segunda-feira, 19 de julho de 2010

Personalidade do Mês de Julho

Victor-Marie Hugo (1802-1885)

   Victor Hugo foi um escritor francês de influências românticas e realistas, criador do personagem Quasímodo de O Corcunda de Notre-Dame. Uma de suas obras mais famosas é a monumental Os Miseráveis, publicada em 1862, que narra os acontecimentos em torno da Revolução de 1830, constituindo-se em verdadeiro tratado político e sociológico. É dela o trecho a seguir:

   ''Tenhamos compaixão dos castigados. Ai! Quem somos nós mesmo? Quem sou eu, eu que falo a vocês?Quem são vocês, vocês que me escutam? De onde viemos? Há mesmo a certeza de que nada fizemos antes de nascer? A Terra não deixa de ter semelhanças com uma prisão. Quem sabe se o homem não é um castigado pela Justiça Divina?
   Olhem a vida de perto. Ela é feita de tal forma que por toda parte se vê punição.
   Você é daqueles a quem se chama de feliz? Pois bem, você fica triste todos os dias. Cada dia tem sua grande amargura ou sua pequena preocupação. Ontem você temia pela saúde de alguém querido, hoje receia pela própria saúde; amanhã haverá uma preocupação de dinheiro, depois a crítica de um caluniador, a infelicidade de um amigo, mais tarde o tempo que está fazendo, e depois alguma coisa que se quebrou ou se perdeu; e ainda um prazer que a consciência e a coluna vertebral reprovam; e outra vez a marcha dos negócios públicos. Sem contar as penas do coração. E assim sucessivamente. Uma nuvem se dissipa, outra logo se forma. Apenas um dia em cem de plena felicidade e pleno sol. E você faz parte desse pequeno número que é feliz! Quanto aos outros homens, a noite estagnante paira sobre eles.
   Os espíritos reflexivos servem-se pouco destas palavras: os felizes e os infelizes. Neste mundo, vestíbulo de um outro, evidentemente não há felizes.
   A verdadeira divisão humana é esta: os que vivem na luz e os que vivem nas trevas. Diminuir o número dos que vivem nas trevas, aumentar o número dos que vivem na luz, eis o objetivo. É por isso que gritamos: ensino! Ciência! Aprender a ler é iluminar com fogo; cada sílaba soletrada cintila.
   De resto, quem diz luz não diz necessariamente alegria. Também se sofre com a luz; em demasia, queima. A chama é inimiga da asa. Queimar-se sem parar de voar, é esse o prodígio do gênio.
   Mesmo com conhecimento e amor, ainda se sofre. O dia nasce em lágrimas. Os iluminados choram, mesmo que seja apenas sobre os que vivem nas trevas.'' 

   As palavras de Victor Hugo, características de sua época, talvez tenham antecipado questões existencialistas dentro de uma visão global em relação à condição humana. A compreensão da Terra como prisão faz com que o homem seja eterno condenado, submetido a penas e privações, presa de um torvelinho de infelicidade, onde a ignorância é o maior dos castigos. Contudo, ele admite que nem mesmo o conhecimento é sinônimo de alegria - a luz também queima! Ou seja, ter ciência da própria situação é causa de grande sofrimento; ainda assim estágio necessário.  A pergunta primordial sobre o significado da vida fica subentendida, resposta para a qual jamais viremos a ter. Amofinações diárias e preocupações sempiternas não permitem que a felicidade seja plena; alguns experimentarão um momento ao sol, quando muitos nunca lhe divisarão os raios; não há distinção entre felizes e infelizes: a infelicidade é cláusula sine qua non da existência neste planeta.

Perversão

   Quando o inspetor Morin adentrou o recinto daquele pardieiro, em uma noite do ano de 1888, ficou aturdido com a imagem. Nunca em seus anos trabalhando na polícia de Paris  vira algo parecido. Sentiu uma repulsa tamanha e uma ânsia tal que mal pôde se convencer que diante de si havia um ser humano. Levou o lenço à boca, depois secou a fronte e, afastando a impressão inicial, averiguou que quem quer que tenha sido o causador daquilo, fugira pela janela.
   Havia uma certa suspeita acerca dos hábitos de monsieur Jacques; homem alto, belo e proveniente de boa família. Sua postura altiva e austera era salvaguarda para que frequentasse os salões da alta burguesia francesa. Possuía gostos refinados, apreciava bom vinho e dedilhava alguma melodia no piano, além de valsar a gosto de todas as donzelas casadoiras. Contudo, mantinha-se reservado a qualquer proposta ou invasão a seu inviolável reduto. Monsieur Jacques havia herdado ações de um banco e a renda gerada deste lucrativo espólio ia dissipar em mesas de jogo. Ao cair da noite, saía em sua sege até determinado ponto da cidade, e de lá perdia-se a pé nas ruelas de Montmartre. A desconfiança sobre sua prodigalidade surgiu quando um dos sócios percebeu um desfalque. Somado a isso, um misterioso assassinato fez o inspetor Morin ficar no seu encalço.
   Um velho, antigo funcionário de Napoleão III, perdera o pouco que tinha no carteado e fora morto com requintes de crueldade: seu corpo amarrado encontrava-se com diversos talhos feitos à navalha, dos quais o mais extenso e profundo localizava-se no pescoço, quase a dar uma volta completa. O inspetor, chamado a investigar o crime, concluiu que quem matara o velho, o fizera sangrar por um bom tempo até decidir-se por rasgar-lhe a garganta e pôr termo à tortura. Disseram-lhe que um homem alto e bem vestido era o provável autor: - é um tal que aparece quase toda noite, de casaco com gola de pele e luvas de couro. Fuma charutos da melhor qualidade e sempre pede água de Seltz antes do vinho. O velho Ultime devia a ele, deve ter sido ele quem matou! - disse o taverneiro inquirido por Morin. 
-Não duvido que tenha sido ele - afirmou uma prostituta de nome Amalie - esse homem me procurou algumas vezes, pagava bem, mas gostava de coisas estranhas e chegou a me bater quando me neguei a fazer...
-Coisas estranhas? - Perguntou Morin - que coisas estranhas?
-É, pedia que lhe amarrasse e desse tapas, que o fizesse sangrar e... - fez uma pausa - certa vez quis que eu urinasse nele. Quando me neguei a deixar que fizesse tudo aquilo comigo, ele me bateu com a bengala e me ameaçou!
-Meu Deus, isso é abominável!
-Agora ele anda com Pauline. Já avisei a ela, mas, como disse, ele paga bem e Pauline deu de ombros.
-E onde está Pauline agora?
-No quarto que aluga aqui próximo.
-Poderia me levar até lá? - Morin não tinha dúvidas: as descrições davam conta de um homem em tudo igual a monsieur Jacques. Talvez a fortuna o fizesse dar um flagrante e pôr a ferros este tal - era o que esperava ao subir os dois lances de escada do pardieiro onde habitava Pauline.
   Deu dois ligeiros toques na porta e chamou pelo nome da jovem. Silêncio. ''Talvez não esteja em casa'' - pensou. Chamou novamente e o barulho vindo do interior denunciou a presença de alguém. Morin forçou a maçaneta. Um som gutural, um gemido aterrador e um pedido de socorro saído de uma voz sôfrega enregelaram as vértebras do inspetor. Esmurrou a porta a fim de arrombá-la, logrando escancará-la no terceiro golpe. A cena que ora se divisava quase fizera os olhos do inspetor saltarem das órbitas junto ao coração acelerado - um corpo de mulher, banhado em sangue, tendo seus membros arrancados, arrastava-se a muito custo no soalho. Adiante um machado e a janela aberta...
   Monsieur Jacques embarcou para Londres horas depois e nunca mais retornou à Paris.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Quatro Questionamentos Acerca da Sociedade

   Outro dia um amigo falou que em salas especiais do aeroporto, pessoas com grande poder aquisitivo podem ser tratadas distintamente dos que ocupam lugares comuns no avião. Ali recebem total atenção dos funcionários, os quais cuidam para que nada lhes falte. O que espanta verdadeiramente é o fato do reconhecimento de que as malas destas pessoas não podem ser extraviadas de modo algum - de modo algum! Ou seja, compreende-se que os demais passageiros tenham suas malas extraviadas. Quanto a isso a empresa de aviação encontra um meio de contornar. Mas qual explicação daria a uma pessoa muito importante? Qual explicação dar a alguém que tem muito dinheiro e paga por um serviço realmente caro? As malas dos passageiros comuns até se perdem; jamais as de pessoas muito importantes! Daí percebemos que a luta pelos direitos iguais, a luta pela liberdade, a luta pela fraternidade fazem cair antigos tiranos para erigir novos que, em se reorganizando, criam outros métodos de sobreposição e destaque: se antes eram nobres, hoje são empresários?
***
   Em Papua Nova Guiné existe uma tribo seminômade aborígene que vive no meio da mata, em casas construídas em cima de árvores. Ali, homens e mulheres andam seminus e tiram seu sustento da floresta e, através de instrumentos bem rústicos, conseguem cortar árvores, fazer fogo, caçar, fabricar farinha - tal como no período Neolítico. A reportagem sobre esta tribo utilizava termos como 'primitivo' e 'civilização', contrapondo culturas evidentemente díspares, repetindo certos vícios do senso comum que não admite, em pleno século XXI, que algo assim ainda exista. Nós, que temos as prerrogativas da civilização, perdemos irremediavelmente essa relação com a Natureza, e portanto somos incapazes de obter fogo e comida se acaso viermos nos perder na mata. Aí eu pergunto: quem é realmente primitivo?  
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   Uma médica me disse que, segundo uma constatação científica, mais da metade das pessoas acima de quarenta anos teria alguma doença crônica e seria dependente de remédios futuramente. O mundo moderno apresenta facilidades e tecnologias que visam melhorar a vida do indivíduo. Por outro lado o escraviza ao ponto de não saber mais se as grandes empresas de fármacos querem realmente que ele se cure... Ou permaneça doente para consumir mais e mais remédios. Será que as constatações científicas estão mesmo com a razão?
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   A histeria da população, sempre irrefletida, consente que o Poder Judiciário cometa excessos, arbitrariedades e, em uníssono com a sociedade, se arvore na condenação prematura e sem cautela. É preciso arranjar um culpado, é preciso dar uma satisfação, contar uma história, calar a todos e saciar a sede por sangue. E com isso velhos conceitos estão ressurgindo: agora se fala que as pessoas nascem criminosas. Um Estado que se diz democrático nunca deveria permitir uma acusação sem elementos concretos: todos são inocentes até que provem o contrário - não é o que diz a Constituição? E se o juiz tiver nascido criminoso também, quem irá julgá-lo?

domingo, 4 de julho de 2010

Impressões Paisagísticas I

Cemitério de Paquetá ao Pôr-do-Sol


   Quando a tarde já ia alta, a barca singrava a passagem entre os pilares da Ponte que, ao modo de garças, com pernas finas e fortes, enfileirados assim, pareciam poder saltar no menor soar de palmas. O vão extenso, no ângulo certo, assemelhava-se a um espaço de várias agulhas, postas umas diante das outras, permitindo ao fio correr folgado e livremente por entre elas. Mal se sabia as águas turvas, douradas pelo Sol daquela hora e agitadas à força do vento. A luz fulgia em raios que desciam pela margem acidentada do Oeste, realçando os pequenos morros de perto e azulando silhuetas de outros mais distantes; e quase encobertos por nuvens diáfanas, furavam-nas e seus braços resplandeciam sobre os montes. Ao fundo, a Serra, quase oculta, porém majestosa em seu contorno gigantesco. E a embarcação, na lentidão de uma tartaruga marinha, balançava por entre navios ancorados e igualmente indolentes - aqui e acolá, cargueiros e petroleiros com suas carcaças robustas de metal. A ilha enfim, verdejando a meio mar, assomou-se à paisagem  após algum tempo de viagem.
   A ilha, mal lembrando um número oito - de extremidades largas e curta no meio - pode-se percorrer em apenas um dia. Ali, visitantes têm o costume de passear em bicicletas e quadriciclos. O porto estava tumultuado de passageiros que chegavam, outros que aguardavam para embarcar, charreteiros, vendedores ambulantes e transeuntes em geral. O cemitério não fica longe dali - atravessando-se algumas ruas de terra batida, ei-lo deitado sobre uma pequena encosta, de muros baixos e entrada franqueada. As inúmeras sepulturas, dispostas nos declives do terreno, em degraus ascendentes, espalhavam-se entre árvores de copas altas, pintadas de branco na raíz. Uma casinha - possivelmente a do zelador - separava a ala destinada aos pássaros; e a capela rústica, no lado oposto, composta de pequeno altar e bancos de pedra para se pôr o esquife, achava-se aberta. A partir do terceiro lance, um caminho de paralelepípedos serpenteava para levar ainda mais alto no terreno, onde havia mais sepulturas e o mato crescido de limite. Poucos túmulos mantinham-se cuidados - azulejos e pastilhas frescos, flores e velas. A maioria estava coberta de limo; uns tinham a tampa quebrada e outros estavam vazios, tomados de terra e vegetação daninha. Apesar da melancolia das cores - verde e marrom acinzentados, bem foscos - o Sol se punha no horizonte, emprestando ao lugar certa vida. Era como se chamasse as almas perdidas para irem com ele - as lápides reluziam o vermelho esmaecido e solene do crepúsculo. O vento fresco ressoava nas folhas e nos galhos em atrito. No mais, era tudo silêncio.
   Fora dali, descendo até a praia, uma via cimentada conduzia ao farol que adentrava a noite fria, o mar bravio e a escuridão. Ouvia-se o marulhar inquieto nas pedras e nos barquinhos sacudidos. Na ponta, um verde luzia do alto de uma torre branca, indicando a entrada na enseada da ilha. Ao sul divisava-se a capital que, junto à outra cidade ao leste, imitavam as estrelas, vistas em maior quantidade dali. A ilha ficava a oeste e, ao norte, apenas um negrume no horizonte. E mais uma vez o vento a soprar tenazmente, interrompendo o sono da Natureza. Na volta, o mesmo quadro, porém, subtraindo-se o Sol, incontáveis lumes, nos barcos e nas margens, afestoavam a paisagem.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Deu Holanda!

   Edmílson era um valdevinos, o maior da paróquia! Um sorrisinho de esguelha e a face cínica, trazia sempre depois de assistir o jogo no bar. E vinha cambaleando, se escorando nas paredes para almoçar em casa. A mulher trabalhava fora; saía bem cedo e só voltava à noite, cansada, a tempo de comer e ir dormir. Edmílson, desempregado, enrolava a pobre dizendo que nada lograva nas extensas caminhadas que fazia a ver se achava trabalho. Em verdade, ficava metade do tempo na galhofa e outra a encoxar a diarista. Neste particular, tinha uma queda pelas mulheres, fosse de que estirpe, origem ou enlevo - rezava em todas as cartilhas, mas defendia um só time! E nem era bonito não; confiava na sua quebrada meio pelintra para enredar as graças de alguma menina, pois era das novinhas que gostava! Daí o fato de não deixar a moça da faxina em paz e ai dela se agachasse para escovar um rodapé. Longe, claro, dos olhos da esposa que pensava ser o marido um homem de bem.
   O entrave era a sogra, velha sabida, que sentia o cheiro de safadeza desde que Ana Maria anunciou o noivado. E implicava o mais que podia com o caráter leviano do genro. Porém, a vida tem desses desencontros e deu à velha mal disso, mal daquilo e a fez cair de langorosa enfermidade em cima do leito. Emagreceu, empalideceu - quase morreu! Quase! Mesmo com a dificuldade para andar, mesmo com as necessidades de um ente convalescido, ela manteve-se firme, de olhos bem abertos para as escapadelas de Edmílson. Vendo assim a mãe doente, Ana Maria instou para que ele aproveitasse o tempo livre e cuidasse da mãe, fazendo mil recomendações para poder trabalhar sossegada.
   As novas atribuições deixaram Edmílson com a gota: dava comida, remédio, levava ao banheiro e limpava: - ''bem que a empregada podia fazer isso'' - pensava. Mas Ana Maria não queria correr riscos de ver sua mãe maltratada: - cuide dela você que é genro! - dizia. Ele tinha razões particulares para sopear seus resmungos: a mulher era dona da casa e o sustentava. Ademais, todo dia cinco, levava a sogra para retirar a pensão no banco - e só por isso o esforço já valia! Se ela acaso engasgasse, dava uns tapinhas de leve no rosto dela: - dona Leonice, não morre, não! O que será de nós? O que será de sua filha sem a senhora? - querendo dizer: - ''o que será da pensão?'' - Sempre sobrava um trocado para a cervejinha ou para o Bicho, além de ser uma ajuda e tanto no orçamento: ela patrocinava o ócio dele.
   Por essa época, vizinhos novos se mudaram para a casa ao lado: um casal jovem e a mãe de meia-idade da moça. Travaram logo amizade e ficaram muito íntimos, a ponto de passarem juntos os feriados religiosos. De vistas compridas naquela moça, Edmílson fez algum malabarismo para impressioná-la. Ela, afetando fidelidade, não deixou que passasse de alguns abraços mais apertados, beijinhos no pescoço e mão atrevida. Entretanto, sua mãe, aquela de meia-idade, viúva e sacudida, assanhou-se e desfazia-se em sorrisinhos e piscadelas ao chegar o Edmílson. E como Ana Maria dispensara a diarista fresca e trocara por uma gorducha cheia de varizes, seu  passatempo era ir encontrar-se na alcova com a tal jovem senhora, quando o casal e sua mulher saíam para o trabalho. Recebia-o aquela com uma lingerie vermelha e o rosto afogueado pelos copinhos de batidinha mentolada - Edmílson se refestelava em suas carnes.
   A sogra percebia tudo e tentava denunciá-lo com voz pastosa e mole. Edmílson afirmava que eram delírios da senilidade e, na companhia da amante, chegou por fim a desejar que a velha morresse: - aquele estafermo está durando! Se vem uma tosse mais funda, penso que é a hora! Nada! Está carcomida, mas resiste! Bem que se ela empacotasse, eu voltaria à minha vidinha mansa; mas sob a patrulha da velha, eu não dou um passo em falso! Ah, eu renunciaria até à pensão e me empregaria! Meu Deus, o que digo? Não vou prometer o que não cumpro! - e riam ele e a outra. 
   Vieram então os jogos da Copa do Mundo e os vizinhos combinaram de ver juntos cada partida do Brasil. E para a festa preparavam comida da boa, tudo regado à muita bebida. Torciam e quando vinha o gol, Edmílson abraçava a vizinha e dava um beliscão disfarçado na mãe. E a sogra, deixada assim para trás, cuidava o Edmílson que não tardava fazer a passagem: - ''mas que não fosse em dia de jogo do Brasil! Tem é graça parar no cemitério na final da Copa!'' - Só que o destino tem aqueles tais desencontros: quando a seleção brasileira foi enfrentar a holandesa, Edmílson, apostando na vitória, empanturrou-se de feijoada, tomou muita cachaça e cerveja; teve um mal súbito e caiu duro. 
   No velório, dona Leonice, apoiada na filha, chegou vagarosamente e abaixando a cabeça, falou perto do ouvido do defundo: - deu Holanda!  

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Intolerância às Avessas

   A sociedade brasileira enveredou por um caminho perigoso; um caminho, talvez, que traga a censura legitimada pela população que inventou de, novamente, eleger o Estado e seus Três Poderes como um Leviatã que realiza a Vingança em nome da Justiça. O senso comum não sabe discernir discriminação de preconceito, crendo serem palavras sinônimas, quando, em verdade, uma depende da outra sem necessariamente ter o mesmo significado. Está certo que uma palavra, de tanto ser repetida com um sentido, acaba por assumi-lo. Todavia, dizer-se livre de preconceitos é mentira! Todos têm preconceitos porque todos fazem pré-julgamentos, seja em situações simples do cotidiano, seja nas mais complexas que envolvem questões étnicas ou mesmo sexuais. Discriminação, apesar de partir de uma atitude preconceituosa, está associada à separação, afastamento, classificação. Quer dizer, é possível ter preconceitos, mas é inadmissível discriminar.
   Porém, considerando novamente o senso comum, interpreta-se qualquer crítica à uma postura ou modo de vida como preconceito sob a prerrogativa da liberdade de expressão. Não importam as vozes dissonantes, não importam as opiniões contrárias! A aceitação é obrigatória em nome da igualdade! E este tal discurso torna-se conveniente à medida que as pessoas passam a valer-se do preconceito como justificativa. Então, é neste momento que o aparelho público entra para punir aqueles que não concordam, aqueles que criticam - a liberdade de um é silenciada em detrimento da do outro. E cria-se uma intolerância às avessas.
   O preconceito jamais deve servir de bandeira e meio de esquivar-se da própria incapacidade. Não há quem não haja sofrido preconceitos, manifestos das mais variadas formas, pelos mais diversos motivos; e não há quem não tenha agido de maneira preconceituosa com alguém. Apesar de ser uma característica lamentável da espécie humana, nunca poderão arrancar da sociedade o juiz que dorme em cada um - isto é ilusão! Devemos combater, sim, a supressão dos direitos legítimos dos cidadãos, através de leis mais abrangentes, cuidando para que se não valham destes mesmos direitos passando por cima dos de seu próximo! Reconhecer as mazelas interiores, saber-se falho seria uma via interessante para melhorar o convívio social. Mas as leis, por vezes, concorrem para que certas máscaras de hipocrisia se sustenham, aumentando a leviandade dos que querem punição, condenação a qualquer preço, sem atentar para a lei em si que, supostamente defendendo o bem-estar social, pode discriminar com a anuência geral. Este é o grande monstro, o grande Leviatã que a sociedade está alimentando!
   Para concluir, antes que alguma mente irrefletida interprete erroneamente estas palavras, este texto não está atirando ao solo combates necessários à garantia de direitos. Ao contrário, observando aqueles que vulgarizam o termo, que o confundem e utilizam de forma egoísta e desmedida, é que o objetivo principal e real do mencionado combate não se perderá. Senão, a liberdade, a verdadeira liberdade vai mal...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Era Só Um Cachorro!

   Passando um homem na rua, distraído com qualquer coisa, filosofia, cisma ou mesmo bobagem, foi atacado por um cachorro feroz que escapara de uma casa próxima. Sentiu a mandíbula tenaz fechar-se em seu braço direito e os afiados dentes espetarem-lhe a carne. Deu um berro de susto e de dor e quase foi ao chão. Malogradas as tentativas de fazê-lo afastar-se, conseguiu alcançar um pedaço de madeira firme e deu golpes no bicho até partir-lhe o crânio e cair com a boca ensanguentada. Mal se lobrigava a pele rasgada coberta pela massa vermelha, agora misturando-se o seu com o sangue do cachorro. Gemeu, mas ninguém acudiu-o. Ao contrário, ouviu-se apenas uma voz gritando:
-Polícia! Polícia! Alguém chame a polícia! - Uma mulher de meia-idade, dando mostras de nervosismo, sacudia-se para chamar a atenção de um guardinha do outro lado da rua: - polícia! Polícia! - O guardinha correu e, em lá chegando, perguntou o que acontecia: -seu policial, este homem cometeu um assassinato! - os olhos do pobre rapaz se arregalaram jungidos aos do guarda - este homem acaba de matar um cachorro, veja! Eis aí o flagrante!
-Mas minha senhora, ele me mordia, por pouco não arranca meu braço!
-Ora, ora, agora quer fazer-se de vítima? Pois eu vi muito bem que o senhor descia o lenho no infeliz e indefeso animal!
-Sim, porque ele me atacava! Precisava me defender!
-Senhor policial - disse a mulher voltando-se para o guarda - essa criatura que jaz aí morta não tinha compreensão, não entendia a gravidade da situação, mordeu por instinto ou porque foi provocado talvez; este senhor entendia e sabendo-se mais forte, abusou de seu poder, privando o animal da vida! Ele não poderia ter feito isso! Não tem esse direito! Prenda este assassino!
-Assasssino? E se esse cachorro houvesse pulado na minha garganta e perfurado a minha carótida? Eu poderia ter morrido!
-Mas essa é boa! Tentando se justificar com a legítima defesa! Deveria ter pedido ajuda e não tomado tal atitude, meu senhor! E o que dirá a família desse bicho, hein? Sabe-se lá se tinha uma fêmea, se tinha filhotes? E o dono? Vai ficar desconsolado! - A mulher consternava-se.
-Minha senhora - o guarda enfim falou - o que temos aqui não se trata de um homicídio e, afinal, era só um cachorro!
-Como é que é? Bicho também é gente, seu guarda! Bicho também é gente! É por isso que esse país não vai para frente: por causa da impunidade! Esse homem tinha que apodrecer na cadeia! - A mulher estava transtornada - quantos cãezinhos não morrem todo dia atropelados, abandonados, com fome, a mercê de doenças, do frio? Todo dia eu rezo e peço a Deus pelos bichinhos indigentes, dou comida àqueles que encontro pelo caminho e já levei até alguns para minha casa. Mas os homens nunca entendem o sentido da verdadeira caridade...
-Minha senhora, este homem está sangrando e precisa de cuidados... - disse o guarda.
-Pois que morra! Deus que me perdoe, mas será menos um bandido no mundo! - E, abaixando, tomou no colo o cadáver do cão, apertou-o contra o corpo e, choramingando, sussurrou: -oh, coitadinho, não se preocupe, eu vou te dar um enterro digno, acender uma velinha e mandar rezar uma missa para você, viu? E no dia de Finados, colocarei flores no seu túmulo... Coitadinho... - levantando assim, foi embora, falando baixinho como se o animal a pudesse ouvir.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Evidência

   Enquanto dirigia o Opala na direção da Zona Norte, o investigador Moraes era interrogado pelo Freitas, um de seus homens: -mas isso é o quê? - Moraes dava mostras de amofinação.
-Eu só quero saber mais detalhes sobre o caso - respondia o Freitas.
-E qual parte você não entendeu ainda?
-Bem, ela saiu do centro comercial acompanhada do namorado naquela noite...
-Ex-namorado, ex...
-Certo, ex-namorado. Se era ex, o que eles estavam fazendo juntos?
-Ele disse que queria conversar com ela para tentar reatar. Jurou arrependimento pelas grosserias e ameaças...
-Aí ela saiu no carro dele...
-No dela, eles saíram no carro dela. Eles se encontraram em um centro comercial, conversaram em uma lanchonete e depois foram até o estacionamento e entraram no carro dela...
-Entendi. E depois disso ela não foi mais vista?
-Não até que acharam o carro e o corpo no fundo de um rio a trinta quilômetros da cidade.
-Então, se ele fazia ameaças a ela, inconformado com a separação, deve ter fingido arrependimento como pretexto para matá-la.
-É o que todos dizem por ele ser o principal suspeito. As únicas filmagens analisadas foram as do centro comercial que os mostra na lanchonete e no estacionamento. Mas não conseguiram levantar outras provas além destas. Eles se encontraram na noite do crime e só!
-Há ligações feitas do celular dele para o dela?
-Há sim! Só conseguimos esta evidência com a apreensão do celular dele. O dela desapareceu. Nem os mergulhadores da polícia encontraram. Ele ligou antes, talvez para marcar o encontro.
-Mas há uma outra coisa bem estranha: como ele conseguiu convencê-la a ir àquele local, próximo ao rio, afastado da capital?
-Difícil de responder, e eu acredito que da parte dele jamais saberemos. E os fatos estranhos não param por aí: como foi que ele saiu de lá já que o carro dele estava na oficina como alegado? Naquele ponto não passa ônibus ou qualquer tipo de transporte. Ele teria que andar bastante para chegar em uma rodovia e aí sim tentar voltar - Moraes parecia estar perto de alguma nova evidência - em breve confirmarei minhas suspeitas.
-Suspeitas? Quais?
-Acalme-se. Bem, estamos chegando, olhe o endereço, é aqui, não é?
-É sim, é aquela casa rosa ali.
   O Opala parou em frente a uma casa térrea, de muro alto e portão de madeira. A rua residencial parecia tranquila. Ao longe se via os prédios da região central. Moraes tocou a campainha e um cachorro começou a latir. Após alguns minutos, uma bonita moça veio atender. Ela olhou para Moraes, homem corpulento, aparentando já ter passado dos quarenta; e para Freitas, baixo e franzino, mal chegado aos trinta - fez expressão de surpresa, seguida de desdém.
-Bom dia... Quer dizer, boa tarde porque já é mais de meio-dia! Eu sou o investigador Moraes e esse é o Freitas. Viemos aqui dar uma palavrinha com a senhora - disse enxugando a testa com um lenço.
-Ah, pois não. Pensei que fossem da imprensa. Aqueles abutres não deixam a gente em paz! Entrem por favor! - a moça, de cabelos negros e compridos, lábios finos, olhos grandes, magra e mediana, os conduziu ao interior - os senhores aceitam uma água, um café?
-Um cafezinho ia bem! - respondeu o Freitas.
-Antes, porém, queríamos fazer algumas perguntas sobre a morte de sua irmã - cortou Moraes - a senhora saberia me dizer o porquê dela atender ao chamado do ex-namorado para encontrá-la na lanchonete...
-Como o senhor sabe que ela era minha irmã? - Interrompeu assustada.
-Minha senhora, eu sou investigador. Ademais, seu rosto apareceu em vários jornais pelas entrevistas que deu...
-Ah sim, é verdade. O senhor deve entender, minha cabeça... Enfim. O ex-namorado da minha irmã era um homem violento. No início do namoro, ele parecia um cavalheiro, mas depois teve crises de ciúmes... Ele era grosseiro com ela... Chegou a bater em minha irmã. Foi por isso que ela quis terminar tudo... Mas ela ainda o amava. Acho que teve esperança que ele mudasse, sei lá! Eu disse a ela que não fosse encontrá-lo... Eu disse!
-A senhora sabia que os dois haviam voltado a se encontrar bem antes? Que eles haviam reatado, mas que ela escondeu esse fato da família?
-Como é?
-É isso mesmo. Foram encontradas ligações feitas do celular de sua irmã para o dele, além de mensagens que os dois trocaram poucos dias antes do assassinato.
-Impossível! Ela dizia que... Eles estavam separados bem uns três meses! - A moça pareceu aturdida - Desgraçado! Então ele a ludibriou para atrai-la e matá-la! Meu Deus!
-Eles estavam apaixonados. Ao menos era o que diziam as mensagens.
-Não é possível! Não é possível! - Repetia - já deveriam ter prendido esse homem! Ele é um demônio!
-Onde estão seus pais?
-Foram para a casa de uns parentes no interior do estado. Estão muito abalados! Lá, ao menos, ficam longe do assédio dos jornalistas...
-Foram de carro?
-Por que o senhor quer saber disso? O que isso tem a ver com o caso?
-Nada não, me perdoe. E o café?
-Ah sim, eu vou fazer... Já volto. Fiquem à vontade! - Os dois permaneceram sentados na sala. Dali a instantes, um toque no celular fez a moça ressurgir, meio afoita, para atendê-lo - ah, caiu! - disse decepcionada - o café está pronto! - Moraes e Freitas tomaram o café, agradeceram e saíram. Novamente no Opala, retomaram a conversa.
-Moraes, eu não entendi uma coisa: você não disse que o celular da vítima havia desaparecido? Como foi que você pôde afirmar que as mensagens provinham do celular dela?
-Freitas, todos os números foram investigados e eu descobri que muitas das ligações e mensagens provinham de um celular registrado no nome da vítima. Isso é óbvio! A última ligação foi feita minutos antes dos dois se encontrarem e uma mensagem foi gerada do celular dele após os dois terem se separado naquela noite...
-E?
-Ela respondeu à mensagem!
-Isso pode ter sido forjado facilmente. Ele pegou o celular e respondeu a própria mensagem.
-Não. A vítima recebeu uma ligação cinco minutos depois de um número de orelhão. Digo, cinco minutos após ter deixado o suspeito no local indicado, segundo seu depoimento.
-Ah é? E onde fica esse orelhão?
-Próximo de onde trabalha a irmã. A ligação durou três minutos. A vítima atendeu e conversou com a pessoa que ligou...
-Mas então você suspeita que a irmã tenha ligado e conversado com ela? A vítima pode muito bem ter atendido minutos antes de morrer sem saber que...
-Não, você não está entendendo. Quando o celular da irmã tocou, era eu quem ligava. E eu ligava para o número registrado como sendo o da vítima. Ou seja, a irmã ficou com o celular. Mas não era para o celular estar com a vítima no carro? Como foi que o celular parou nas mãos da irmã? A irmã acaso mergulhou, achou o celular e ficou com ele antes mesmo que a polícia o fizesse? Soma-se a isto o meu blefe bem-sucedido acerca do envolvimento velado de ambos, coisa esta a que ela reagiu de modo estranho, não?
-Então você acredita que...
-Veja: depois que a vítima deixou o suspeito, ela recebeu o telefonema da irmã, que trabalha em um local no caminho do rio onde o corpo foi achado. A casa dos tais parentes fica a uns quarenta quilômetros depois. Suponhamos que a irmã, sabendo do encontro dos dois, ligou do orelhão, para não deixar rastro, sugerindo ou combinando com a vítima que fossem até a casa dos parentes, cada uma em seu carro. Na altura do rio, a irmã pára no acostamento e acende o alerta indicando que está com problemas mecânicos. A vítima pára também. Suponhamos que a irmã arranje um meio de fazer a outra desacordar, talvez com éter, prende-a no cinto, fecha o carro e o empurra no rio para que ela se afogue... Foi o que de fato se constatou. Fica com o celular da vítima para não descobrirem a ligação feita por ela e foge em seu carro...
-Foi por isso que você perguntou do carro?
-Sim! Que melhor maneira de esconder uma prova do que a mandando para longe? Aqui, junto com os pais para a casa dos parentes.
-Nossa!
-Essa moça foi muito imprudente. Decerto não pensou que pudessem rastrear o número do orelhão através da operadora. Imaginando não ter deixado pistas, deixou-as mais do que pode imaginar. Ela jamais deveria ter ficado com o celular. O tal rapaz pode ser um homem grosseiro e violento, mas deliberadamente diz a verdade. Quem matou, segundo as minhas deduções, foi a irmã! As circunstâncias deram a ela o álibi perfeito... Quer dizer, não tão perfeito. Mas, jogando a culpa no suspeito mais evidente, esqueceriam-se de investigá-la, pois que era a própria irmã, muito próxima à vítima e, esperava-se, incapaz de cometer um assassinato de alguém da família!
-E por que ela mataria?
-Não sei, mas temo que, se não conseguirmos provas suficientes para incriminá-la, jamais venhamos a saber...

terça-feira, 22 de junho de 2010

Cálice de Sangue

   Em Paris, nos idos de 1794, o medo se materializava no cheiro de sangue coagulado do ar viciado pelas sucessivas mortes do período do Terror. Os rumos da nova República Francesa eram observados com acuidade pelos olhos temerosos dos habitantes, mergulhados na treva de incerteza do rumo que tomaria a política de perseguições do cidadão Robespierre. A diversão mórbida da leviandade alheia era fixar-se na lâmina momentos antes de despencar sobre o pescoço de algum condenado; o rufo dos tambores anunciava o espetáculo grotesco, o qual era assistido bem de perto pela Morte. Eugène estava presente quando a cabeça de Luís XVI foi erguida pelos cabelos para que toda a turba o contemplasse, pela última vez, e o rechaçasse como o Judas da Nação. Insuflado pela curiosidade e excitado pela vil escumalha, que urrava diante da laboriosa guilhotina, aparecia com ar debochado na taverna dizendo: -mais tantas decapitações! Arre! Creio que tinha até gente conhecida! - E dava uma risadinha de soslaio.
   É certo que Eugène tinha prazer; não possuía qualquer credo ou moral, nem freios que lhe calassem no fundo da consciência este tal prazer. Não que desejasse a morte de outrem. Seria incapaz de pegar em garrucha ou navalha para tirar uma vida. Porém, vindo a condenação pelas mãos de terceiros, achava realização sombria, advinda do canto mais escuro de seu ser. No início até cerrava as pálpebras para livrar-se da aterradora imagem da guilhotina. Passou a olhar de esguelha e depois a fitar todo o quadro - as execuções despertavam a pior face do gênero humano: o que chamaram posteriormente de sadismo. Acompanhava o resultado no mesmo interesse que os demais e estremecia no torvelinho de pranto, agonia, de grito e vibração - réquiem de Morte.
   Era um época de histeria, de desconfiança e de medo, sobretudo medo. Qualquer consideração acintosa do que se passava poderia valer uma subida ao patíbulo. Foi naquele ano de 1794, mais ou menos no Germinal, que um tal Lafitte veio arrumar contenda com Eugène. Parece, dizem, que eram amigos havia muitos anos e brigavam por causa de uma jovem donzela de nome Charlotte, peixeira do mercado, feiosa e coxa. Os dois beberrões de má fama saíram a socar-se, derrubando mesas e cadeiras e, uma vez separados pelos outros homens que ali estavam, Lafitte jurou vingança: - ainda hei de beber seu sangue, miserável! - vociferou empunhando um cálice de estanho - hei de beber neste cálice! - Eugène limitou-se a rir. Na manhã seguinte, Eugène, que dormia em um catre nos fundos de uma pensão sórdida, foi acordado pelo som alto de porta batendo: três soldados entraram pelo quarto e, ainda sob efeito do àlcool, Eugène foi levado ao cárcere. Acusaram-no de traição, porquanto afirmavam ouvirem-no bradar que torcia para que a Áustria derrotasse o exército revolucionário e acabasse com a infâmia de Robespierre. Não adiantaram os apelos e as negativas; julgaram-no sumariamente - seria executado!
   No dia em que subiu ao cadafalso, seus olhos embaciados divisaram o imenso anjo a sorrir-lhe um sorriso metálico e afiado; algumas lágrimas escaparam-lhe e, por fim rendido, deixou que a música sinistra dos tambores o elevassem a um estado de conformidade, arrastando-o à solução derradeira das dores do homem - morria e era inocente. Seus cabelos cortados deixavam o pescoço nu para receber o golpe final - escuridão e silêncio perpétuos. Entre a pilhéria da bulha e o cadáver decapitado, uma figura obscura estendeu a mão e com um cálice de estanho, recolheu algumas gotas do sangue, pingado do alto do estrado de madeira, sorvendo o líquido vermelho como se fora vinho.

domingo, 20 de junho de 2010

Onde Está Deus?

   Retornou após padecer três dias na enfermaria; seu andar encimesmado, curvado e trôpego estacou diante da porta do casebre: paredes sujas de terra, teto de telhas frágeis e uma pequena janela de onde saía um som patético de dor - gritos e choro de alguém em franco aturdimento. Colocou a mão e empurrou a tábua de madeira que ocultava o interior. A figura esquálida, de pele acinzentada e olhos tristes fez sua entrada muda; a força e tenacidade perdera havia três dias; transformara-se em fiapo roto e ensebado, arremedo de gente, frangalho disperso pela escarninha fatalidade. E ela, feito torrente, arrasta consigo tudo o que lhe vem pelo caminho: levou sua mão esquerda e o filho que a esposa ora pranteava.
   José era um cortador de cana que mal ganhava para sustentar os cinco filhos. Levantava antes do sol e, subindo na caçamba do caminhão, ia com seus companheiros à lavoura. Mantinham-se em silêncio pelo trajeto, absortos em pensamentos de esperança ou fracasso talvez; de provável resignação e abandono. Um sorriso furtivo escapava, uma melodia e uma lágrima - o trabalho não lhes trazia dignidade. Recebiam uma quantia irrisória pelos dias inteiros passados no labor árduo. Rendiam-se, porém, como condenados arremetidos contra a vaga do destino. Aquela terra fértil revolvia-se pelo bem de outrem; pela grandeza e prosperidade de indivíduos alheios, de bolsos ávidos e alegres. Os braços levantavam-se, empunhando no ar o facão, e desciam... Outra vez e mais outra, até que o expediente acabasse e lhes sobrasse tempo exíguo para respirar e viver. E no lar, desabavam feito a cana morta em seus leitos, dormindo um sono profundo e sem sonhos porque não lhes era permitido sonhar. A vida se repetia na manhã seguinte esperando que os sucessivos dias se consumissem enfim. Foi em uma dessas manhãs rutilantes que a lâmina decepou inopinadamente a mão de José: uma catadupa sanguinolenta jorrou; um urro de dor aguda e o desmaio. Levaram-no para um posto precário onde padeceu três dias.
   Ressuscitado, tornou à casa para recuperar-se do trauma; era já metade do homem que fora e a outra metade restante acabaria por desabar: o filho, de apenas dois anos, perecera picado por uma cobra. Maria, sua esposa, somente conseguia proferir, de voz esganada, a frase vinda do âmago do coração dilacerado: -Jesus morreu! Jesus Morreu! - e voltando-se para José, perguntou: -José, onde estava? Nosso filho, José, nosso filho morreu! - Ele limitou-se a mostrar-lhe o antebraço enfaixado pela ausência da mão. Os dois assim se abrançando, derramaram lágrimas que podiam encher um açude inteiro. Jesus foi enterrado no quintal árido e com ele a luz daquela casa. E, enquanto o corpinho magrelo sumia na terra embalado em um caixote, José repetia de si para si: -onde está Deus? Onde está Deus? Onde está Deus?
   José jamais obteve resposta. A vida continuava a despeito da mão, a despeito do filho, a despeito da carestia sempiterna de algo inexplicável dentro de si. Ao longe, para além do campo, havia uma felicidade indiferente; havia pessoas que riam e desejavam; havia abastança e regozijo; havia fé. Não obstante, para José, a vida continuava...