sexta-feira, 31 de maio de 2013

Aqueles Olhos (poesia em prosa)

   Aqueles olhos perderam toda a humanidade. Sentado ali, em um beco, na porta cerrada de um prédio, de fronte a um restaurante, silenciava. Não pedia esmolas; sequer comida. Apenas olhava, olhava - olhava o vazio; o vazio das gentes que passavam - indiferentes, inconsequentes, distraídas, ocupadas. Rosto pobre, mas olhos ricos, de filosofia, talvez, de saudosismo e de esperança. Antes tinha sede de tornar-se algo, até ficar invisível. Ainda que fosse uma cadeira onde o puxariam, acomodariam; pode ser que o elogiassem e se regozijassem de estar. Ou um vaso contendo terra, grande, ornamentado, frondoso. Entretanto, nem mais os vasos gozavam de notabilidade. Eram tão-somente passagem - tal como o beco, tal como ele.
   Os olhos vívidos, porém, no corpo agonizante, percebiam que ora vinha um homem, ora ia uma mulher. Não! Ora ia um pai, ora vinha uma esposa; ora vinham o chefe e a diretora. Sentavam à mesa, almoçavam, riam, falavam mal do trabalho, reclamavam de cansaço. O cheiro do perfume se misturava ao da carne assada; ao do cigarro posto fora, do vinho nos cacos sobre as pedras do chão; do cafezinho, dos dois beijinhos, da despedida, da ausência. E eis que lá foram seu pai e sua mãe. Seus irmãos, quem sabe? Amigos - que jamais se dignaram a retribuir aqueles olhos.
   A luz da tarde caiu pouco e pouco. A luz dos postes e dos estabelecimentos acendeu. O restaurante desceu as portas. Os transeuntes tornaram um ou dois. Depois o calar da noite. Nada mais ali. Permaneceu, contudo, de cócoras, encolhido e leve. Descalço, sentiu entre os dedos a urina quente escorrer-lhe, molhando o calção ensebado. Não mais se constrangia. Era como se um animal o fizesse - as pessoas costumam dar de ombros. Deu também; deu de si, para si: aliviar-se era um prazer. Último dos quais possuiu algum dia. 
   Veio a chuva, o frio, lavando-lhe o corpo. Sorriu e fechou os olhos. Eis que Deus o abençoa, o benze - e o chama, enfim. E antes que viesse a aurora, um homem louro, trajado de um casaco de couro preto, pôs as mãos em sua face, nos olhos que insistiam em ver, e pronunciou: - bem-aventurada alma da rua, hoje o Paraíso é teu, apenas teu!
   Aqueles olhos indigentes se descarnaram... 

2 comentários:

J. disse...

Comentário burguês/classe média para teus dizeres: é ótimo! Tão bom que quase faz com que eu sinta algo de verdade que não seja só por mim mesma.
E,isso é um elogio a você através de uma auto-crítica superficial sobre mim mesma.
Até no comentário fui egocêntrica.
Desculpe macular tua página com minhas neuroses. Ótimo texto. Espero que o que tem por dentro não se anestesie ou pare de girar. Abraços.

Lorena Sabino disse...

Muito bom, sensibilidade poética e social.