe levar por sua loucura, não permitindo que as exigências do meio interfiram e encarcerem a sua arte - ou então teremos o lixo cultural que vem sendo produzido apenas para comercialização, mas sem introduzir questionamentos caros à humanidade.  Lovecraft deu voz à sua loucura, escreveu sobre seus medos, seus pesadelos - suas imagens, por vezes, são aterradoras; e está aí o valor de sua Literatura. E esta loucura é tão somente um descanso da realidade, é o vôo da alma, dos pensamentos, é a vivência de outra verdade, uma verdade personalista onde tudo é possível - inclusive ser louco!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Repúdio às Eleições

   Meu voto não irá para o Serra, tampouco para a Dilma. Acho trágico que só tenhamos duas opções e ter que escolher 'dos males, o menor'. Escolho votar nulo; não porque acredite em uma possível obrigatoriedade de convocação de novas eleições, mas por não querer compactuar com essa política canhestra que vem se constituindo. Para mim, é impossível não ver uma herança nefasta dos tempos do coronelismo, com novos trajes evidentemente, mantendo, entretanto, uma característica paternalista perniciosa que ajuda a erigir certos personagens, supostos baluartes da igualdade e da Democracia. Dizer de um governo, outrora chamado socialista, que se ajustou perfeitamente ao Sistema, que não promoveu rupturas, que incentiva o consumo, que transforma seus assistidos em estatística; dizer deste governo que é de esquerda? Um governo que se rendeu à governabilidade, que fez alianças com figuras obscuras, que distribuiu rendas e abriu postos de trabalho, sem que isso concorresse efetivamente para a igualdade social, porquanto igualdade social só exista na liberdade de escolha e oportunidades - e não é isso que vejo na vida de pessoas para as quais está destinada apenas uma frente de trabalho; que mais contribuiu aos bolsos do empresariado, que joga moedas no gazofiláceo com obras faraônicas, que explora a boa-fé do povo através de uma barganha imoral. E não me venham dizer que tais e tais coisas eram necessárias momentaneamente para resolver o problema. A política no Brasil é feita assim: o maquiavelismo do Estado faz o bem em conta-gotas para aparecer, para poder colocar em um painel bem grande e dizer que o país está mudando! O problema de fato é postergado infinitamente. Ora, há quanto tempo se fala em revolucionar a Educação e a Saúde? Será que nesses anos todos não foi possível? Ou será que revolucionar a Educação e a Saúde demora muito mais que um mandato? Melhores são as medidas imediatistas, não? Elas se convertem em voto facilmente!
   Eu voto nulo; voto nulo porque quero uma alternativa, quero um novo nome, um novo partido, uma nova cara! Não desejo um revesamento de apenas dois partidos no poder, mal comparando com a época da Arena e do MDB. Não desejo qualquer partido que reivindique para si o efeito da opinião pública e que censure; que trate a política e a sua própria posição como se assasse carnes em seu quintal, enchendo a boca para dizer que é um ato de cidadania que o povo roa os ossos que se lhe dê. Lamentável é ver tanta gente defender os avanços, as conquistas, as lutas... Continuo vendo violência, miséria, indigência, hospitais em ruínas, professores ganhando salários irrisórios... O Brasil vai continuar mudando na sua marcha progressiva que acabará em tempos de igualdade absoluta... Realmente, acho que é caso de embriaguez coletiva. Dilma e Serra são farinha do mesmo saco! Ao meu turno, prefiro sair de Alice no País da Democracia Consolidada - mas não voto na Rainha de Copas!

domingo, 17 de outubro de 2010

Conto Erótico

   Este conto tem a única função de demonstrar o quanto estamos presos à nossa condição animal. Para longe de ser puro ato de amor, o sexo, acima de tudo, é uma necessidade orgânica manifesta através do corpo. Ninguém pode sentir prazer físico com a alma - talvez os demagogos sintam -, ninguém busca o sexo simplesmente por amor. Ou não justificariam a sua precisão como sendo intrínseca a um relacionamento conjugal desejável. A nossa mente tenta racionalizar buscando uma explicação favorável aos sentimentos altruístas que comandariam o desejo sexual. Pois eu discordo veementemente: o amor até pode conduzi-lo, mas não guia a vontade primordial. Não somos tão animais como quando estamos copulando; não há meio mais legítimo e natural para se preservar a vida; não há energia maior na Natureza - a energia sexual é criadora! Não quero dizer com isso que abandonemos nossa razão em virtude da promiscuidade irrefreada, pois ainda somos seres racionais e sabemos o mal que advém dos excessos. Talvez o que ora diga não seja novidade. Então passemos ao conto. Caso queira, pule a história, que tem apenas função preliminar, e vá logo para a ação - mas não anseie em demasia para não terminar antes do tempo!
***
   Geisilane não era uma mulher muito bonita, mas possuía formas admiráveis que chamavam a atenção no bairro. Andava metida em roupas curtas e decotadas, justas em seu corpo e, no alto da plataforma, que muito mal disfarça sua baixa estatura, saía às compras na feira. Era dona de casa dedicada ao marido e ao filho pequeno. Lavava, passava, cozinhava, varria os cômodos e o quintal e só parava na hora da novela. Seu marido dormia durante quase todo o dia, pois pegava no seu táxi pela madrugada. Era quando a solidão devassava Geisilane. Recostada no sofá, assistindo algum filme ruim, pensava que pouco tempo havia para sua distração e, quando havia, passava por algo sem graça - ainda mais porque dormia sozinha e nunca saía com seu marido. Pior: ele a deixara de procurar. A diferença de idade entre os dois talvez fosse um agravante. Ela era bem jovem ainda e ele quase batia nos cinquenta. Quando não trabalhava ou dormia, ele bebia muito e ficava imprestável. Fatigada, questionou-se pelo fato de ter optado por aquela vida ingrata, posto que a envelhecera precocemente - muito cedo fora mãe, muito cedo teve responsabilidades, muito cedo pensou em divorciar-se. Não obstante, Geisilane mantinha a boa forma e a vaidade próprias da juventude: maquiava-se, perfumava-se, tingia os cabelos de castanho, pintava as unhas de vermelho e tentava seduzir o pobre marido indiferente. Noites e noites transcorreram assim.
   Certa vez, pouco passava das onze, seu marido havia acabado de sair, quando Geisilane ouviu a campainha - quem poderia ser àquela hora? Foi até o portão a saber da visita inesperada. Era o vizinho, o Jorge, quem batia e vinha pedir para encher um balde de água porque faltara em sua casa. Pediu mil desculpas e Geisilane o fez entrar. Enquanto esteve agachado diante da torneira do quintal, a moça reparou bem no rapaz e perguntou-se umas três vezes porque nunca houvera reparado nele antes: alto, de tez morena, braços bem torneados, cabelos e olhos negros, pêlos encrespados no peito. Sentiu algo diferente e o coração acelerou, deixando-a resfolegante.
   Ao terminar, Geisilane o convidou para um café e, após muita insistência da parte dela, Jorge aceitou. Jamais passara pela cabeça dela trair seu esposo. Mas ali, naquele momento, sucumbiu a um desejo que imediatamente a fez ver aquele homem, com quem vivia, de forma drástica e pouco indulgente. Certificou-se que o filho dormia, depois sentou-se perto do rapaz que sorvia a bebida quente, praticamente o obrigando a reparar nela: um vestido lilás e transparente denunciavam seus seios; seus cabelos úmidos e sua pele recendiam a leite de rosas; seus lábios carnudos clamavam por tocarem-lhes. E tal foi como tudo se deu:

   Ela puxou-lhe pela camisa e beijou-lhe com vontade escorregando suas mãos pelo tronco até a parte interior de suas pernas Jorge apertou os seios volumosos e Geisilane desabotoava-lhe os botões em seguida ele tirou-lhe o vestido pela cabeça e lambeu seus mamilos descendo pela barriga para arrancar sua calcinha com os dentes mordeu as nádegas chupou-lhe o grelo fazendo-a gemer alto depois foi a vez dela Geisilane passou a língua no peito trilhando o caminho formado pelos pêlos que terminavam no membro já rijo de Jorge engoliu o mais que pôde lambuzando de saliva Jorge a ergueu pelos braços virando-a de costas para penetrar fundo naquelas carnes ela primeiro apoiou as mãos na mesa sentando-se nela após quando enfim decidiram mudar de posição abriu as pernas e pôde encará-lo a expressão feroz o suor a força que  desprendiam o clamor tudo era prazer para ambos por fim Geisilane exclamou goza dentro foi quando sentiu um jorro quente na vulva dando o urro derradeiro
   Geisilane tornou-se uma mulher mais afável e compreensiva com o marido e se resignou com suas noites solitárias.  Entretanto, muito embora não passasse de um encontro, jamais esquecera Jorge.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Liberdade Ainda que Tardia

   Aquela era a saída, não havia outra. Uma noite na cadeia já é o suficiente para penitenciar-se de todo o mal. Um cubículo gradeado e imundo, o calor insuportável, o espaço dividido com tantos outros elementos e a privacidade suprimida. Uma noite é o curto tempo para o arrependimento ou para o ódio. Além dos muros altos estava a vida em seu esplendor de felicidade. Ali, porém, restavam as faces carcomidas, as pupilas mortiças e os sorrisos mordazes; restavam a desconfiança, o desmazelo e o terror da promessa de esquecimento aliado à raiva do abandono. Os ânimos jungidos feito massa, fermentando no exíguo espaço mofado, infestado de insetos e tresandando a esgoto e transpiração. Quem ainda possuía fé, rezava; outros reclamavam e cismavam com seus vizinhos. Os únicos alimentos eram incerteza e a inquietação sempiterna da inconformidade - a morte espreitava em cada sombra. Dormiam entrelaçados no chão duro, banhavam-se em água fria, comiam lavagem e satisfaziam as necessidades do corpo diante de todos. As baratas, como se dizia, tinham mais liberdade. 
   Arnaldo habitava uma cela não muito diferente. Sofria a distância dos filhos e amargava a culpa de um tiro desferido por ciúme. Perdera a conta de quantos dias haviam passado - um minuto valia pela eternidade. Tinha quarenta e poucos, mas a dor o fizera parecer bem mais. Seus cabelos grisalhos, o rosto cheio de vincos, as unhas escuras, as mãos grossas, a roupa rota, os pés descalços formavam uma triste figura, contraste absoluto do homem que dormia entre os lençóis de uma cama macia, logo após um banho morno, tendo anteriormente admirado sua vitalidade no espelho - ria da lembrança de outrora e furtivamente caía-lhe uma lágrima desabrida.
   Um tímido raio de sol, filtrado pelas grades da janela, acordou-lhe em certa manhã e com ele vieram as nesgas de esperança: um de seus companheiros era criminoso temido cujos comparsas se esforçaram por cavar um túnel que alcançasse a cela; tudo fora acertado: fugiriam ele e os demais durante a noite. Arnaldo experimentou alegria renovada e mal podia esperar para respirar ar puro, andar na rua, beber água limpa e abraçar seus rebentos. Permitiu-se sorrir um sorriso franco e acreditar novamente em Deus. Conforme o combinado, seria o último a passar pelo buraco, coisa com a qual pouco se importava, porquanto quisesse tão somente sair dali. Assim foi: quando a madrugada já ia alta, os presos começaram sua travessia - um por um desceu; os ossos de Arnaldo tornaram-se trêmulos, o coração acelerou, teve medo. Lembrou-se tardiamente da claustrofobia e se viu incapaz de prosseguir. ''É preciso ir, seus filhos estão esperando... Deus há de ajudar!'' - Tal pensamento lhe emprestou alguma força. Enfiou os braços, a cabeça e foi deslizando pelo túnel, falando alto, de si para si:
   -Meu Deus, eu vou conseguir... Meus filhos, estou chegando, me esperem, papai está chegando! Liberdade, ah! Nem acredito... Eu paguei tudo que devia, se Deus mandou isso é porque não tem mais nada... Estava aqui somente por causa da Lúcia, aquela safada! Nem lembro quantos anos peguei... Dez? Não sei, não importa... Agora estou livre, livre! - Tinha pressa, mas o túnel era bem pequeno; seu tronco, braços e pernas ficaram embebidos em sangue, arranhados pelas lascas de pedra que rasgavam sua roupa - estou quase lá, quase! - Inopinadamente, seu corpo entalou. Encontrava-se esticado e não podia mover-se adiante, tampouco baixar as mãos. Debateu-se no intuito de soltar-se, machucando mais a sua pele, tentando avançar ou retroceder debalde; gritou por ajuda - ninguém ouviu. Algum sopro de vento fresco veio do fim... Ironicamente, a saída estava bem próxima. Os outros presos ganharam a rua e desapareceram na noite. Arnaldo padeceu até que parte da passagem cedeu, sufocando-o com areia... Livre estava, enfim.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Fantasma do Velho Casarão

   A Natureza não é mais a mesma. Onde se ouvia o canto dos pássaros nas tardes outonais, ou admirava-se o sol poente com suas franjas douradas; onde se podia ver o verde das copas, deitar-se ao relento e deleitar-se com a brisa noturna; hoje há um muro alto e cinza a tapar as vistas; há uma espiga retangular, sem cor, fazendo sombra, arranhando o céu; o ar não é mais puro e já não corre o riacho que secou. Mal se enxerga o firmamento...
   Minha casa ficava naquela esquina. Era grande; possuía uns janelões, uns beirais quase artesanais e uma roseira perto do portãozinho de ferro; nos fundos, árvores frondosas e uma coleção de insetos, pássaros e um sem número de animaizinhos multicores. Nasci em meio àquela aquarela de sons e cores vivazes; debaixo de um dossel finíssimo, sob os cuidados de uma parteira... Sim, digo da minha casa que tivesse sons e cores porque a vida vinha do jardim e misturava-se às teclas do piano, às louças e talheres prateados, ao romance das moçoilas e sisudez dos cavalheiros; aos quadros, enfim, de imaginação que compunham histórias, fazendo personagens reais interagirem com fictícios até cochilar na marquesa da sala...
   Ali cresci, tomei minhas primeiras lições, beijei os lábios incautos de minha adorada, dancei, sorri e li a obra de minha existência; ali chorei, me escondi, envolvi-me em lençóis de seda, senti o cheiro da madeira e vi a chama diáfana apargar-se segundos antes da escuridão; admirei-me das estrelas e da imensidão do Universo; Ali chamei por Deus...
   Quando morri, em um crepúsculo do início do século, não pude abandonar aquela casa, a casa em que vivi todas as minhas vidas. Assisti meus filhos tomarem rumo e meus netos tornarem-se homens. Os móveis mudaram de lugar; algumas toalhas ficaram rotas; o piso foi devorado por cupins. O tempo fez o seu trabalho de oxidar metais, amarelar papéis e esfriar emoções... Ainda assim não abandonei aquele lar; participei de todas as histórias alegres e tristes que ali se desenrolavam como em um teatro, ora me angustiando, ora gargalhando: as gerações que nasciam, um que se suicidava, outro que agonizava; a prosperidade de um primo, a desgraça de um tio; o riso solto e as lágrimas copiosas...  
   Um dia, porém, um tataraneto resolveu vender a casa. Não conseguia viver entre paredes cediças, entre vultos de um passado familiar. Tinha sede de novidade, de modernidade e de esquecimento. Abandonou seu pai, seu avô, seu bisavô e a mim, pois aquela casa não era mais feita somente de tijolos - era feita de sentimentos, de lembranças inesgotáveis, de memória imortal. Por fim, a própria casa tinha vontade e desta velha força alimentava-me. Era eu um fantasma solitário que nada tinha de assustador - somente um espírito saudosista mal acalentado pelas antigas cantilenas...
   Derrubaram o velho casarão - ao invés do jardim, uma portaria e uma garagem; ao invés dos beirais e dos janelões, milhares de pequenos olhinhos de vidro, a centenas de metros acima, dispostos em um imenso corpo de concreto; ao invés de uma família, o ruído de várias pessoas que jamais souberam o que é um jardim; ao invés de cores e sons, de insetos e pássaros, o barulho infernal de gritos e buzinas; ao invés de ar, poluição...
   Morri novamente com o velho casarão; hoje sobraram apenas meu entulho, meus cacos e meu pó; sou rastro de recordação...

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Personalidade do Mês de Setembro

Karl Marx (1818-1883)

   Karl Heinrich Marx foi um intelectual alemão, conhecido por influenciar, com suas idéias, os campos da História, Economia, Filosofia e Teoria Política. Lançou as bases do Comunismo quando, junto com Friedrich Engels, publicou um Manifesto no ano de  1848. É do Manifesto do Partido Comunista o trecho a seguir:

''A burguesia despojou de sua aura todas as atividades até então consideradas com respeito e temor religioso. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência, em assalariados por ela remunerados. A burguesia rasgou o véu de emoção e de sentimentalidade das relações familiares e reduziu-as a mera relação monetária.''

  Mesmo não sendo um entusiasta de Marx, acredito que este trecho observa um traço marcante da sociedade atual. Vivemos em um Sistema Capitalista profundamente competitivo e desigual, de sorte que, até mesmo as relações interpessoais, por obra do próprio interesse econômico, são corrompidas de alguma maneira. Bem, não há aí nenhuma novidade. O consumismo desenfreado fomentado pela mídia, incentivado pelo Estado, faz com que as pessoas busquem um ideal de felicidade completamente falso; faz crescer a competitividade e a desigualdade, tal como foi dito. A 'relação monetária' materializou-se na barganha entre pais e filhos; 'o véu de emoção' rasgou-se em função de bens materiais que uma boa educação não pode comprar. Profissões como a do médico e do professor, quando não são desvalorizadas, rendem-se ao favor do capital feito moeda de troca - escolhe-se esta ou aquela profissão em razão de seu retorno financeiro. Ou explora-se a boa fé alheia vendendo-se a cura, o ensinamento e o perdão. E por trás de tudo está o consumo, o consumo da tecnologia, da estética e do entretenimento, proporcionando uma cegueira absoluta diante do lucro absurdo de poucos. O mais desejável, a meu ver, é a instrução - não a que se recebe no colégio, mas cuja busca é individual - e instrução não se come e não se veste. Portanto, de tudo o mais que se pode extrair deste trecho, fica a compreensão de que, se a burguesia expolia o quanto pode é porque nós não tomamos a iniciativa de refrear todo o mal que se inicia no consumismo, seja ele em grande ou pequena escala; compactuamos com o bem-estar sugerido sem perceber que o Sistema está muito mais introjetado em nossas vidas do que imaginamos!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Zazá Pinga-Fogo

   Lá vem Zazá, descendo a ladeira, para postar-se feito cão fiel na porta do bar e pedir, logo de manhã cedinho, um fiado da 'branquinha'. Começava assim: uma dose pequena de cachaça, alguns copinhos de cerveja, depois de novo a pinga, talvez um vinho e, em dias gordos, conhaque. Ninguém dizia daquela pobre velha que bebesse; e bebia, bebia muito! Tinha boca murcha e o rosto cheio de vincos; uma saia de pregas bem rota, um casaquinho puído de lã, gaforina grisalha, sandálias de couro rasteiras e um chapeuzinho encardido - parecia o diabo quando vinha lépida para tomar a cana. Seus olhinhos pequenos ganhavam algo de vivacidade quando afogueados e rubros de tanto álcool na fuça! Se passava dos sessenta, Zazá não lembrava; mal lembrava do nome e atendia somente pelo apelido - do Pinga-Fogo não gostava, ralhava com toda a gente má que lhe dera essa alcunha.
   Difícil enxotá-la do boteco. Ali ficava até fechar. Cantava, dançava, gritava e insistia em contar passagens de sua vida - falava sem parar. Cuspia de lado, dava uma quebrada e no fim do dia já estava toda urinada. A boca pequena vinha com a de que ''xixi de Zazá faz um carro andar'' e ainda: ''não risquem fósforo perto dela, vai tudo pelos ares!'' - o repertório não tinha fim. Zazá pouco se importava, caía na porta e dormia um sono profundo, esperando pelo dia seguinte para entornar mais.
   Da sua família pouco havia notícia, muito menos de seu passado e o motivo que a fizera entrar nessa vida. Era casada com um velho e não tinha filhos. De vez em quando iam juntos à missa. E quando o padre pedia que erguessem chaves da casa, carro ou carteiras de trabalho para receberem bençãos, Zazá levantava a garrafa: ''aguardente benta é bem melhor!'' - ria um riso podre. Se preparasse comida, colocava umas gotinhas da pinga, fosse no tempero do feijão ou na calda do doce. Cambaleava, cambaleava, tropeçava aqui, tombava ali, pedia mais um gole, fumava um cigarro e fazia um barulho com a boca que assustava toda a gente. O marido a chamava carinhosamente de ''ovelhinha'' porque acordava balindo, pedindo 'mé'!
  Certo dia, Zazá chegou no bar, como de costume, pediu a bebida de hábito, comeu pão com carne assada, fumou uns quatro maços, falou o mais que pôde, gargalhou, rodopiou no batuque improvisado, xingou a mãe de quem passasse e deitou-se na sarjeta por fim. Metade do corpo na calçada, a cabeça pendendo no asfalto - ficou ali por três dias até perceberem que Zazá não levantaria mais...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Missiva

Caro Lord B***,


   Como estão os ares de Worcestershire? As cousas por aqui andam bem. Aproxima-se a hora de escolhermos a nossa liderança. Sim, ainda que não possamos apontar nosso regente, e que no Senado se ocupe uma nova cadeira quando da morte de algum de seus membros, há eleições indiretas, como bem o sabes, que elegem a representação parlamentar. Não sei que herança maldita nos legou a colônia a ponto de manter na política condição terrível para sua sustentação neste país. Sim, porque ora confunde-se o espaço público com o bem privado. Há um ranço secular que permite que as grandes fortunas prevaleçam, se não com sua própria voz, por via de terceiros. É muito comum ver um fazendeiro casar sua filha com um bacharel para ver-se representado na câmara. Está claro que o bacharel em questão receberá todas as benesses políticas para garantir a fatia do oligarca. A política, portanto, se orienta desta maneira: estabelece-se, com o povo, uma relação de clientelismo, se assim posso chamar, onde toma-se uma medida paliativa em troca do voto. Um chafariz ou uma ruela pavimentada pode comprar três ou quatro cadeiras na Câmara. E, no caso da recusa do voto, há outros tantos meios de persuadir o eleitor: o voto ou a vida. Cada fazenda tem sua pequena guarda. Ela é que é responsável pelo serviço menor: o de dar cabo da vida do infeliz que resolver descumprir uma ordem. Ficaste pasmado? Ora, teu país já viveu dias assim, não? Teus barões não pressionaram o rei para assinar a tal Magna Carta? Nós também temos cá nossos barões que pressionam nosso rei constantemente. Pensando bem, nosso mal não vem da colônia, vem é de tempos mais antigos, pois não? O que se vê aqui é a permanência de um passado que já há muito deveria estar morto. Porém, infelizmente não conseguimos superá-lo. Ou por pusilanimidade do povo ou pela mentalidade imortal que ultrapassa as instituições e prevalece na política, ressuscitando sempre no terceiro dia! Veio o Rei de Portugal, tomou D. Pedro a espada da Independência, virá ainda a República e o fantasma está aí a nos assombrar. E nem é aconselhável chamar um padre para exorcizá-lo. Até os religiosos se imiscuem na promiscuidade política. E eles têm métodos ainda mais persuasivos que os oligarcas. Isto porque a religião é uma instituição milenar e perene. Uma pobre alma não quer ver-se condenada às chamas do inferno. Para não padecer do espírito, acata ao que é dito no púlpito. Que aliança torpe se estabelece! O incauto vota pela força da alma e da arma. Até que ponto, pergunto eu, não temos responsabilidade sobre isso? Eles governam com o nosso consentimento, dentro de um pacto social. E será que o povo estaria preparado para um novo regime? E qual regime seria este? Pode-se substituir um tirano por outro, venha ele de baixo ou de cima. E aí volta tudo como era antes: oligarcas no lugar de oligarcas, bispos no lugar de bispos. Acho que o mal está no gênero humano, sabe? A política será política em qualquer tempo. Sempre haverá quem quer comer mais que os outros. Sempre haverá aquele que, por força da palavra e do estilo, prevalecerá sobre os gênios mais fracos. “O homem é o lobo do homem”, não é mesmo? Melhor seria que caísse fogo e enxofre do céu para exterminar a raça humana. Tão logo estivesse Sodoma destruída, voltaríamos ao estágio de inocência Natural.



Cordiais lembranças,



B. M.