quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Personalidade do Mês de Setembro

Karl Marx (1818-1883)

   Karl Heinrich Marx foi um intelectual alemão, conhecido por influenciar, com suas idéias, os campos da História, Economia, Filosofia e Teoria Política. Lançou as bases do Comunismo quando, junto com Friedrich Engels, publicou um Manifesto no ano de  1848. É do Manifesto do Partido Comunista o trecho a seguir:

''A burguesia despojou de sua aura todas as atividades até então consideradas com respeito e temor religioso. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência, em assalariados por ela remunerados. A burguesia rasgou o véu de emoção e de sentimentalidade das relações familiares e reduziu-as a mera relação monetária.''

  Mesmo não sendo um entusiasta de Marx, acredito que este trecho observa um traço marcante da sociedade atual. Vivemos em um Sistema Capitalista profundamente competitivo e desigual, de sorte que, até mesmo as relações interpessoais, por obra do próprio interesse econômico, são corrompidas de alguma maneira. Bem, não há aí nenhuma novidade. O consumismo desenfreado fomentado pela mídia, incentivado pelo Estado, faz com que as pessoas busquem um ideal de felicidade completamente falso; faz crescer a competitividade e a desigualdade, tal como foi dito. A 'relação monetária' materializou-se na barganha entre pais e filhos; 'o véu de emoção' rasgou-se em função de bens materiais que uma boa educação não pode comprar. Profissões como a do médico e do professor, quando não são desvalorizadas, rendem-se ao favor do capital feito moeda de troca - escolhe-se esta ou aquela profissão em razão de seu retorno financeiro. Ou explora-se a boa fé alheia vendendo-se a cura, o ensinamento e o perdão. E por trás de tudo está o consumo, o consumo da tecnologia, da estética e do entretenimento, proporcionando uma cegueira absoluta diante do lucro absurdo de poucos. O mais desejável, a meu ver, é a instrução - não a que se recebe no colégio, mas cuja busca é individual - e instrução não se come e não se veste. Portanto, de tudo o mais que se pode extrair deste trecho, fica a compreensão de que, se a burguesia expolia o quanto pode é porque nós não tomamos a iniciativa de refrear todo o mal que se inicia no consumismo, seja ele em grande ou pequena escala; compactuamos com o bem-estar sugerido sem perceber que o Sistema está muito mais introjetado em nossas vidas do que imaginamos!

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Zazá Pinga-Fogo

   Lá vem Zazá, descendo a ladeira, para postar-se feito cão fiel na porta do bar e pedir, logo de manhã cedinho, um fiado da 'branquinha'. Começava assim: uma dose pequena de cachaça, alguns copinhos de cerveja, depois de novo a pinga, talvez um vinho e, em dias gordos, conhaque. Ninguém dizia daquela pobre velha que bebesse; e bebia, bebia muito! Tinha boca murcha e o rosto cheio de vincos; uma saia de pregas bem rota, um casaquinho puído de lã, gaforina grisalha, sandálias de couro rasteiras e um chapeuzinho encardido - parecia o diabo quando vinha lépida para tomar a cana. Seus olhinhos pequenos ganhavam algo de vivacidade quando afogueados e rubros de tanto álcool na fuça! Se passava dos sessenta, Zazá não lembrava; mal lembrava do nome e atendia somente pelo apelido - do Pinga-Fogo não gostava, ralhava com toda a gente má que lhe dera essa alcunha.
   Difícil enxotá-la do boteco. Ali ficava até fechar. Cantava, dançava, gritava e insistia em contar passagens de sua vida - falava sem parar. Cuspia de lado, dava uma quebrada e no fim do dia já estava toda urinada. A boca pequena vinha com a de que ''xixi de Zazá faz um carro andar'' e ainda: ''não risquem fósforo perto dela, vai tudo pelos ares!'' - o repertório não tinha fim. Zazá pouco se importava, caía na porta e dormia um sono profundo, esperando pelo dia seguinte para entornar mais.
   Da sua família pouco havia notícia, muito menos de seu passado e o motivo que a fizera entrar nessa vida. Era casada com um velho e não tinha filhos. De vez em quando iam juntos à missa. E quando o padre pedia que erguessem chaves da casa, carro ou carteiras de trabalho para receberem bençãos, Zazá levantava a garrafa: ''aguardente benta é bem melhor!'' - ria um riso podre. Se preparasse comida, colocava umas gotinhas da pinga, fosse no tempero do feijão ou na calda do doce. Cambaleava, cambaleava, tropeçava aqui, tombava ali, pedia mais um gole, fumava um cigarro e fazia um barulho com a boca que assustava toda a gente. O marido a chamava carinhosamente de ''ovelhinha'' porque acordava balindo, pedindo 'mé'!
  Certo dia, Zazá chegou no bar, como de costume, pediu a bebida de hábito, comeu pão com carne assada, fumou uns quatro maços, falou o mais que pôde, gargalhou, rodopiou no batuque improvisado, xingou a mãe de quem passasse e deitou-se na sarjeta por fim. Metade do corpo na calçada, a cabeça pendendo no asfalto - ficou ali por três dias até perceberem que Zazá não levantaria mais...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Missiva

Caro Lord B***,


   Como estão os ares de Worcestershire? As cousas por aqui andam bem. Aproxima-se a hora de escolhermos a nossa liderança. Sim, ainda que não possamos apontar nosso regente, e que no Senado se ocupe uma nova cadeira quando da morte de algum de seus membros, há eleições indiretas, como bem o sabes, que elegem a representação parlamentar. Não sei que herança maldita nos legou a colônia a ponto de manter na política condição terrível para sua sustentação neste país. Sim, porque ora confunde-se o espaço público com o bem privado. Há um ranço secular que permite que as grandes fortunas prevaleçam, se não com sua própria voz, por via de terceiros. É muito comum ver um fazendeiro casar sua filha com um bacharel para ver-se representado na câmara. Está claro que o bacharel em questão receberá todas as benesses políticas para garantir a fatia do oligarca. A política, portanto, se orienta desta maneira: estabelece-se, com o povo, uma relação de clientelismo, se assim posso chamar, onde toma-se uma medida paliativa em troca do voto. Um chafariz ou uma ruela pavimentada pode comprar três ou quatro cadeiras na Câmara. E, no caso da recusa do voto, há outros tantos meios de persuadir o eleitor: o voto ou a vida. Cada fazenda tem sua pequena guarda. Ela é que é responsável pelo serviço menor: o de dar cabo da vida do infeliz que resolver descumprir uma ordem. Ficaste pasmado? Ora, teu país já viveu dias assim, não? Teus barões não pressionaram o rei para assinar a tal Magna Carta? Nós também temos cá nossos barões que pressionam nosso rei constantemente. Pensando bem, nosso mal não vem da colônia, vem é de tempos mais antigos, pois não? O que se vê aqui é a permanência de um passado que já há muito deveria estar morto. Porém, infelizmente não conseguimos superá-lo. Ou por pusilanimidade do povo ou pela mentalidade imortal que ultrapassa as instituições e prevalece na política, ressuscitando sempre no terceiro dia! Veio o Rei de Portugal, tomou D. Pedro a espada da Independência, virá ainda a República e o fantasma está aí a nos assombrar. E nem é aconselhável chamar um padre para exorcizá-lo. Até os religiosos se imiscuem na promiscuidade política. E eles têm métodos ainda mais persuasivos que os oligarcas. Isto porque a religião é uma instituição milenar e perene. Uma pobre alma não quer ver-se condenada às chamas do inferno. Para não padecer do espírito, acata ao que é dito no púlpito. Que aliança torpe se estabelece! O incauto vota pela força da alma e da arma. Até que ponto, pergunto eu, não temos responsabilidade sobre isso? Eles governam com o nosso consentimento, dentro de um pacto social. E será que o povo estaria preparado para um novo regime? E qual regime seria este? Pode-se substituir um tirano por outro, venha ele de baixo ou de cima. E aí volta tudo como era antes: oligarcas no lugar de oligarcas, bispos no lugar de bispos. Acho que o mal está no gênero humano, sabe? A política será política em qualquer tempo. Sempre haverá quem quer comer mais que os outros. Sempre haverá aquele que, por força da palavra e do estilo, prevalecerá sobre os gênios mais fracos. “O homem é o lobo do homem”, não é mesmo? Melhor seria que caísse fogo e enxofre do céu para exterminar a raça humana. Tão logo estivesse Sodoma destruída, voltaríamos ao estágio de inocência Natural.



Cordiais lembranças,



B. M.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Adalto

   Adalto tinha um boteco famoso na cidade; ficava de esquina com a avenida principal, dando para a praça. Era rotundo, socado e faltavam-lhe alguns dentes; passava dos quarenta e adquirira um papo, ao modo de um homem desleixado. Ficava atrás do balcão engordurado, cortando fatias de carne assada, trajado do mais roto pano, levando consigo a flanela ensebada ao ombro e uma caneta na orelha. Seus fregueses não faziam caso do chão bodoso, dos animais e insetos que circulavam por ali, do cheiro de morrinha. Queriam era beber da 'branquinha' e falar de futebol no mais baixo palavreado. Certa vez, o tal do Abdias, um que comprava batidinhas de amendoim, cismou: -Adalto, você tem que entrar para a política, rapaz! Todo mundo conhece o seu bar nessa cidade! Eu votaria em você! - e o velho franzino falava nisso com os demais que logo fizeram campanha para que ele se candidatasse. No pleito seguinte, Adalto saiu como vereador e ganhou uma cadeirinha na câmara. Passou a usar terno, a pentear o cabelo, a andar de sapatos e a fazer promessas; uma delas vingou: construiu um coreto na praça e mandou fazer um belo churrasco, regado a muita cerveja para comemorar a nova 'conquista do povo'.
   Um professor da cidade, também vereador, achou de criticar Adalto publicamente pelos gastos da obra: havia algo de ilícito, contas que não batiam, cifras muito altas. Misteriosamente, o pobre do rapaz apareceu crivado de balas no matagal perto do rio. Também um jornalista, que resolveu investigar o caso, foi morto no portão de casa. À essas alturas, Adalto reformara o boteco, comprara alguns outros estabelecimentos comerciais, variara os ternos e os sapatos, adquirira um carro novo e arranjara uma mulher. Não era muito bom com as palavras e se enrolava para dizer de onde vinha tanto dinheiro; e garantiu na igreja que temia a Deus. Só não distribuiu santinhos porque lá ninguém acreditava em santo.
   Arranjou emprego para meia dúzia, mandou apagar uma dezena, comprou centenas de lotes e se elegeu deputado na capital. Mudou-se para uma cobertura, contratou motorista, começou a frenquentar festas da alta sociedade e a fumar charutos cubanos; consertou os dentes, tirou um palmo da barriga, engravidou a esposa e negociou em dólar. Chamaram-lhe prevaricador, leviano, néscio e ele sorria pelos termos tão bonitos que a imprensa usava para elogiá-lo. E perto de cada eleição asfaltava uma ruela, encomendava três caixotes de gaze, distribuia dentadura e montava um espetáculo para falar de números. Os filhos estudavam em bons colégios, moravam em condomínio, bebiam somente refrigerante e batiam em prostitutas. Adalto se orgulhava do caráter dos rebentos e pagou para livrar a cara deles em processos de tráfico e estupro.
   Quando quis ser senador, repetia que estava ao lado da religião e do povo, pois democracia é assim: ''mais tem o diabo para dar do que Deus para tirar'' - ninguém entendia o porquê de Adalto inverter assim o ditado - talvez por ignorância - e demonstrando grande eloquência filosófica, concluía que a política era doce, pois dava ''sonho para o povo e bala para a oposição!''
   Uma artéria entupida matou Adalto deitado em berço esplêndido, feito passarinho. Diante do rico mausoléu de mármore, Abdias, o velho franzino, exclamou: -só ele sabia fazer aquela batidinha de amendoim! Descanse em paz, santo homem!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Personalidade do Mês de Agosto

Henri-Marie Beyle (1783-1842)

   Henri-Marie Beyle passou para os grandes nomes da Literatura Universal como Stendhal. Em seu mais famoso livro, 'O vermelho e o Negro', faz uma análise da sociedade francesa por volta de 1830, contando a história do jovem Julien Sorel e sua amante Louise de Rênal. Os trechos a seguir traduzem parte da crítica feita à política de sua época pelo autor:

''Em meio a uma cidade de 20 mil habitantes, esses homens determinam a opinião pública, e a opinião pública  é terrível em um país que tem sua Constituição. Um homem dotado de uma alma nobre, generosa e que teria sido seu amigo, mas que mora a cem léguas, julga-o de acordo com a opinião pública de sua cidade, a qual é determinada pelos tolos  que o acaso fez nascerem nobres, ricos e comedidos. Ai de quem se distingue!''

''- (...) Eis toda a minha política: amo a música, a pintura; um bom livro é um acontecimento para mim; vou fazer 44 anos. O que me resta na vida? Quinze, vinte, trinta anos, no máximo? Pois bem! Imagino que daqui a trinta anos os ministros  serão um pouco mais hábeis, mas ainda tão honestos quanto os de hoje. A história da Inglaterra me serve de espelho para nosso futuro. Sempre haverá um rei querendo aumentar suas prerrogativas; sempre a ambição de tornar-se deputado; a glória e as centenas de milhares de francos ganhos por Mirabeau impedirão os ricos da província de dormirem: eles chamarão isso de ser liberal e amar o povo. Sempre a cobiça de tornar-se par do reino ou da câmara conduzirá os monarquistas. Dentro da nau do Estado, todo mundo vai querer o comando, que é bem remunerado. Será que nunca vai haver um lugarzinho para o simples passageiro?''

   Caso houvesse escrito seu livro atualmente, as impressões de Stendhal não mudariam muito - a política é a mesma. Os interesses pessoais superam os do bem comum, e para tanto, manipula-se a opinião pública de forma conveniente. Não há mais critério e seriedade; há avacalhação, escárnio, mofa. O político nem termina um mandato e logo o abandona com vistas em outro melhor e mais bem remunerado. Ali tem a chance de valer-se de artifícios, aparentemente benéficos, para ludibriar a população e mantê-la devidamente em seu lugar. O Estado não se compromete em mudar objetivamente a vida das pessoas; distribui esmolas, lava os pés e manda de volta à rua - hoje talvez se adquira uma geladeira com facilidade, mas a que preço? O de manter a malta rapace em seu lugar de sempre; o mesmo que ocupa desde 1808, 1822, 1889, 1930, 1964, 1985? O cidadão passa por todas as instâncias, empurrado pelas supostas leis de igualdade, ocupa cargos subalternos e jamais se pergunta o porquê de dançar este réquiem sinistro que o entretém, enquanto roubam seus pares; o importante é que ele não deixe de votar, obrigado que seja, na Democracia prostituta. 




domingo, 1 de agosto de 2010

Confins

   O capitão John padecia havia dias; o frio e a falta de comida  fizeram mais uma vítima da expedição malfadada. Singrar aqueles mares nunca fora tarefa fácil, ainda mais por serem desconhecidos os horizontes e os perigos que reservavam. O azul mortiço das águas, o branco acinzentado dos céus, as calotas alvejantes; elementos lúgubres da paisagem gélida, mesmo estando em pleno verão. John debatia-se e gritava no torvelinho de estertores ilusórios. Dizia-se vítima do assédio de seres imaginários, de homens que não estavam ali - de pessoas mortas. E o imediato, que resistia às penas desabridas do Polo, teve em seu íntimo a certeza que aproximava-se o momento derradeiro.
   John era um homem de origem pobre e que lograra reconhecimento na marinha inglesa. Não tinha uma compleição muito forte, mas era esguio, de olhos firmes e largas entradas nos dois lados da cabeça. Sua expressão rude e a voz firme o faziam temido. As viagens à costa africana, Índia e Austrália deram-no experiência suficiente e posição tal que permitiram que, em 1847, fosse escolhido para liderar uma expedição aos mares do Norte, objetivando chegar-se ao Pacífico por uma rota pouco convencional: o navio sairia da Inglaterra e percorreira toda a costa russa até alcançar o estreito de Bering. A embarcação partiu no mês de Abril na direção do desconhecido...
   A fraca luz do lampião bruxuleava no camarote do capitão; John não entendia o que poderia ter dado errado. Faltava pouco para o inverno e eles precisavam voltar ou a escuridão profunda os envolveria. A comida e a água ameaçavam escassear; camadas de gelo haviam se desprendido, interpondo-se no caminho, formando obstáculo considerável - estavam presos.
   -Ora, para que preciso deste lume? - Dizia de si para si - está claro e desperdiço azeite inutilmente! É só abrir um pouco mais a escotilha e... - um ar gélido soprou dentro do recinto; a temperatura do lado de fora estava bem abaixo de zero e o capitão de pronto fechou novamente a pequena janela - meu Deus, será que vamos morrer aqui? - perguntava-se tentando moderar seu desespero - sim, em breve todos morreremos! - Lamentou por fim. E não tardou para que sua suspeita se confirmasse: a hipotermia fez sucumbir o drumete, depois outro marinheiro e outro... Até que sobrassem apenas John, o imediato e mais dois homens. Os corpos eram lançados ao mar. Ali boiavam por uns instantes e mergulhavam para a eternidade abissal.
   De pé no convés, mirando as ondas agitadas pelo vento e imaginando como estaria a costa russa mais além naquela neblina, sentiu que não aguentaria por muito tempo. Os ossos estremeciam, sua percepção comprometera-se, suas funções assemelhavam-se a engrenagens de uma máquina que ameaçava encerrar sua atividade langorosa.
   -Capitão! - Gritou o imediato - volte para dentro! Aqui o frio acaba por lhe matar! - John juntou-se aos demais em uma repartição da embarcação. Deram-lhe do rum que restava e ele mordiscou as últimas lascas de peixe seco. Foi quando seus olhos lobrigaram riscos no madeirame: traços apareciam lentamente entre nós e fendas, desenhando figuras estranhas. O terror tomou John de socapa. Levantou subitamente e se pôs a correr pelo barco. Os outros homens foram atrás e o contiveram, levando-no para seu camarote. 
   A febre abateu o capitão e, na dolorosa agonia, só sabia repetir que todos eles o observavam, que não o deixavam, que os rostos nas paredes eram dos tripulantes e que eles estavam ali para testemunhar a sua morte. Ao cabo de uma semana, a escuridão se fez naqueles confins...

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Personalidade do Mês de Julho

Victor-Marie Hugo (1802-1885)

   Victor Hugo foi um escritor francês de influências românticas e realistas, criador do personagem Quasímodo de O Corcunda de Notre-Dame. Uma de suas obras mais famosas é a monumental Os Miseráveis, publicada em 1862, que narra os acontecimentos em torno da Revolução de 1830, constituindo-se em verdadeiro tratado político e sociológico. É dela o trecho a seguir:

   ''Tenhamos compaixão dos castigados. Ai! Quem somos nós mesmo? Quem sou eu, eu que falo a vocês?Quem são vocês, vocês que me escutam? De onde viemos? Há mesmo a certeza de que nada fizemos antes de nascer? A Terra não deixa de ter semelhanças com uma prisão. Quem sabe se o homem não é um castigado pela Justiça Divina?
   Olhem a vida de perto. Ela é feita de tal forma que por toda parte se vê punição.
   Você é daqueles a quem se chama de feliz? Pois bem, você fica triste todos os dias. Cada dia tem sua grande amargura ou sua pequena preocupação. Ontem você temia pela saúde de alguém querido, hoje receia pela própria saúde; amanhã haverá uma preocupação de dinheiro, depois a crítica de um caluniador, a infelicidade de um amigo, mais tarde o tempo que está fazendo, e depois alguma coisa que se quebrou ou se perdeu; e ainda um prazer que a consciência e a coluna vertebral reprovam; e outra vez a marcha dos negócios públicos. Sem contar as penas do coração. E assim sucessivamente. Uma nuvem se dissipa, outra logo se forma. Apenas um dia em cem de plena felicidade e pleno sol. E você faz parte desse pequeno número que é feliz! Quanto aos outros homens, a noite estagnante paira sobre eles.
   Os espíritos reflexivos servem-se pouco destas palavras: os felizes e os infelizes. Neste mundo, vestíbulo de um outro, evidentemente não há felizes.
   A verdadeira divisão humana é esta: os que vivem na luz e os que vivem nas trevas. Diminuir o número dos que vivem nas trevas, aumentar o número dos que vivem na luz, eis o objetivo. É por isso que gritamos: ensino! Ciência! Aprender a ler é iluminar com fogo; cada sílaba soletrada cintila.
   De resto, quem diz luz não diz necessariamente alegria. Também se sofre com a luz; em demasia, queima. A chama é inimiga da asa. Queimar-se sem parar de voar, é esse o prodígio do gênio.
   Mesmo com conhecimento e amor, ainda se sofre. O dia nasce em lágrimas. Os iluminados choram, mesmo que seja apenas sobre os que vivem nas trevas.'' 

   As palavras de Victor Hugo, características de sua época, talvez tenham antecipado questões existencialistas dentro de uma visão global em relação à condição humana. A compreensão da Terra como prisão faz com que o homem seja eterno condenado, submetido a penas e privações, presa de um torvelinho de infelicidade, onde a ignorância é o maior dos castigos. Contudo, ele admite que nem mesmo o conhecimento é sinônimo de alegria - a luz também queima! Ou seja, ter ciência da própria situação é causa de grande sofrimento; ainda assim estágio necessário.  A pergunta primordial sobre o significado da vida fica subentendida, resposta para a qual jamais viremos a ter. Amofinações diárias e preocupações sempiternas não permitem que a felicidade seja plena; alguns experimentarão um momento ao sol, quando muitos nunca lhe divisarão os raios; não há distinção entre felizes e infelizes: a infelicidade é cláusula sine qua non da existência neste planeta.

Perversão

   Quando o inspetor Morin adentrou o recinto daquele pardieiro, em uma noite do ano de 1888, ficou aturdido com a imagem. Nunca em seus anos trabalhando na polícia de Paris  vira algo parecido. Sentiu uma repulsa tamanha e uma ânsia tal que mal pôde se convencer que diante de si havia um ser humano. Levou o lenço à boca, depois secou a fronte e, afastando a impressão inicial, averiguou que quem quer que tenha sido o causador daquilo, fugira pela janela.
   Havia uma certa suspeita acerca dos hábitos de monsieur Jacques; homem alto, belo e proveniente de boa família. Sua postura altiva e austera era salvaguarda para que frequentasse os salões da alta burguesia francesa. Possuía gostos refinados, apreciava bom vinho e dedilhava alguma melodia no piano, além de valsar a gosto de todas as donzelas casadoiras. Contudo, mantinha-se reservado a qualquer proposta ou invasão a seu inviolável reduto. Monsieur Jacques havia herdado ações de um banco e a renda gerada deste lucrativo espólio ia dissipar em mesas de jogo. Ao cair da noite, saía em sua sege até determinado ponto da cidade, e de lá perdia-se a pé nas ruelas de Montmartre. A desconfiança sobre sua prodigalidade surgiu quando um dos sócios percebeu um desfalque. Somado a isso, um misterioso assassinato fez o inspetor Morin ficar no seu encalço.
   Um velho, antigo funcionário de Napoleão III, perdera o pouco que tinha no carteado e fora morto com requintes de crueldade: seu corpo amarrado encontrava-se com diversos talhos feitos à navalha, dos quais o mais extenso e profundo localizava-se no pescoço, quase a dar uma volta completa. O inspetor, chamado a investigar o crime, concluiu que quem matara o velho, o fizera sangrar por um bom tempo até decidir-se por rasgar-lhe a garganta e pôr termo à tortura. Disseram-lhe que um homem alto e bem vestido era o provável autor: - é um tal que aparece quase toda noite, de casaco com gola de pele e luvas de couro. Fuma charutos da melhor qualidade e sempre pede água de Seltz antes do vinho. O velho Ultime devia a ele, deve ter sido ele quem matou! - disse o taverneiro inquirido por Morin. 
-Não duvido que tenha sido ele - afirmou uma prostituta de nome Amalie - esse homem me procurou algumas vezes, pagava bem, mas gostava de coisas estranhas e chegou a me bater quando me neguei a fazer...
-Coisas estranhas? - Perguntou Morin - que coisas estranhas?
-É, pedia que lhe amarrasse e desse tapas, que o fizesse sangrar e... - fez uma pausa - certa vez quis que eu urinasse nele. Quando me neguei a deixar que fizesse tudo aquilo comigo, ele me bateu com a bengala e me ameaçou!
-Meu Deus, isso é abominável!
-Agora ele anda com Pauline. Já avisei a ela, mas, como disse, ele paga bem e Pauline deu de ombros.
-E onde está Pauline agora?
-No quarto que aluga aqui próximo.
-Poderia me levar até lá? - Morin não tinha dúvidas: as descrições davam conta de um homem em tudo igual a monsieur Jacques. Talvez a fortuna o fizesse dar um flagrante e pôr a ferros este tal - era o que esperava ao subir os dois lances de escada do pardieiro onde habitava Pauline.
   Deu dois ligeiros toques na porta e chamou pelo nome da jovem. Silêncio. ''Talvez não esteja em casa'' - pensou. Chamou novamente e o barulho vindo do interior denunciou a presença de alguém. Morin forçou a maçaneta. Um som gutural, um gemido aterrador e um pedido de socorro saído de uma voz sôfrega enregelaram as vértebras do inspetor. Esmurrou a porta a fim de arrombá-la, logrando escancará-la no terceiro golpe. A cena que ora se divisava quase fizera os olhos do inspetor saltarem das órbitas junto ao coração acelerado - um corpo de mulher, banhado em sangue, tendo seus membros arrancados, arrastava-se a muito custo no soalho. Adiante um machado e a janela aberta...
   Monsieur Jacques embarcou para Londres horas depois e nunca mais retornou à Paris.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Quatro Questionamentos Acerca da Sociedade

   Outro dia um amigo falou que em salas especiais do aeroporto, pessoas com grande poder aquisitivo podem ser tratadas distintamente dos que ocupam lugares comuns no avião. Ali recebem total atenção dos funcionários, os quais cuidam para que nada lhes falte. O que espanta verdadeiramente é o fato do reconhecimento de que as malas destas pessoas não podem ser extraviadas de modo algum - de modo algum! Ou seja, compreende-se que os demais passageiros tenham suas malas extraviadas. Quanto a isso a empresa de aviação encontra um meio de contornar. Mas qual explicação daria a uma pessoa muito importante? Qual explicação dar a alguém que tem muito dinheiro e paga por um serviço realmente caro? As malas dos passageiros comuns até se perdem; jamais as de pessoas muito importantes! Daí percebemos que a luta pelos direitos iguais, a luta pela liberdade, a luta pela fraternidade fazem cair antigos tiranos para erigir novos que, em se reorganizando, criam outros métodos de sobreposição e destaque: se antes eram nobres, hoje são empresários?
***
   Em Papua Nova Guiné existe uma tribo seminômade aborígene que vive no meio da mata, em casas construídas em cima de árvores. Ali, homens e mulheres andam seminus e tiram seu sustento da floresta e, através de instrumentos bem rústicos, conseguem cortar árvores, fazer fogo, caçar, fabricar farinha - tal como no período Neolítico. A reportagem sobre esta tribo utilizava termos como 'primitivo' e 'civilização', contrapondo culturas evidentemente díspares, repetindo certos vícios do senso comum que não admite, em pleno século XXI, que algo assim ainda exista. Nós, que temos as prerrogativas da civilização, perdemos irremediavelmente essa relação com a Natureza, e portanto somos incapazes de obter fogo e comida se acaso viermos nos perder na mata. Aí eu pergunto: quem é realmente primitivo?  
***
   Uma médica me disse que, segundo uma constatação científica, mais da metade das pessoas acima de quarenta anos teria alguma doença crônica e seria dependente de remédios futuramente. O mundo moderno apresenta facilidades e tecnologias que visam melhorar a vida do indivíduo. Por outro lado o escraviza ao ponto de não saber mais se as grandes empresas de fármacos querem realmente que ele se cure... Ou permaneça doente para consumir mais e mais remédios. Será que as constatações científicas estão mesmo com a razão?
***
   A histeria da população, sempre irrefletida, consente que o Poder Judiciário cometa excessos, arbitrariedades e, em uníssono com a sociedade, se arvore na condenação prematura e sem cautela. É preciso arranjar um culpado, é preciso dar uma satisfação, contar uma história, calar a todos e saciar a sede por sangue. E com isso velhos conceitos estão ressurgindo: agora se fala que as pessoas nascem criminosas. Um Estado que se diz democrático nunca deveria permitir uma acusação sem elementos concretos: todos são inocentes até que provem o contrário - não é o que diz a Constituição? E se o juiz tiver nascido criminoso também, quem irá julgá-lo?

domingo, 4 de julho de 2010

Impressões Paisagísticas I

Cemitério de Paquetá ao Pôr-do-Sol


   Quando a tarde já ia alta, a barca singrava a passagem entre os pilares da Ponte que, ao modo de garças, com pernas finas e fortes, enfileirados assim, pareciam poder saltar no menor soar de palmas. O vão extenso, no ângulo certo, assemelhava-se a um espaço de várias agulhas, postas umas diante das outras, permitindo ao fio correr folgado e livremente por entre elas. Mal se sabia as águas turvas, douradas pelo Sol daquela hora e agitadas à força do vento. A luz fulgia em raios que desciam pela margem acidentada do Oeste, realçando os pequenos morros de perto e azulando silhuetas de outros mais distantes; e quase encobertos por nuvens diáfanas, furavam-nas e seus braços resplandeciam sobre os montes. Ao fundo, a Serra, quase oculta, porém majestosa em seu contorno gigantesco. E a embarcação, na lentidão de uma tartaruga marinha, balançava por entre navios ancorados e igualmente indolentes - aqui e acolá, cargueiros e petroleiros com suas carcaças robustas de metal. A ilha enfim, verdejando a meio mar, assomou-se à paisagem  após algum tempo de viagem.
   A ilha, mal lembrando um número oito - de extremidades largas e curta no meio - pode-se percorrer em apenas um dia. Ali, visitantes têm o costume de passear em bicicletas e quadriciclos. O porto estava tumultuado de passageiros que chegavam, outros que aguardavam para embarcar, charreteiros, vendedores ambulantes e transeuntes em geral. O cemitério não fica longe dali - atravessando-se algumas ruas de terra batida, ei-lo deitado sobre uma pequena encosta, de muros baixos e entrada franqueada. As inúmeras sepulturas, dispostas nos declives do terreno, em degraus ascendentes, espalhavam-se entre árvores de copas altas, pintadas de branco na raíz. Uma casinha - possivelmente a do zelador - separava a ala destinada aos pássaros; e a capela rústica, no lado oposto, composta de pequeno altar e bancos de pedra para se pôr o esquife, achava-se aberta. A partir do terceiro lance, um caminho de paralelepípedos serpenteava para levar ainda mais alto no terreno, onde havia mais sepulturas e o mato crescido de limite. Poucos túmulos mantinham-se cuidados - azulejos e pastilhas frescos, flores e velas. A maioria estava coberta de limo; uns tinham a tampa quebrada e outros estavam vazios, tomados de terra e vegetação daninha. Apesar da melancolia das cores - verde e marrom acinzentados, bem foscos - o Sol se punha no horizonte, emprestando ao lugar certa vida. Era como se chamasse as almas perdidas para irem com ele - as lápides reluziam o vermelho esmaecido e solene do crepúsculo. O vento fresco ressoava nas folhas e nos galhos em atrito. No mais, era tudo silêncio.
   Fora dali, descendo até a praia, uma via cimentada conduzia ao farol que adentrava a noite fria, o mar bravio e a escuridão. Ouvia-se o marulhar inquieto nas pedras e nos barquinhos sacudidos. Na ponta, um verde luzia do alto de uma torre branca, indicando a entrada na enseada da ilha. Ao sul divisava-se a capital que, junto à outra cidade ao leste, imitavam as estrelas, vistas em maior quantidade dali. A ilha ficava a oeste e, ao norte, apenas um negrume no horizonte. E mais uma vez o vento a soprar tenazmente, interrompendo o sono da Natureza. Na volta, o mesmo quadro, porém, subtraindo-se o Sol, incontáveis lumes, nos barcos e nas margens, afestoavam a paisagem.