terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Personalidade do Mês de Dezembro

Horacio Quiroga (1879-1937) e Ambrose Bierce (1842-1913?)

   Pelo fato de não ter escrito sobre nenhuma personalidade no mês de Novembro, agora em Dezembro resolvi falar de dois contistas de terror, ambos pouco conhecidos no Brasil, a quem tive a felicidade de encontrar neste ano através de sua Literatura: Horacio Quiroga e Ambrose Bierce.
   Horacio Quiroga nasceu no Uruguai, mas viveu um bom tempo na Argentina; sua vida foi marcada por algumas fatalidades, dentre as quais o disparo acidental, feito por ele com uma arma, que acabou vitimando seu amigo. Seu mais famoso livro Contos de Amor, de Loucura e de Morte foi publicado em 1917; nele se verifica uma característica muito particular nas histórias de Quiroga: seu terror está presente na natureza e na própria vida, manifestando-se através de situações trágicas que selam o destino de seus personagens. Formigas carnívoras, picadas de cobra, insolação, a crueldade do homem para com seu próximo marcam seu estilo, tornando-o, a meu ver, mais verossímil. Horacio Quiroga se suicidou ingerindo cianureto em 1937.
   Já Ambrose Bierce, de origem estado-unidense, se aproxima mais do estilo clássico de terror, ao modo de Edgar Allan Poe: o sobrenatural permeando a ação da qual depende a própria história. Não que ele despreze a crua realidade da relação entre as pessoas: para tanto é capaz de opor pai e filho, condenar um homem que sonha em voltar ao lar e matar crianças para fazer um óleo medicinal; mas a fatalidade nele é demonstrada de forma bem mais sutil. Para seu rico imaginário contribuiu a sua experiência na Guerra Civil Americana (1861-1865), cenário no qual se passam alguns de seus contos. Bierce foi jornalista e publicou muitos textos satíricos, dentre eles O Dicionário do Diabo onde dá uma versão crítica do significado de certas palavras. Desapareceu por volta de 1913 ao atravessar a fronteira do México para, supostamente, se juntar aos homens de Pancho Villa. 

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Combray está Morrendo

   Tanto ouvimos falar sobre o Capitalismo, o sistema classificado como terrivelmente cruel e desigual; todavia, jamais, em todos os meus anos de Academia, pude compreender sua nefasta amplitude tal como agora. A ação predatória das construtoras está colocando abaixo muitas casas e pequenos prédios de minha cidade. O que para uns pode parecer progresso, para mim é um crescimento desordenado. Aos poucos o ar interiorano vai deixando de existir, o lugar acolhedor vai morrendo em detrimento do lucro avassalador de homens que em tempo algum pisarão o solo deste lugar - além dos empreiteiros, ganham o prefeito e os vereadores com seus alvarás e vistas grossas. Esta palavra pode parecer a de um conservador aguerrido que não quer ver morrer o cenário caro de sua infância, avesso à mudanças e crítico da modernidade. Talvez. A leitura recente de Proust me fez resgatar certos acontecimentos há muito perdidos, revolvidos assim, tirando do fundo do baú a memória invencível de uma época de inocência boa, descompromissada, não menos vívida e alegre do que a fase adulta. ''Toda Combray'' - diz o autor - ''e suas redondezas, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, de minha xícara de chá''; uma simples bebida quente, na qual molhava-se um biscoito, reconstituiu-lhe aos olhos a cidade de Combray; minha Combray hoje desmorona - temo ter que buscar-lhe no fundo de uma xícara de chá.
   Outro texto interessante, carregado do ar nostálgico, foi escrito por Victor Hugo quando do exílio se referia a Paris: ''É, para ele, uma doce lembrança imaginar que ainda resta alguma coisa do que via quando estava em sua terra, e que nem tudo teria desaparecido. Enquanto podemos ir e vir em nossa terra natal, imaginamos que as ruas nos são indiferentes; que as janelas, os telhados e as portas não nos dizem nada; que as paredes nos são estranhas; que as árvores são como todas as outras, que as casas onde não entramos são inúteis, que as calçadas por onde caminhamos são simples pedras. Mais tarde, quando estamos longe, percebemos que aquelas ruas nos são caras; que aqueles telhados, aquelas janelas e aquelas portas nos fazem falta; que aquelas muralhas nos são necessárias; que aquelas árvores nos são queridas; que naquelas casas onde não entrávamos, todos os dias entrávamos; e que deixamos entranhas, sangue e coração naquelas calçadas''. Victor Hugo ainda alerta o leitor: era provável que casa e ruas que descrevia não mais existissem.
  Vejo casas e prédios sendo demolidos em função da rapina gananciosa de pessoas que nunca estiveram ligadas a eles; que ignoram que a inconsequência da construção indiscriminada de edifícios pode acarretar um ônus drástico à própria cidade - imagine cinco edifícios de doze andares, com seis apartamentos por andar, reunindo setenta e duas famílias, cada uma com um carro; aumento dos congestionamentos, precariedade nos serviços, falta de recursos suficientes para abrigar tanta gente em espaços não-planejados e mal-adaptados. E para isso tudo contribui a classe média que compra apartamentos na planta, a perder de vista, acreditando nas promessas que o empreendimento imobiliário oferece: espaço gourmet, cinema, brinquedoteca, piscina, academia etc. Mas e se as setenta e duas famílias resolverem utilizar os mesmos ambientes de uma vez só, vai ter fila de espera? Compensa pagar, na planta, por coisas das quais não se valerá? Enquanto uns se matam para pagar as prestações, o condomínio e o IPTU altos; outros, ou melhor, outro conta as notinhas angariadas a custo do consumo irrefletido. É este, para mim, o retrato do Capitalismo; era nisto que pensava quando li o trecho do Manifesto Comunista que diz que a burguesia tornou tudo mera transação monetária. Agora vejo que as casas do caminho, com as quais pouco me importava, desaparecidas repentinamente, me fazem falta - minha Combray está morrendo, e não há nada que se possa fazer.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Tomara que Morra!

   Luís era um rapaz comum. Não despertava qualquer interesse da parte de ninguém. Não era feio e nem bonito; possuía uma inteligência mediana e talentos razoáveis - tocava músicas no violão e escrevia poemas de qualidade duvidosa. Sua opinião era sempre conciliatória e as palavras, brandas. O rosto era de uma conformidade sorridente, com a boca pendente e pálpebras descaídas. Era difícil que alguém lembrasse dele nas conversas, pois não lhe admiravam ou tinham repulsa - era simplesmente esquecido. Compensava, contudo, a falta de personalidade com uma bondade extrema. Envolvido nas atividades religiosas, alimentava uma fé absoluta e explicava cada acontecimento da vida como sendo fruto da vontade suprema de Deus - o fracasso que carregava feito estigma nas costas servia de provação.
   Talvez fosse mesmo uma provação sua trajetória lamentável no colégio, agravada pela associação à uma pobre alma indolente que achou por bem nomear de 'namorada'. Eram felizes, apesar de tudo: compunham o corpo musical da igreja, faziam alguma caridade, pregavam em voz langorosa, pontuando com jargões de motivação; tinham sonhos pouco ambiciosos, viajavam para perto, viam novela juntos e dormiam cedo - ela queria ser pedagoga e educar criancinhas; ele arrumava empreitadas e economizava para enfim casarem e consumarem seu amor.  
   O andar mal-ajambrado, o acúmulo de gordura precipitando-se sobre a fivela do cinto, a transpiração excessiva e a gaforina davam-lhe um aspecto um tanto acabado. No fundo, Luís não pensava em sua própria condição; estava sempre agradecido, sempre resignado. Se lhe tinham alguma opinião adversa, ignorava, pois pensava que era, acima de tudo, obrigação disfarçar qualquer julgamento mau em relação a outrem. Esforçava-se por sopitar o sentimento ruim que fosse, crendo incorrer em pecado mortal, assistido de perto pela Providência vingativa. Amava ao próximo, sim, amava forçosamente! E cria sinceramente que todos lhe devotavam a mesma compaixão. As más línguas, pelo contrário, balbuciavam: fracassado! - E assim descia a rua, divagando numa filosofia inócua, alternando com uma lista mental de afazeres e preocupações, quando reparou na figura conhecida que vinha na direção oposta.
   -Luís, que surpresa revê-lo! Há quanto tempo, não? Acho que oito anos... - enquanto seu interlocutor falava, Luís pôde vislumbrar melhor, a partir da forma do rapaz adiante e de suas palavras, que o destino não lhe fora muito generoso: seu colega tinha se desenvolvido, ficado mais alto, adquirido um corpo esbelto combinado a uma beleza sutil - ah, eu me formei em Direito, estou trabalhando em um dos maiores escritórios da capital... Conheci uma moça lá e nos casamos - Luís percebeu algo estranho dentro de si; algo acompanhado de uma palpitação crescente que parecia tomar, pouco a pouco, os seus membros, provocando certa confusão interior: suas vistas adquiriram expressão, suas sobrancelhas arquearam, os dentes superiores roçaram nos inferiores, suas mãos tremeram por instantes, um rubor subiu-lhe à face. Nunca experimentara aquilo, não com tanta emoção; a ponta da lança rasgou-lhe a carne e o líquido, em franca ebulição, entornou, ganhando as veias, os órgãos e cada célula - a inveja genuína chegava ao paroxismo e um segundo bastou para incorporar o anátema do condenado pela tal Providência, talvez, representando, no interior, cada títere grotesco que fazia parte de sua história. Foi quando desejou a morte daquele homem, imaginando algo bem sórdido, bem cruel que fizesse esboroar todo aquele sucesso - E aí repetiu para si:
   -Tomara que morra! - Despediu-se do colega com uma falsa simpatia e a frase continuou a reverberar na cabeça: - tomara que morra! Tomara que morra! - Em seguida, penitenciou-se amargamente, mas era tarde: um estrondo ressoou; o rapaz jazia no chão - a inveja ali nasceu e deu seu último suspiro.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Porcos

  
   Os porcos são um problema na cidade. Está certo que é uma cidade de muitas permanências e, embora média, com população numerosa, às sombras de uma capital, mantém o ar bucólico de interior. E os porcos representam esta tal permanência. Por onde passam, reviram o lixo, espalham todo seu conteúdo pela calçada e deixam seus dejetos pelo caminho. São grandes, rubicundos e numerosos. Famílias inteiras passeiam para lá e para cá, imperturbáveis, como se a rua lhes pertencesse. É sabido que podem atrair doenças, além de dar um aspecto horrível ao bairro, porquanto carregam o estigma da imundície. O prefeito, contudo, que habita plagas estrangeiras, faz vistas grossas e ouvidos de mercador: só se interessa pelos problemas do município em época de eleição; aí faz alguma obra de maquiagem em um logradouro de classe média e é reeleito. E, em tempos de calmaria, torna-se um parente suíno na boca de algum eleitor indignado. 
   Os moradores, daqui e acolá, não sabem mais o que fazer. Algumas senhorinhas temem os malfadados animais. Há quem seja obrigado a desviar-se do caminho original - e com razão: tomam boa parte das vias. Questão de saúde pública? Talvez. Porém, quando resolveram fazer justiça com as próprias mãos - o problema parecia não ter solução - quando se decidiram por uma atitude mais enérgica, contundente, a voz da sabedoria ergueu-se em defesa daquelas humilíssimas criaturas:
- Alto lá - dizia - estes suínos não podem ser vítimas de uma visão predatória, contextualizada em seu bojo pela política capitalista que visa construir um projeto de conjuntura pseudo-classista de ordem pública, enfatizando o caráter complexo de uma desconstrução do conceito de porco, revisitado pela pós-modernidade, 'publicizado' em todas as cadeias midiáticas, reformado na propaganda burguesa viceral que atinge o caráter mediano do cidadão desinformado, privando dos direitos constituídos os seres invisíveis, porém concretos, sólidos e viventes de então; exonerando da parcela democrática o indivíduo, enquanto suíno, atentando contra sua psicologia e ostracizando o seu coletivo, entendido como vara! Quando o Estado ergue sua lâmina contra a carne, objetivando sanar um problema consentido pela anuência social unânime, comete um ataque fragmentário, cujos cacos vão cortar a moral emblemática daqueles que se sacrificaram pela liberdade de expressão, desrespeitada dentro de uma interpretação macroeconômica, tendo em vista os progressos de países periféricos e o ressurgimento de movimentos que englobam uma compreensão igualitária, dizendo que os porcos são nossos irmãos! Digam não ao churrasco, pois ele viola a capacidade de ir e vir destes seres!
   Voltaram-se aqueles que tinham pedaços de pau e facões nas mãos para ver o dono de palavras tão categóricas. Era alguém que se proclamava intelectual. No fundo, ninguém compreendeu nada - talvez nem o próprio. Mas ele valeu-se do repertório decorado para tentar conter a fúria daquela gente. Afinal, o diploma e o título conferiram-lhe as prerrogativas de recomendar como as pessoas deveriam agir - elas precisavam de quem lhes dissesse a razão de pensarem assim e prescrevesse o modo correto de atuar dentro da sociedade; escolhendo, claro, muito bem as palavras para não denunciar algum possível sentimento baixo que o igualasse aos demais. Terminou o discurso improvisado falando em 'hipocrisia das gerações subsequentes'. Baixaram-se os pedaços de pau, baixaram-se os facões; uma barbárie foi evitada - a missão do intelectual estava cumprida. Carregou os infelizes porcos para sua casa - eram cinco ao todo - e lá não sabia bem onde alojá-los. Ao cabo de uma semana, os animais disputavam o lugar no sofá, comiam o que viam pela frente, espalhavam excrementos pelos cômodos e deixavam um bodum tenebroso. O Intelectual não teve dúvidas; ligou para todos os seus correligionários e fez correr o aviso: CHURRASCO ANUAL DO PARTIDO - CARDÁPIO: CARNE DE PORCO.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

O Fantasma Canibal

   A casa ficava em um bairro de subúrbio; dois pavimentos, sem qualquer rigor arquitetônico, de linhas simples e um aspecto de abandono. O muro alto, enegrecido pelo limo, guarnecido de um portão de ferro, escondia o quintal de ladrilhos vermelhos e as janelinhas gradeadas do interior. O motorista do carro preto confirmou o endereço e logo estava com seu companheiro na calçada, batendo palmas para chamar o morador. Um homem mediano, de cabelos esbranquiçados, calva avançada e trajes simples, atendeu e os fez entrar. 
   O motivo da visita foi um telefonema: alguém, de nome João, dizia sofrer com manifestações paranormais - barulhos estranhos, objetos que flutuavam, outros que se partiam, vozes, vultos iam madrugada adentro, interrompendo o sono e tornando o local praticamente impossível de se habitar. João não era religioso, não possuía qualquer credo, nem vícios ou histórico de distúrbios psiquiátricos - isso seu interlocutor tratou de averiguar e encerrou a conversa prometendo uma visita. Histórias como aquela eram comuns e sempre muito bem-vindas, afinal, aquele grupo, que se reunia constantemente, era vulgarmente denominado de ''caça-fantasmas''. Fernando era o líder e direcionava as ações dos demais. Para este caso, solicitou a um membro que fizesse uma espécie de levantamento da região onde morava o tal João; a outro pediu que preparasse os equipamentos e registrasse toda a ação, enquanto ele faria uma anamnese, como ora foi mencionado, para tentar descobrir se tudo aquilo não era fruto de uma mente fértil - trabalhos assim requeriam muito critério.
   Apenas o rapaz responsável pelos equipamentos pôde acompanhar Fernando. A casa era espaçosa, com um bom número de cômodos, muitos deles vazios e sem janelas - era possível ver o cimento usado para tapá-las; o cheiro não era agradável e os recintos onde havia móveis estavam bagunçados.
-Paulo, o que diz o relatório sobre esse lado da cidade?
-Esse bairro começou a ser ocupado na década de 1940, tendo suas primeiras construções próximas à linha férrea, e cresceu nas duas décadas seguintes, aumentando sua área até o córrego, totalizando uns cinco quilômetros de um limite a outro - e, voltando-se para o morador, perguntou: - o senhor sabe quando esta casa foi erguida?
-Não - o homem, de ar taciturno, respondia a tudo laconicamente.
-Bem, eu reparei que a casa fica em uma rua que termina no córrego. É provável que seja de fins da década de 1960 - concluiu Fernando - o senhor mora aqui desde quando?
-Há quinze anos.
-E quem morou aqui antes?
-Não sei.
   Fernando teve má impressão daquele lugar e daquele homem. Havia algo estranho que lhe provocou certa repulsa inexplicável, agravada pelos maus odores da atmosfera rançosa da casa. A noite caiu. As câmeras, gravadores e mesmo o aparelho de medição de energia eletro-magnética não haviam detectado qualquer indício das manifestações. Sequer ruídos foram ouvidos ou espectros, divisados. O homem limitou-se a observar sem nada dizer. Parecia perscrutá-los com olhos dissimulados e cobiçosos, de cenho franzido, por vezes sorrindo de soslaio. Fernando decidiu rastrear cada quarto novamente, e Paulo seguiu para a cozinha. Após isso, conforme combinado, encerrariam o trabalho.
   Fernando entrou em um recinto escuro, apontando a câmera para cada canto. Confiando na lente noturna, que emprestava a tudo tons esverdeados, percebeu um sem número de coisas largadas a esmo pelo chão e em cima da cama de casal: roupas, revistas, acessórios e, inclusive, garrafas de bebida e pontas de cigarro, além de seringas usadas - ''ele mentiu para mim!'' - Pensou. Ao mesmo tempo que crescia dentro de si o medo e a vontade inopinada de sair dali, ouviu um som gutural esganado. Correu para a cozinha e o horror irracional dominou seus braços e pernas, sufocando o grito na garganta -  a geladeira estava aberta e continha pedaços humanos decepados aleatoriamente; caído no chão, Paulo fora degolado e, naquele instante, o sangue tingia o piso de rubro. Foi a última visão de Fernando. Logo sentiu um líquido quente jorrar sobre seu corpo, provocado pelo corte agudo de uma navalha.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

15 de Novembro



      Lembro-me, como se fosse hoje, de um trabalho que fiz para a matéria de Brasil I - correspondente ao período colonial -  que tive na faculdade: era sobre o livro de Caio Prado Júnior. A apresentação foi lastimável. Eu ainda cismei de fazer uma afirmação categórica, interpretando livremente o autor, dizendo que ainda vivíamos em plena República Velha. A professora não entendeu e eu não soube explicar. Passados seis anos desta malfadada apresentação, sinto ter agora uma justificativa plausível, posto que minha opinião não mudou muito.
   Para os monarquistas, o dia 15 de Novembro é um dia de luto. Chamam golpe a articulação republicana e se reúnem para tomar chá e lamentar a deposição do Imperador. Talvez isso seja a manifestação do descontentamento com o atual regime - e eu não lhes tiro a razão! São constantes os casos de corrupção, desvios de verbas, improbidades, falta de decoro da parte de políticos. Voltando à minha afirmação categórica, vejo raízes nefastas, a herança maldita de um tempo em que se tratava o bem público como algo privado. Em verdade, uma ruptura efetiva nunca houve. Mesmo quando aparentemente agentes do povo chegam ao poder. O que existe de fato é uma adequação ao sistema e uma mimetização da própria elite que se ajusta aos processos históricos para continuar no comando - ou será que existiu no Brasil uma revolução popular de grande alcance e que tencionasse modificar a conformação do Estado? Acho que dormi nessa aula. O que há, o que sempre houve, é a política dos coronéis, dos personagens bonachões, que apadrinham, que mentem acintosamente, que trocam benfeitorias por votos, que representam o ranço, o vício de uma sociedade que não conhece a verdadeira cidadania. E que não recaia a culpa somente na República Velha! Os tais coronéis são bem mais antigos. Eles têm sobrenomes que remontam ao Império. Têm um passado construído a partir da nossa Independência, onde garantiram assento cativo no cenário nacional.
   Não acredito que a Democracia seja o sistema ideal, todavia ainda não foi superado por outro melhor. E, no caso do Brasil, é uma utopia crer em sua consolidação. Afinal, não entendo como se pode falar em Democracia consolidada com voto obrigatório! Mais: não entendo Democracia sem o conhecimento da cidadania. E a cidadania não está somente nos direitos adquiridos, mas nos deveres também! Parafraseando Stendhal, na Nau do Estado, todos querem uma posição de comando - maiorias e minorias -, todos querem uma 'fatia do bolo', uma autopromoção, reafirmando o pensamento que compreende apenas o bem privado e o direito individual. Assim, a República vai mal!
   É provável que o 15 de Novembro haja sido uma grande conquista, da qual, porém, não soubemos fazer bom proveito. Para que possamos viver em um regime igualitário é preciso que promovamos rupturas, que apostemos em alguma renovação, por menor que ela seja, e não mantenhamos as velhas figuras... Engraçado, não sei o motivo de escrever isso... Bem, parabéns para a República e a quem ainda tem esperança de comemorá-la! Acho que vou tomar chá com os monarquistas!

domingo, 7 de novembro de 2010

Banquete nas Trevas

-A que horas foi o óbito?
-Há cinco minutos.
-Ele está morto mesmo?
-Sim, acabei de verificar a pulsação.
-Passe-me a garrafa, quero mais vinho.
-Quanto tempo será que leva para o acharem?
-Não sei, mas deve demorar... Ninguém gostava dele. É provável que o deixem apodrecer no quintal.
-Tenho medo...
-Não se preocupe, vai parecer um ataque cardíaco...
-Sinto-me aliviada... Esse demônio nunca mais nos atormentará!
   Riscaram o fósforo e a luz tênue da chama iluminou três figuras. Ali, sentadas nas trevas, repartiam pão e vinho, mas somente duas dialogavam. A terceira permanecia em silêncio. 
-Está tão calado, o que houve? Arrependeu-se?
-Estou pensando... Não estou arrependido, mas me perguntando se ele realmente merecia.
-E como não? Ele nos humilhava, nos agredia todos os dias, não permitia que convivêssemos com nossa família, nos intrigava, insuflava rancores, nos tirava a esperança. Era um homem odioso! Agora está lá, caído, estendido na terra; as formigas começam a andar sobre suas carnes flácidas e a entrar pela boca pendente; os olhos ressecam-se, o sangue coagula, a pele perde a cor!
-Você sente alguma satisfação nisso, não? Vejo sua alegria nesta imagem tão aterradora!
-Valdemar era um velho asqueroso, não devemos ter pena dele! Ele nunca me despertou bons sentimentos em vida... Não despertará na morte! 
-Este pão que comemos é seu corpo e o vinho, seu sangue!
-Maldito! Este vinho é demasiado doce e o pão, demasiado tenro. Jamais seriam como o féu que corria em suas veias e a pedra que lhe servia de carapaça!
-Representaste muito bem, minha cara, durante todos esses meses! Fingir-se arrependida pelas brigas, manifestar afeto, chamá-lo de pai... 
-E eu ainda disse quando lhe servi o café: ''com muito amor''. Merecia um prêmio pela minha atuação. Agora só resta chorar no enterro. Queria mesmo cuspir-lhe e gritar: ''já vai tarde, infeliz''!
-Não consigo esquecer seus momentos finais: ele se queixou de ardência na garganta e falta de ar, caiu, debateu-se um pouco e ficou estático... Para sempre!
-Temos que pensar em um álibi!
-Álibi? Estávamos todos fora e quando chegamos, soubemos da morte do Valdemar por ataque fulminante! Aliás, lamentável... 
-Ouçam, acho que alguém chamou a polícia.
-Pensando melhor, acho que eu merecia um prêmio por ter dado um fim nesse homem, sabe?
-O que faremos?
-Vamos esperar... A garrafa de vinho ainda está cheia e restam quatro pães...
-Hum, onde está aquele que multiplica os pães e o vinho, hein? Poderíamos ficar nisso a vida inteira!
-Ele está morto agora.
-Só espero que não ressuscite no terceiro dia! Mandei fazer um vestido lindo para o velório...
-Entraram na casa... Estão andando sobre nós!
-Estão falando alguma coisa! Podem ouvir?
-Ei, eu estou ouvindo... Não! Não pode ser! É... É a voz do Valdemar! Mas ele estava morto!
-Vocês ministraram o veneno na quantidade certa?
-Acho que coloquei pouco!
-Ele sobreviveu! Como pôde levantar-se e chamar a polícia?
-Não sei, não sei, mas esse maldito tem que morrer!
    A moça ergueu-se e, pegando a faca do cesto de pães, correu imediatamente para o pavimento superior, saindo das trevas do porão. O rapaz, sentado à cabeceira da mesa, foi atrás, deixando o outro quieto na escuridão. Valdemar estava sendo socorrido por médicos na sala, observado por policiais. 
-Você ainda está vivo, maldito? - A moça tentou cravar-lhe a lâmina da faca, mas foi impedida.
-Foi ela - balbuciou Valdemar - foi ela! - Os policiais detiveram a moça e o rapaz pela suspeita de terem tentado matar aquele homem.
   Uma vez no hospital, depois de terem-lhe desintoxicado, Valdemar acordou de um longo sono, avistando, ainda com certa dificuldade, um rosto.
-Você? O que está fazendo aqui? A polícia não prendeu você junto com aqueles dois?
-Vim trazer uma lembrança de sua filha, papai, com muito amor!
   Valdemar foi encontrado pela enfermeira com a lâmina de uma faca dentro de sua boca.

domingo, 24 de outubro de 2010

Personalidade do Mês de Outubro

Howard Phillips Lovecraft (1890-1937)

   H. P. Lovecraft é um autor não muito conhecido no Brasil, pois ainda são poucas as traduções das suas obras aqui. Nascido nos Estados Unidos, em meio a uma família com histórico de problemas mentais, experimentou algum reconhecimento durante a vida e morreu precocemente aos 46 anos de idade. Sua Literatura de terror e ficção científica versava sempre sobre um mal ancestral, monstros abissais, pesadelos e neste imaginário estão incluídos os mitos de Cthulhu, o Necromonicon - livro escrito por um árabe louco de nome Abdul Alhazred; a cidade de Arkham - supostamente localizada no Condado de Essex, em Massachusetts; e sua Universidade de Miskatonic. É possível encontrar referências à obra de Lovecraft na história de Conan, cujo autor era seu amigo, e no popular desenho do Batman com seu Arkham Asylum.  Retirei apenas uma frase de 'A Sombra de Innsmouth', que é fundamental para entendê-lo e a qualquer outro autor:

'Onde acaba a loucura e onde começa a realidade?'

   Para mim, essa é uma pergunta fundamental. Eu diria mais: estrutural. Onde acaba a loucura? Onde começa a realidade? De que modo a loucura se faz necessária para um artista? É possível que a arte possa ser integralmente sã? Quando um autor escreve, quando um pintor pinta, quando um músico compõe, tudo que há em seu interior se faz representar em forma de sons, cores e palavras. Por isso o tema e a forma  precisam se combinar originalmente, de maneira a retratar o que o artista traz consigo. Cópias, arremedos, objetos desconhecidos, vias mercadológicas são tudo o que uma boa obra não precisa; é preciso, sim, que o criador se deixe levar por sua loucura, não permitindo que as exigências do meio interfiram e encarcerem a sua arte - ou então teremos o lixo cultural que vem sendo produzido apenas para comercialização, mas sem introduzir questionamentos caros à humanidade.  Lovecraft deu voz à sua loucura, escreveu sobre seus medos, seus pesadelos - suas imagens, por vezes, são aterradoras; e está aí o valor de sua Literatura. E esta loucura é tão somente um descanso da realidade, é o vôo da alma, dos pensamentos, é a vivência de outra verdade, uma verdade personalista onde tudo é possível - inclusive ser louco!

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Repúdio às Eleições

   Meu voto não irá para o Serra, tampouco para a Dilma. Acho trágico que só tenhamos duas opções e ter que escolher 'dos males, o menor'. Escolho votar nulo; não porque acredite em uma possível obrigatoriedade de convocação de novas eleições, mas por não querer compactuar com essa política canhestra que vem se constituindo. Para mim, é impossível não ver uma herança nefasta dos tempos do coronelismo, com novos trajes evidentemente, mantendo, entretanto, uma característica paternalista perniciosa que ajuda a erigir certos personagens, supostos baluartes da igualdade e da Democracia. Dizer de um governo, outrora chamado socialista, que se ajustou perfeitamente ao Sistema, que não promoveu rupturas, que incentiva o consumo, que transforma seus assistidos em estatística; dizer deste governo que é de esquerda? Um governo que se rendeu à governabilidade, que fez alianças com figuras obscuras, que distribuiu rendas e abriu postos de trabalho, sem que isso concorresse efetivamente para a igualdade social, porquanto igualdade social só exista na liberdade de escolha e oportunidades - e não é isso que vejo na vida de pessoas para as quais está destinada apenas uma frente de trabalho; que mais contribuiu aos bolsos do empresariado, que joga moedas no gazofiláceo com obras faraônicas, que explora a boa-fé do povo através de uma barganha imoral. E não me venham dizer que tais e tais coisas eram necessárias momentaneamente para resolver o problema. A política no Brasil é feita assim: o maquiavelismo do Estado faz o bem em conta-gotas para aparecer, para poder colocar em um painel bem grande e dizer que o país está mudando! O problema de fato é postergado infinitamente. Ora, há quanto tempo se fala em revolucionar a Educação e a Saúde? Será que nesses anos todos não foi possível? Ou será que revolucionar a Educação e a Saúde demora muito mais que um mandato? Melhores são as medidas imediatistas, não? Elas se convertem em voto facilmente!
   Eu voto nulo; voto nulo porque quero uma alternativa, quero um novo nome, um novo partido, uma nova cara! Não desejo um revesamento de apenas dois partidos no poder, mal comparando com a época da Arena e do MDB. Não desejo qualquer partido que reivindique para si o efeito da opinião pública e que censure; que trate a política e a sua própria posição como se assasse carnes em seu quintal, enchendo a boca para dizer que é um ato de cidadania que o povo roa os ossos que se lhe dê. Lamentável é ver tanta gente defender os avanços, as conquistas, as lutas... Continuo vendo violência, miséria, indigência, hospitais em ruínas, professores ganhando salários irrisórios... O Brasil vai continuar mudando na sua marcha progressiva que acabará em tempos de igualdade absoluta... Realmente, acho que é caso de embriaguez coletiva. Dilma e Serra são farinha do mesmo saco! Ao meu turno, prefiro sair de Alice no País da Democracia Consolidada - mas não voto na Rainha de Copas!

domingo, 17 de outubro de 2010

Conto Erótico

   Este conto tem a única função de demonstrar o quanto estamos presos à nossa condição animal. Para longe de ser puro ato de amor, o sexo, acima de tudo, é uma necessidade orgânica manifesta através do corpo. Ninguém pode sentir prazer físico com a alma - talvez os demagogos sintam -, ninguém busca o sexo simplesmente por amor. Ou não justificariam a sua precisão como sendo intrínseca a um relacionamento conjugal desejável. A nossa mente tenta racionalizar buscando uma explicação favorável aos sentimentos altruístas que comandariam o desejo sexual. Pois eu discordo veementemente: o amor até pode conduzi-lo, mas não guia a vontade primordial. Não somos tão animais como quando estamos copulando; não há meio mais legítimo e natural para se preservar a vida; não há energia maior na Natureza - a energia sexual é criadora! Não quero dizer com isso que abandonemos nossa razão em virtude da promiscuidade irrefreada, pois ainda somos seres racionais e sabemos o mal que advém dos excessos. Talvez o que ora diga não seja novidade. Então passemos ao conto. Caso queira, pule a história, que tem apenas função preliminar, e vá logo para a ação - mas não anseie em demasia para não terminar antes do tempo!
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   Geisilane não era uma mulher muito bonita, mas possuía formas admiráveis que chamavam a atenção no bairro. Andava metida em roupas curtas e decotadas, justas em seu corpo e, no alto da plataforma, que muito mal disfarça sua baixa estatura, saía às compras na feira. Era dona de casa dedicada ao marido e ao filho pequeno. Lavava, passava, cozinhava, varria os cômodos e o quintal e só parava na hora da novela. Seu marido dormia durante quase todo o dia, pois pegava no seu táxi pela madrugada. Era quando a solidão devassava Geisilane. Recostada no sofá, assistindo algum filme ruim, pensava que pouco tempo havia para sua distração e, quando havia, passava por algo sem graça - ainda mais porque dormia sozinha e nunca saía com seu marido. Pior: ele a deixara de procurar. A diferença de idade entre os dois talvez fosse um agravante. Ela era bem jovem ainda e ele quase batia nos cinquenta. Quando não trabalhava ou dormia, ele bebia muito e ficava imprestável. Fatigada, questionou-se pelo fato de ter optado por aquela vida ingrata, posto que a envelhecera precocemente - muito cedo fora mãe, muito cedo teve responsabilidades, muito cedo pensou em divorciar-se. Não obstante, Geisilane mantinha a boa forma e a vaidade próprias da juventude: maquiava-se, perfumava-se, tingia os cabelos de castanho, pintava as unhas de vermelho e tentava seduzir o pobre marido indiferente. Noites e noites transcorreram assim.
   Certa vez, pouco passava das onze, seu marido havia acabado de sair, quando Geisilane ouviu a campainha - quem poderia ser àquela hora? Foi até o portão a saber da visita inesperada. Era o vizinho, o Jorge, quem batia e vinha pedir para encher um balde de água porque faltara em sua casa. Pediu mil desculpas e Geisilane o fez entrar. Enquanto esteve agachado diante da torneira do quintal, a moça reparou bem no rapaz e perguntou-se umas três vezes porque nunca houvera reparado nele antes: alto, de tez morena, braços bem torneados, cabelos e olhos negros, pêlos encrespados no peito. Sentiu algo diferente e o coração acelerou, deixando-a resfolegante.
   Ao terminar, Geisilane o convidou para um café e, após muita insistência da parte dela, Jorge aceitou. Jamais passara pela cabeça dela trair seu esposo. Mas ali, naquele momento, sucumbiu a um desejo que imediatamente a fez ver aquele homem, com quem vivia, de forma drástica e pouco indulgente. Certificou-se que o filho dormia, depois sentou-se perto do rapaz que sorvia a bebida quente, praticamente o obrigando a reparar nela: um vestido lilás e transparente denunciavam seus seios; seus cabelos úmidos e sua pele recendiam a leite de rosas; seus lábios carnudos clamavam por tocarem-lhes. E tal foi como tudo se deu:

   Ela puxou-lhe pela camisa e beijou-lhe com vontade escorregando suas mãos pelo tronco até a parte interior de suas pernas Jorge apertou os seios volumosos e Geisilane desabotoava-lhe os botões em seguida ele tirou-lhe o vestido pela cabeça e lambeu seus mamilos descendo pela barriga para arrancar sua calcinha com os dentes mordeu as nádegas chupou-lhe o grelo fazendo-a gemer alto depois foi a vez dela Geisilane passou a língua no peito trilhando o caminho formado pelos pêlos que terminavam no membro já rijo de Jorge engoliu o mais que pôde lambuzando de saliva Jorge a ergueu pelos braços virando-a de costas para penetrar fundo naquelas carnes ela primeiro apoiou as mãos na mesa sentando-se nela após quando enfim decidiram mudar de posição abriu as pernas e pôde encará-lo a expressão feroz o suor a força que  desprendiam o clamor tudo era prazer para ambos por fim Geisilane exclamou goza dentro foi quando sentiu um jorro quente na vulva dando o urro derradeiro
   Geisilane tornou-se uma mulher mais afável e compreensiva com o marido e se resignou com suas noites solitárias.  Entretanto, muito embora não passasse de um encontro, jamais esquecera Jorge.