sábado, 2 de abril de 2011

O Romantismo de Amélia

   Amélia é que era mulher de verdade - diziam; de fato, era moça, cabelos negros, pele alva, lindos olhos esmeraldinos, mediana, fresca, odor de rosas... Linda! Além de tudo era inocente. E sua inocência cativava. Se velha, pela candura e bondade; se amiga, pela atenção e deferência; se família, pelo respeito e devoção; se homem, pela beleza e ancas largas que fariam qualquer um fartar-se. Apetitosa! - Afirmariam antigamente - gostosa! - Diriam certamente nos dias de hoje.
   Amélia sonhava. Sonhava com um príncipe que lhe fizesse muito feliz. E ia aos poemas com certa volúpia, imaginando que um daqueles amores poderia estar guardado para si. Lia romances e se via resgatada, de toda maldade e todo o tédio, por um cavalo branco que a levaria ao castelo dos suspiros. Escrevia em seu diário, anotava a espera, contava os minutos e mirava a paisagem pela janela, apoiando a cabeça na mão direita, correndo os olhos pelos transeuntes, assistindo ao sol poente e depois, a lua majestosa! E ali, arfando da saudade de algo que não viveu, sentia poder rebentar de paixão por alguém que não existia. Caso se encontrasse sozinha, permitia correrem-lhe as lágrimas, as quais iam molhar a fronha de mais uma noite solitária.
   Todavia, dentre as reviravoltas da vida, surge o Dimas. Rapaz bonito, alto e de personalidade. Era desejado em segredo por muitas jovens do bairro; e invejado, talvez, por muitos outros que lhe tinham na conta de cafajeste - afinal, ainda que um canastrão de marca maior, Dimas saía com a mulher que quisesse. Certa feita, seus olhares se encontraram e Amélia sentiu palpitar-se inteira. Teve até um pouco de vertigem e mal pôde balbuciar um cumprimento quando Dimas veio falar-lhe. Foi em uma festa. Dali a alguns dias estavam namorando. Amélia escrevia seus versos, fazia desenhos de rodapé, vivia o amor em cada gesto como uma princesa encantada. Dedicava ao Dimas seus pensamentos, sua respiração e sua existência. Primeiros amores são assim: crê-se no enlace sempiterno, na sobrevivência e na eternidade do namoro. Uma breve nota, porém, deve ser observada: os pais da menina não aprovavam, mas ainda assim o recebiam em casa. Para ela, o fato da desaprovação emprestava um ar trágico a que todo o amor deve prosternar-se. Ou não seria amor. Na cabeça dela funcionava assim: amores impossíveis, fugas repentinas, sacrifícios são todos ingrediente de romance e felicidade. E temia, temia que ele morresse, temia ver-se separada de Dimas, temia não realizar todo o platonismo que, para Amélia, ganhava o clamor de um fetiche.
   Dimas, então, em um desses encontros tórridos e proibidos - no banco detrás ou na sombra da árvore; queria ir com Amélia às vias de fato. E tanto fez, tanto insistiu, que ela cedeu e armaram tudo para não perder o clandestino, o mistério. A fantasia de Amélia mistificou a união dos corpos, a comunhão que os tornaria unos, que sacramentaria o sentimento, mesmo que, em seu íntimo, achasse que deveria antes casar-se. Entregaria-se e quase não podia conter-se por isso!
   Dimas pegou um carro emprestado, buscou-a às oito e só parou próximo da rodoviária, em uma rua pouco iluminada e frequentada por tipos estranhos. O hotel ficava ao lado: construção baixa, de três pavimentos, parecendo exceder em idade devido a sua decadência. Dimas e Amélia subiram as escadas escuras e chegaram no andar do quarto: uma porta empenada abria-se para um cubículo que cheirava a mofo. Havia infiltrações pelas paredes, um colchonete, uma lâmpada pendurada por um fio e insetos, muitos insetos. A moça não esperava por aquilo, não era aquilo que ela havia imaginado. Dimas acendeu um cigarro e foi tirando a roupa; em seguida, forcejou por tirar a dela. Depois de alguma insistência, ambos enfim deitaram e ele pediu que ela fizesse coisas imundas, além de gritar um palavriado baixo e tentar agredi-la. Nua após o ato, deixou-o deitado de lado e foi banhar-se. Não havia tábua no retrete; um cano fazia jorrar a água gélida sobre ela e um sabãozinho de coco serviu-lhe para lavar a intimidade cheia de sangue.
   O romantismo de Amélia morreu  naquele quarto barato de um hotel ordinário, nos braços de um homem cuja vontade era destruir-lhe a pureza... nada mais...

segunda-feira, 7 de março de 2011

Entrevista com uma Socialite

Entrevistador: -estamos aqui com a socialite Lucinha Lafourd, que acaba de voltar de Nova York onde apresentou um desfile da sua mais nova grife. E aí, Lucinha, o que está achando da recepção aqui no Copacabana Palace?

Socialite: -estou achando tudo maravilhoso, a festa está linda; só estou estranhando um pouquinho o calor do Rio de Janeiro. Sabe como é, em Nova York faz um frio nessa época do ano!

Entrevistador: -e como foi apresentar a nova coleção de sua grife nos Estados Unidos?

Socialite: -ah, foi maravilhoso. Você sabe que eu não modelo mais, né? Meu marido tinha ciúme de mim na passarela. Aí resolvi montar essa grife e chamei vários modelos e estilistas para me prestigiarem. Agora, nós estamos querendo abrir uma filial em Londres, Paris, Milão e, quem sabe? Aqui no Rio.

Entrevistador: -parece que você superou muito bem a morte de seu marido, Pierre Lafourd...

Socialite: -ah, Pierre era maravilhoso. Morreu com noventa e três anos, acredita? Ninguém dizia, meu amor, Pierre era inteiraço! Nosso amor era verdadeiro porque não via idade; nossas almas eram jovens, isso que importava.

Entrevistador: -para quem não sabe, Pierre era dono de uma das maiores cadeias de hotéis do mundo e, curiosamente, não tinha filial no Brasil.

Socialite: -ah, mas já tem previsão para abrir uma em Ilhéus, se não me engano. Uma rede indiana quer comprar e prometeu abrir uma filial aqui.

Entrevistador: -você vai posar nua novamente?

Socialite: -como é que você sabe disso? Ah, me fizeram uma proposta, eu estou estudando com meu empresário; me chamaram também para ser Rainha de Bateria. Mas agora só estou interessada em lançar o meu cd; se Deus quiser, até novembro sai.

Entrevistador: -mas essa mulher tem alma de artista, depois de lançar um livro, agora um cd também?

Socialite: -a arte é maravilhosa, gente. Aquele meu livro vendeu feito água; era um romance que se passava na Europa e no meio tinha uns roteiros gastronômicos, umas dicas de hotéis. Eu quis unir o útil ao agradável, sabe? E tudo bem baratinho para as pessoas sem recursos poderem aproveitar também, né? Afinal, quem não gosta de viajar? E a Europa é logo ali!

Entrevistador: -a renda foi para a sua ong, né?

Socialite: -foi, e a renda do novo cd também vai. Inclusive, eu fiz um leilão, antes de viajar, em prol dessa ong que visa recolher da Zona Sul as pessoas em situação de rua. Porque todas elas estão na linha de risco, né? E a ong tem um espaço bom, um espaço onde essas pessoas poderão encontrar dignidade! Ao invés de deixá-los usando drogas, assaltando, a ong recolhe e leva para lá! Não é maravilhoso?

Entrevistador: -e o que a ong oferece?

Socialite: -lá tem cursos de etiqueta, línguas e em breve teremos corte e costura. Não basta dar o peixe, gente, tem que ensinar a pescar, e com esses cursos, eles terão os instrumentos necessários para arranjar uma profissão. Olha, se vocês quiserem visitar, nosso espaço fica em Sepetiba... As pessoas se queixam da distância, mas de táxi é rapidinho! Passem lá, estamos precisando de doações.

Entrevistador: -é de iniciativas como essa que o país precisa para melhorar!

Socialite: -é, sim! E o último governo fez um bem enorme a essa população com uma obra, que eu não chamaria nem de social, mas de caridade. Quando que a esquerda faria isso, gente? Impensável, né? Todo mundo dizia que comunista comia criancinha e olha aí, quer atitude mais cristã? Nada contra as outras religiões, gente! Foi maravilhoso, agora só voto com eles!

Entrevistador: -e agora, você já tem um novo destino para viajar?

Socialite: -amanhã embarco para Paris, meu amor, preciso renovar meu guarda-roupa! Esse calor do Brasil faz a gente suar e aí estraga minhas fazendas. Fora que Paris, nessa época do ano, é ma-ra-vi-lho-sa!

quarta-feira, 2 de março de 2011

Capitalismo Selvagem II

Na última mensagem que deixei aqui, aventurei-me a falar sobre o Sistema Capitalista. Está claro que é um tema inesgotável e que jamais caberia em um mero 'post'; aliás, é tema que mal caberia no espaço de um livro, devido aos seus múltiplos aspectos. A minha intenção foi a de abordar determinados pontos que me têm causado um certo incômodo e o fiz de forma sucinta e pouco explicativa; 'joguei no ar' como dizem. Portanto, gostaria de esmiuçar algumas coisas, o que ainda não será de modo satisfatório.

***

1- Digo que sou pessimista por não crer que uma só ideologia dê conta de abarcar e transformar um processo histórico plenamente, alterando o sistema de modo satisfatório. Ideologias são frágeis, permeáveis e mudam ao sabor do momento; são incapazes de alterar um estado essencial da natureza humana. Pois, por mais que tenhamos o status de civilizados, jamais deixaremos de ser animais. Afinal, a nossa compreensão dos direitos humanos não superou um dado universal: a violência entre os povos é algo latente, existe desde que o mundo é mundo.
2- Apesar de ser cristão, tenho severas críticas ao Cristianismo; ao me ver, a mentalidade tacanha da sociedade ocidental se deve em parte à sua cultura religiosa. Talvez, o que ora vá dizer tenha mais a ver com o catolicismo: o discurso de humildade, subserviência e compaixão tornou o nosso pensamento medíocre, nos estagnou, nos fez hipócritas. Afinal, por que é ilícito reconhecer suas próprias qualidades, enriquecer, ambicionar, desejar algo grandioso e não se contentar com pouco? Por que temos sempre que nos justificar como se pedíssemos perdão? Por que não podemos dizer o que realmente pensamos e escamoteamos qualquer reação adversa para ser politicamente corretos?  Jesus expulsou os vendilhões do templo, mas nós só lembramos de dar a outra face!
3- Ainda sobre a mentalidade cristã: as situações que provocam a comoção alheia, movimentam a sociedade em favor daqueles que sofreram prejuízos; pois bem, o Cristianismo, em todas as suas vertentes, prega a caridade e a compaixão, mas não há nada pior do que isso. Entenda-me: não há sentimento que nos torne mais superiores do que a compaixão, e não há ato que nos distancie mais do próximo do que a caridade. O indivíduo faz doações para pessoas que ele nem conhece, acreditando que cumpre um dever perante Deus e esquece-se de atuar no seu cotidiano como uma pessoa de bem. Jogar moedas no gazofiláceo, para fazerem bastante barulho e outros perceberem o tamanho da obra, é uma prática corrente. Todavia, ao invés de mandar um casaco roto através de terceiros a alguém desconhecido, deveríamos ser solidários - e não caridosos - com aqueles que estão ao nosso lado. Não quero dizer que sejamos indiferentes, mas objetivos quanto à real mudança que podemos proporcionar. De que adianta me preocupar com a fome, no outro lado do oceano, se os meus vizinhos sofrem? Por isso eu não acredito quando o empresário fulano, ou o artista beltrano, aparece na televisão para mostrar o grande favor que fez à sociedade com tais e quais projetos.
4- Afirmar que a sociedade é extremamente desigual é lugar-comum. Ela sempre foi e sempre será; já o disse, sou pessimista. Uma camada, que se diga minoria, exije seus direitos, mas com a devida punição daqueles que os violarem; ou seja, não há garantias de acesso à cidadania que desfaça a discriminação, a desigualdade, porque há sempre um ponto de vista, há sempre um referencial cultural, há sempre um desejo de punir, há sempre uma perspectiva maior e melhor em detrimento de outra - há sempre um oposto, um mal a ser combatido! Não adiantam os presidentes negros, mulheres, operários, são todos seres humanos, falhos e insígnes. Não adiantam a Justiça e a mídia que se quer combativa; elas estão sempre construíndo novos valores e perseguindo, ainda que sutilmente, quem não concorde, condenando previamente quem pense diferente ou mesmo quem deu um mal-passo, como se ninguém pudesse errar. E aí todos se calam, porque é feio dizer que a coleguinha é gorda, que detesta animais, que não gosta de pobre, que o outro teve uma conduta repreensível, etc, etc... O desejável é ser hipócrita, é julgar, mas afirmar que não o faz; é ser desigual, é alimentar um sistema com a suprema ignorância que nos torna cegos à crítica das nossas próprias práticas; é se matar na academia e nunca ter o corpo perfeito; é querer copiar o cabelo e o nariz da protagonista; é se trancafiar em casa com os animais e colocar-lhes roupa e nome de gente; é achar que cair de bêbado e beijar oito pessoas de sexos diferentes na mesma noite é ser de vanguarda; é se furtar do contato pessoal, dos laços sociais; e, sobretudo, é enriquecer os terapeutas porque nos sentimos extramente solitários em um mundo sem valores!
5- Inaugurou-se uma nova ditadura da bem-aventurança: as pessoas precisam ser felizes. E a que preço? A Felicidade plena é uma utopia e não foram poucos aqueles que já defenderam essa idéia. Talvez pelo fato de jamais conseguirmos aproveitar um instante que seja de Felicidade. E como poderíamos? A vida é regida pelos números, pelas estatísticas, pela alta do mercado; agora as grandes empresas valorizam a criatividade, a versatilidade de um profissional robótico que, feito rato, corre em uma roldana para produzir cada vez mais e, quando esgota-se - entenda-se: quando envelhece - é mandado embora. Os administradores, os economistas e as infelizes do RH vivem fazendo recomendações de como se deve ou não compor o currículo, de como se deve ou não se portar em entrevistas, de como se deve anular a personalidade de alguém para que seja bem-sucedido profissionalmente. Quem permite que eles falem? Quem lhes deu ouvidos? Quem sabe não são os mesmos que se convencem com as propagandas que vendem a Felicidade; que compram livros de auto-ajuda porque são feios e desempregados e nunca logram um lugar embaixo do Sol que ilumina o alto executivo e o galã da novela? Quem lhes disse que é essa a verdadeira Felicidade?
6- A sociedade está mais alienada a cada dia, e eu me incluo nela. Não perseguimos a instrução, não buscamos ampliar nossos horizontes. Lemos uma Literatura comercial, não estamos acostumados a refletir. Vivemos em constante medo e pedimos o auxílio do malfadado  Leviatã. Imitamos, pois não temos personalidade para reinventar. Adotamos a opinião do grupo para não destoar. Não acreditamos em nada porque não há nada em que se acreditar. Bebemos muito, perdemos os sentidos, imergimos na fantasia enganosa dos aditivos para não vermos a realidade. Rogamos pela paz e subsidiamos a violência. Somos extramente contraditórios. Queremos ser o chefe da matilha, queremos ser selecionados e continuar vivendo na ilusão de que somos os mais inteligentes animais.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Capitalismo Selvagem

   Sou um crítico atroz do Capitalismo; não que comungue das opiniões socialistas ou comunistas. Mas creio que a via que escolhemos para nosso desenvolvimento foi péssima, de maneira que somos incapazes de escapar-lhe, porquanto estamos irremediavelmente vinculados ao consumo. Não obstante, tenho o direito de abominá-lo,e abomino.  O homem transformou amor de pai, amor de mãe, o sexo e até Deus em produtos geradores de lucro: vide o crescimento do comércio, da indústria pornográfica e das igrejas; que vendem carinho, prazer e perdão. E para qualquer coisa que se vislumbre, pergunte-se: quem está lucrando com isso?
   Parafraseando um poeta contemporâneo, o Capitalismo está 'na Natureza'; por isso mesmo o interpreto como 'selvagem'. Isto porque ele não foi uma teoria inventada, ninguém disse: 'a partir de hoje estará fundado um novo sistema'; ele está enraizado e profundamente associado à nossa moral paleolítica, que insiste em permanecer vívida apesar das inovações tecnológicas. Por todos os lados vemos competição, disputa acirrada; seres humanos mais capazes, mais aptos a este ou aquele serviço - seleção natural. Abomino também a Administração e a Economia; podem ser necessárias, porém a que mundo? São duas ciências, imiscuídas a tantas outras que surgem a cada dia, que raciocinam em números, estatísticas e que calculam quanto de prejuízo houve em uma tragédia qualquer, onde centenas de pessoas morrem. Ou será que não é isso que se ouve falar quando há uma enxurrada, terremoto ou incêndio: 'o ramo de hotelaria, o comércio, etc, etc deixaram de lucrar'?  Serão também honestas as intenções daqueles que eregem a solidariedade em grandes painéis para que todos se sensibilizem com suas vultosas contribuições? Quanto não recebem em troca, quanto de renda indireta? 
   Aí vêm a mídia, a consultora de RH e o economista dizer se beltrano está dentro dos padrões de beleza e inteligência, se ele faz parte de uma nova geração, a qual recebeu grande carga de informações, e se é um profissional de ponta a ser aproveitado pelo mercado de trabalho. E se beltrano não for nada disso, ainda lhe restará a velha fórmula da Felicidade, tão alardeada e tão vendida pelos escritores de auto-ajuda: seja feliz com o que você tem, ainda que feio, mal-ajambrado, pobre e desempregado! São esses os valores do Capitalismo. Mais: são esses os valores que a civilização judaico-cristã ajudou a erguer - 'os humilhados serão exaltados, e os exaltados serão humilhados'. Civilização esta, aliás, que defende acintosamente a Democracia, como regime igualitário e ideal para qualquer sociedade, sendo que este mesmo regime, contraditoriamente, é um dos mais desiguais.
   Sou pessimista, sim, o confesso; não acredito na segunda vinda de Jesus ou na Revolução Comunista. Lamento, com pusilanimidade e indolência, a terrível via que a nossa civilização escolheu. A nós cabe remendar pateticamente a solidão na qual nos vemos imersos gradualmente: tratamos os animais feito seres humanos, perdemos mais tempo em frente ao computador, nos furtamos de encontrar amigos e parentes, queremos ser bem-sucedidos antes dos trinta anos, tememos a velhice, desejamos um corpo esbelto e, sobretudo, fugimos dos laços sociais. Resta-nos que Deus tenha comiseração e nos exalte depois dessa humilhação que consentimos ao ajudarmos a manter-se de pé o edifício condenado do Sistema; pois que somos bons filhos e agradecemos por ter a liberdade... Liberdade de consumo.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Soterramento

   Começou com um leve trepidar; como o sono já se avizinhava, deu de ombros. Ajeitou-se mais uma vez na cama e virou de lado. O trepidar, contudo, aumentava. A chuva, caindo no meio da noite, rugia ferozmente e a catadupa, com seu barulho infernal, crescia, descendo feito rio das encostas, transformando a rua adiante em escoadouro. E do alto vinham os gritos, ainda baixos, longínquos, logo ganhando força, reverberando, agudos, desesperados, sumindo em seguida; a fúria das águas arrastava a gente para o abismo profundo da morte. No silêncio, que ainda teimava no quarto, Ivan tentava dormir. E, inopinadamente, o mundo veio abaixo.
   Era uma casa térrea, construída na subida do morro, que seu Lourisval acabara de caiar. Possuía janelinhas modestas e um quintal que circundava a propriedade. Ali viviam o próprio Lourisval, viúvo e já entrado em idades; Ivan, seu único filho e o cachorro vira-latas, que se abanava ladino com seu rabo no terreiro. O velho, na força de seus braços, ergueu a casa, aos poucos, assim guardando, assim economizando para enfim chamar de sua aquela morada. Infelizmente, a pobre esposa não sobrevivera para ver o sonho do portãozinho de ferro, das cortininhas rosadas, das paredes branquinhas, das margaridas na entrada, concluído. E Lourisval lembrava-a entristecido e dedicava cada pedacinho, de muro ou de azulejo, à amada de muitos anos. Depositava, agora, todo seu amor no filho, no jovem filho, para quem deixaria seu tesouro.
   A Ivan, em seu íntimo, não agradavam a cidade, o bairro ou mesmo a casa. Pareciam-lhe de uma feiúra, de um atraso, padecendo, a cada dia, da vontade terna de ir alhures buscar sua felicidade. Pensava na capital, na profusão de luzes a piscarem, dançando vivazes, provocando risos e a oportunidade da agitação das novidades contadas aqui e acolá; pensava nos amores caros, pensava no poder dos cifrões; pensava em algo rico, colorido, belo a pulsar longe daquele lugar arenoso, calado e aborrecido. Mas nada dizia ao seu pai; nada, nada dizia. Permitia ao velho gozar da fantasia de seus últimos anos, a alegria de acreditar no grande feito de toda uma existência - acreditar que aquela casa seria eterna e duraria o tempo das pirâmides. 
   Certa noite, Ivan foi ter com alguns amigos por ocasião do aniversário de um deles. Mas a festa, a tal ponto entediada, fez com que Ivan  saísse logo nas primeiras gotas de chuva. Algo lhe fazia desejar, mais que tudo, a tranquilidade do seu quarto. Talvez o corpo cansado do trabalho, talvez a conversa morosa daquela gente. Experimentou algum alívio quando bateu na cama; entregou-se ao sono que a tempestade veio interromper. Não obstante a torrente, a terra que se desfazia e a água que já carregara todos os convivas daquela festa, Ivan dormia; seu Lourisval berrava, o cachorro latia, a lama invadia - Ivan dormia. E no sonho, em contraste absoluto com o sonho anterior da casa, seu corpo, aquele corpo cansado, evolava como fumaça, tamanha a brincadeira que a tempestade fazia: jogava-o de lá para cá, de cá para lá, feito títere macabro, frangalho grotesco disputado pelos dois extremos da linha.
   Quando abriu os olhos, nada lograva divisar, apenas sentia uma dor lancinante que percorria seus membros. Naquele momento, não podia ver que estava embaixo de uma massa de terra molhada e escombros e que uma placa de concreto apoiava-se em seu tórax e escorava-se perpendicularmente na parede atrás, formando um ângulo de quarenta e cinco graus. Ironicamente, esta mesma placa protegera o pescoço e a cabeça de Ivan do completo soterramento, mas exercia-lhe uma pressão que o sufocava gradativamente. Perguntava de si para si o que ocorrera, onde estavam seu pai e seu cachorro; em seguida vieram-lhe a imagem da casa, dos momentos passados ali, da felicidade que jamais reconhecera. Lágrimas surgiram naquele corpo moído, naqueles ossos esmagados, naqueles músculos retesados pela umidade frígida. Desejou, por fim, apenas em um breve instante, renunciar à capital para estar novamente no lar, ao lado do pai e do cachorro. E neste torvelinho, o anúncio silente da alvorada trouxe com ele um certo movimento, rumores distantes, vozes que cresciam na sua direção. ''Alguém veio me tirar daqui!'' - quis gritar: ''socor...'' - mas o grito sufocou na garganta - ''eu estou aqui, eu estou aqui'' - sua mente, de tanto que se afligia, quase poderia produzir um som; a voz em nada obedecia; o grito ainda sufocava. Boas intenções nem sempre levam a grandes feitos, principalmente quando a azáfama produz uma atitude pouco estudada: a picareta de um dos homens, que assim revolvia o escolho, atingiu algo - um cano, talvez - fazendo, mais uma vez, brotar a água que, descendo em jorro, escorreu até o pequeno fosso formado pela placa de concreto, a parede e todo o entulho; o fosso por onde escapara a cabeça de Ivan a respirar. Pouco e pouco, o líquido gélido tomou a boca e as narinas da pobre alma aterrorizada pelo anjo que ainda não se evadira. Horas mais tarde, acharam Ivan, do corpo moído; e cabeça afogada.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Personalidade do Mês de Dezembro

Horacio Quiroga (1879-1937) e Ambrose Bierce (1842-1913?)

   Pelo fato de não ter escrito sobre nenhuma personalidade no mês de Novembro, agora em Dezembro resolvi falar de dois contistas de terror, ambos pouco conhecidos no Brasil, a quem tive a felicidade de encontrar neste ano através de sua Literatura: Horacio Quiroga e Ambrose Bierce.
   Horacio Quiroga nasceu no Uruguai, mas viveu um bom tempo na Argentina; sua vida foi marcada por algumas fatalidades, dentre as quais o disparo acidental, feito por ele com uma arma, que acabou vitimando seu amigo. Seu mais famoso livro Contos de Amor, de Loucura e de Morte foi publicado em 1917; nele se verifica uma característica muito particular nas histórias de Quiroga: seu terror está presente na natureza e na própria vida, manifestando-se através de situações trágicas que selam o destino de seus personagens. Formigas carnívoras, picadas de cobra, insolação, a crueldade do homem para com seu próximo marcam seu estilo, tornando-o, a meu ver, mais verossímil. Horacio Quiroga se suicidou ingerindo cianureto em 1937.
   Já Ambrose Bierce, de origem estado-unidense, se aproxima mais do estilo clássico de terror, ao modo de Edgar Allan Poe: o sobrenatural permeando a ação da qual depende a própria história. Não que ele despreze a crua realidade da relação entre as pessoas: para tanto é capaz de opor pai e filho, condenar um homem que sonha em voltar ao lar e matar crianças para fazer um óleo medicinal; mas a fatalidade nele é demonstrada de forma bem mais sutil. Para seu rico imaginário contribuiu a sua experiência na Guerra Civil Americana (1861-1865), cenário no qual se passam alguns de seus contos. Bierce foi jornalista e publicou muitos textos satíricos, dentre eles O Dicionário do Diabo onde dá uma versão crítica do significado de certas palavras. Desapareceu por volta de 1913 ao atravessar a fronteira do México para, supostamente, se juntar aos homens de Pancho Villa. 

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Combray está Morrendo

   Tanto ouvimos falar sobre o Capitalismo, o sistema classificado como terrivelmente cruel e desigual; todavia, jamais, em todos os meus anos de Academia, pude compreender sua nefasta amplitude tal como agora. A ação predatória das construtoras está colocando abaixo muitas casas e pequenos prédios de minha cidade. O que para uns pode parecer progresso, para mim é um crescimento desordenado. Aos poucos o ar interiorano vai deixando de existir, o lugar acolhedor vai morrendo em detrimento do lucro avassalador de homens que em tempo algum pisarão o solo deste lugar - além dos empreiteiros, ganham o prefeito e os vereadores com seus alvarás e vistas grossas. Esta palavra pode parecer a de um conservador aguerrido que não quer ver morrer o cenário caro de sua infância, avesso à mudanças e crítico da modernidade. Talvez. A leitura recente de Proust me fez resgatar certos acontecimentos há muito perdidos, revolvidos assim, tirando do fundo do baú a memória invencível de uma época de inocência boa, descompromissada, não menos vívida e alegre do que a fase adulta. ''Toda Combray'' - diz o autor - ''e suas redondezas, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, de minha xícara de chá''; uma simples bebida quente, na qual molhava-se um biscoito, reconstituiu-lhe aos olhos a cidade de Combray; minha Combray hoje desmorona - temo ter que buscar-lhe no fundo de uma xícara de chá.
   Outro texto interessante, carregado do ar nostálgico, foi escrito por Victor Hugo quando do exílio se referia a Paris: ''É, para ele, uma doce lembrança imaginar que ainda resta alguma coisa do que via quando estava em sua terra, e que nem tudo teria desaparecido. Enquanto podemos ir e vir em nossa terra natal, imaginamos que as ruas nos são indiferentes; que as janelas, os telhados e as portas não nos dizem nada; que as paredes nos são estranhas; que as árvores são como todas as outras, que as casas onde não entramos são inúteis, que as calçadas por onde caminhamos são simples pedras. Mais tarde, quando estamos longe, percebemos que aquelas ruas nos são caras; que aqueles telhados, aquelas janelas e aquelas portas nos fazem falta; que aquelas muralhas nos são necessárias; que aquelas árvores nos são queridas; que naquelas casas onde não entrávamos, todos os dias entrávamos; e que deixamos entranhas, sangue e coração naquelas calçadas''. Victor Hugo ainda alerta o leitor: era provável que casa e ruas que descrevia não mais existissem.
  Vejo casas e prédios sendo demolidos em função da rapina gananciosa de pessoas que nunca estiveram ligadas a eles; que ignoram que a inconsequência da construção indiscriminada de edifícios pode acarretar um ônus drástico à própria cidade - imagine cinco edifícios de doze andares, com seis apartamentos por andar, reunindo setenta e duas famílias, cada uma com um carro; aumento dos congestionamentos, precariedade nos serviços, falta de recursos suficientes para abrigar tanta gente em espaços não-planejados e mal-adaptados. E para isso tudo contribui a classe média que compra apartamentos na planta, a perder de vista, acreditando nas promessas que o empreendimento imobiliário oferece: espaço gourmet, cinema, brinquedoteca, piscina, academia etc. Mas e se as setenta e duas famílias resolverem utilizar os mesmos ambientes de uma vez só, vai ter fila de espera? Compensa pagar, na planta, por coisas das quais não se valerá? Enquanto uns se matam para pagar as prestações, o condomínio e o IPTU altos; outros, ou melhor, outro conta as notinhas angariadas a custo do consumo irrefletido. É este, para mim, o retrato do Capitalismo; era nisto que pensava quando li o trecho do Manifesto Comunista que diz que a burguesia tornou tudo mera transação monetária. Agora vejo que as casas do caminho, com as quais pouco me importava, desaparecidas repentinamente, me fazem falta - minha Combray está morrendo, e não há nada que se possa fazer.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Tomara que Morra!

   Luís era um rapaz comum. Não despertava qualquer interesse da parte de ninguém. Não era feio e nem bonito; possuía uma inteligência mediana e talentos razoáveis - tocava músicas no violão e escrevia poemas de qualidade duvidosa. Sua opinião era sempre conciliatória e as palavras, brandas. O rosto era de uma conformidade sorridente, com a boca pendente e pálpebras descaídas. Era difícil que alguém lembrasse dele nas conversas, pois não lhe admiravam ou tinham repulsa - era simplesmente esquecido. Compensava, contudo, a falta de personalidade com uma bondade extrema. Envolvido nas atividades religiosas, alimentava uma fé absoluta e explicava cada acontecimento da vida como sendo fruto da vontade suprema de Deus - o fracasso que carregava feito estigma nas costas servia de provação.
   Talvez fosse mesmo uma provação sua trajetória lamentável no colégio, agravada pela associação à uma pobre alma indolente que achou por bem nomear de 'namorada'. Eram felizes, apesar de tudo: compunham o corpo musical da igreja, faziam alguma caridade, pregavam em voz langorosa, pontuando com jargões de motivação; tinham sonhos pouco ambiciosos, viajavam para perto, viam novela juntos e dormiam cedo - ela queria ser pedagoga e educar criancinhas; ele arrumava empreitadas e economizava para enfim casarem e consumarem seu amor.  
   O andar mal-ajambrado, o acúmulo de gordura precipitando-se sobre a fivela do cinto, a transpiração excessiva e a gaforina davam-lhe um aspecto um tanto acabado. No fundo, Luís não pensava em sua própria condição; estava sempre agradecido, sempre resignado. Se lhe tinham alguma opinião adversa, ignorava, pois pensava que era, acima de tudo, obrigação disfarçar qualquer julgamento mau em relação a outrem. Esforçava-se por sopitar o sentimento ruim que fosse, crendo incorrer em pecado mortal, assistido de perto pela Providência vingativa. Amava ao próximo, sim, amava forçosamente! E cria sinceramente que todos lhe devotavam a mesma compaixão. As más línguas, pelo contrário, balbuciavam: fracassado! - E assim descia a rua, divagando numa filosofia inócua, alternando com uma lista mental de afazeres e preocupações, quando reparou na figura conhecida que vinha na direção oposta.
   -Luís, que surpresa revê-lo! Há quanto tempo, não? Acho que oito anos... - enquanto seu interlocutor falava, Luís pôde vislumbrar melhor, a partir da forma do rapaz adiante e de suas palavras, que o destino não lhe fora muito generoso: seu colega tinha se desenvolvido, ficado mais alto, adquirido um corpo esbelto combinado a uma beleza sutil - ah, eu me formei em Direito, estou trabalhando em um dos maiores escritórios da capital... Conheci uma moça lá e nos casamos - Luís percebeu algo estranho dentro de si; algo acompanhado de uma palpitação crescente que parecia tomar, pouco a pouco, os seus membros, provocando certa confusão interior: suas vistas adquiriram expressão, suas sobrancelhas arquearam, os dentes superiores roçaram nos inferiores, suas mãos tremeram por instantes, um rubor subiu-lhe à face. Nunca experimentara aquilo, não com tanta emoção; a ponta da lança rasgou-lhe a carne e o líquido, em franca ebulição, entornou, ganhando as veias, os órgãos e cada célula - a inveja genuína chegava ao paroxismo e um segundo bastou para incorporar o anátema do condenado pela tal Providência, talvez, representando, no interior, cada títere grotesco que fazia parte de sua história. Foi quando desejou a morte daquele homem, imaginando algo bem sórdido, bem cruel que fizesse esboroar todo aquele sucesso - E aí repetiu para si:
   -Tomara que morra! - Despediu-se do colega com uma falsa simpatia e a frase continuou a reverberar na cabeça: - tomara que morra! Tomara que morra! - Em seguida, penitenciou-se amargamente, mas era tarde: um estrondo ressoou; o rapaz jazia no chão - a inveja ali nasceu e deu seu último suspiro.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Porcos

  
   Os porcos são um problema na cidade. Está certo que é uma cidade de muitas permanências e, embora média, com população numerosa, às sombras de uma capital, mantém o ar bucólico de interior. E os porcos representam esta tal permanência. Por onde passam, reviram o lixo, espalham todo seu conteúdo pela calçada e deixam seus dejetos pelo caminho. São grandes, rubicundos e numerosos. Famílias inteiras passeiam para lá e para cá, imperturbáveis, como se a rua lhes pertencesse. É sabido que podem atrair doenças, além de dar um aspecto horrível ao bairro, porquanto carregam o estigma da imundície. O prefeito, contudo, que habita plagas estrangeiras, faz vistas grossas e ouvidos de mercador: só se interessa pelos problemas do município em época de eleição; aí faz alguma obra de maquiagem em um logradouro de classe média e é reeleito. E, em tempos de calmaria, torna-se um parente suíno na boca de algum eleitor indignado. 
   Os moradores, daqui e acolá, não sabem mais o que fazer. Algumas senhorinhas temem os malfadados animais. Há quem seja obrigado a desviar-se do caminho original - e com razão: tomam boa parte das vias. Questão de saúde pública? Talvez. Porém, quando resolveram fazer justiça com as próprias mãos - o problema parecia não ter solução - quando se decidiram por uma atitude mais enérgica, contundente, a voz da sabedoria ergueu-se em defesa daquelas humilíssimas criaturas:
- Alto lá - dizia - estes suínos não podem ser vítimas de uma visão predatória, contextualizada em seu bojo pela política capitalista que visa construir um projeto de conjuntura pseudo-classista de ordem pública, enfatizando o caráter complexo de uma desconstrução do conceito de porco, revisitado pela pós-modernidade, 'publicizado' em todas as cadeias midiáticas, reformado na propaganda burguesa viceral que atinge o caráter mediano do cidadão desinformado, privando dos direitos constituídos os seres invisíveis, porém concretos, sólidos e viventes de então; exonerando da parcela democrática o indivíduo, enquanto suíno, atentando contra sua psicologia e ostracizando o seu coletivo, entendido como vara! Quando o Estado ergue sua lâmina contra a carne, objetivando sanar um problema consentido pela anuência social unânime, comete um ataque fragmentário, cujos cacos vão cortar a moral emblemática daqueles que se sacrificaram pela liberdade de expressão, desrespeitada dentro de uma interpretação macroeconômica, tendo em vista os progressos de países periféricos e o ressurgimento de movimentos que englobam uma compreensão igualitária, dizendo que os porcos são nossos irmãos! Digam não ao churrasco, pois ele viola a capacidade de ir e vir destes seres!
   Voltaram-se aqueles que tinham pedaços de pau e facões nas mãos para ver o dono de palavras tão categóricas. Era alguém que se proclamava intelectual. No fundo, ninguém compreendeu nada - talvez nem o próprio. Mas ele valeu-se do repertório decorado para tentar conter a fúria daquela gente. Afinal, o diploma e o título conferiram-lhe as prerrogativas de recomendar como as pessoas deveriam agir - elas precisavam de quem lhes dissesse a razão de pensarem assim e prescrevesse o modo correto de atuar dentro da sociedade; escolhendo, claro, muito bem as palavras para não denunciar algum possível sentimento baixo que o igualasse aos demais. Terminou o discurso improvisado falando em 'hipocrisia das gerações subsequentes'. Baixaram-se os pedaços de pau, baixaram-se os facões; uma barbárie foi evitada - a missão do intelectual estava cumprida. Carregou os infelizes porcos para sua casa - eram cinco ao todo - e lá não sabia bem onde alojá-los. Ao cabo de uma semana, os animais disputavam o lugar no sofá, comiam o que viam pela frente, espalhavam excrementos pelos cômodos e deixavam um bodum tenebroso. O Intelectual não teve dúvidas; ligou para todos os seus correligionários e fez correr o aviso: CHURRASCO ANUAL DO PARTIDO - CARDÁPIO: CARNE DE PORCO.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O Fantasma Canibal

   A casa ficava em um bairro de subúrbio; dois pavimentos, sem qualquer rigor arquitetônico, de linhas simples e um aspecto de abandono. O muro alto, enegrecido pelo limo, guarnecido de um portão de ferro, escondia o quintal de ladrilhos vermelhos e as janelinhas gradeadas do interior. O motorista do carro preto confirmou o endereço e logo estava com seu companheiro na calçada, batendo palmas para chamar o morador. Um homem mediano, de cabelos esbranquiçados, calva avançada e trajes simples, atendeu e os fez entrar. 
   O motivo da visita foi um telefonema: alguém, de nome João, dizia sofrer com manifestações paranormais - barulhos estranhos, objetos que flutuavam, outros que se partiam, vozes, vultos iam madrugada adentro, interrompendo o sono e tornando o local praticamente impossível de se habitar. João não era religioso, não possuía qualquer credo, nem vícios ou histórico de distúrbios psiquiátricos - isso seu interlocutor tratou de averiguar e encerrou a conversa prometendo uma visita. Histórias como aquela eram comuns e sempre muito bem-vindas, afinal, aquele grupo, que se reunia constantemente, era vulgarmente denominado de ''caça-fantasmas''. Fernando era o líder e direcionava as ações dos demais. Para este caso, solicitou a um membro que fizesse uma espécie de levantamento da região onde morava o tal João; a outro pediu que preparasse os equipamentos e registrasse toda a ação, enquanto ele faria uma anamnese, como ora foi mencionado, para tentar descobrir se tudo aquilo não era fruto de uma mente fértil - trabalhos assim requeriam muito critério.
   Apenas o rapaz responsável pelos equipamentos pôde acompanhar Fernando. A casa era espaçosa, com um bom número de cômodos, muitos deles vazios e sem janelas - era possível ver o cimento usado para tapá-las; o cheiro não era agradável e os recintos onde havia móveis estavam bagunçados.
-Paulo, o que diz o relatório sobre esse lado da cidade?
-Esse bairro começou a ser ocupado na década de 1940, tendo suas primeiras construções próximas à linha férrea, e cresceu nas duas décadas seguintes, aumentando sua área até o córrego, totalizando uns cinco quilômetros de um limite a outro - e, voltando-se para o morador, perguntou: - o senhor sabe quando esta casa foi erguida?
-Não - o homem, de ar taciturno, respondia a tudo laconicamente.
-Bem, eu reparei que a casa fica em uma rua que termina no córrego. É provável que seja de fins da década de 1960 - concluiu Fernando - o senhor mora aqui desde quando?
-Há quinze anos.
-E quem morou aqui antes?
-Não sei.
   Fernando teve má impressão daquele lugar e daquele homem. Havia algo estranho que lhe provocou certa repulsa inexplicável, agravada pelos maus odores da atmosfera rançosa da casa. A noite caiu. As câmeras, gravadores e mesmo o aparelho de medição de energia eletro-magnética não haviam detectado qualquer indício das manifestações. Sequer ruídos foram ouvidos ou espectros, divisados. O homem limitou-se a observar sem nada dizer. Parecia perscrutá-los com olhos dissimulados e cobiçosos, de cenho franzido, por vezes sorrindo de soslaio. Fernando decidiu rastrear cada quarto novamente, e Paulo seguiu para a cozinha. Após isso, conforme combinado, encerrariam o trabalho.
   Fernando entrou em um recinto escuro, apontando a câmera para cada canto. Confiando na lente noturna, que emprestava a tudo tons esverdeados, percebeu um sem número de coisas largadas a esmo pelo chão e em cima da cama de casal: roupas, revistas, acessórios e, inclusive, garrafas de bebida e pontas de cigarro, além de seringas usadas - ''ele mentiu para mim!'' - Pensou. Ao mesmo tempo que crescia dentro de si o medo e a vontade inopinada de sair dali, ouviu um som gutural esganado. Correu para a cozinha e o horror irracional dominou seus braços e pernas, sufocando o grito na garganta -  a geladeira estava aberta e continha pedaços humanos decepados aleatoriamente; caído no chão, Paulo fora degolado e, naquele instante, o sangue tingia o piso de rubro. Foi a última visão de Fernando. Logo sentiu um líquido quente jorrar sobre seu corpo, provocado pelo corte agudo de uma navalha.