segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Eu Matei Roderick D.

   É difícil admitir, mas ele era meu irmão. Saiu aos vinte e um anos de casa e sumiu. Ficamos sem saber o paradeiro dele por uns três anos, até que, passando diante de uma banca de jornal, vi seu rosto estampado em uma publicação pornográfica. Imagine o tamanho do meu aturdimento ao vê-lo naquela revista. Tanto tempo sem notícias para reencontrá-lo assim, sorridente, de capa, seminu e abraçado a uma mulher. O título que trazia era infame e o nome, bem, o nome não era mais aquele, era Roderick D.: descrito como um elemento viril e belo; exposto, entretanto, feito carne, trespassada por um gancho na vitrine de um açougue.
   Levei a revista para casa e assisti o filme do encarte: Roderick coadjuvava a maior parte das cenas, emprestando seu nome, quase consagrado, para vender uma quantidade maior de publicações do gênero. Era estranho, muito estranho, ver meu irmão daquela maneira. Não pensei tanto na vergonha que causaria aos meus pais, todavia no que levava uma pessoa a dispor de seu corpo para o consumo geral, tornando públicas suas intimidades, suas reações, seus desejos, para que outros gozassem por ela. Seria o dinheiro? Nunca lhe faltou nada! Não poderia ser por necessidade, oras! O que o levaria a deixar sua família para ganhar a vida desta maneira? Não pude responder. Roderick continuava lá, gemendo e trincando os dentes, para inundar repetidamente o corpo de suas parceiras com líquido grosso e quente.
   Chorei. E mais do que isso: estive perturbado por uma semana. Concluí que estávamos todos doentes: eu, meus pais, meu irmão, aquelas mulheres e seus consumidores. Chorei e tive raiva. Meu pai e minha mãe não mereciam o desgosto de ver o filho, constantemente rememorado e sentido, transformado agora em... Em... Roderick D! Passei, então, a adquirir tudo o que dissesse respeito a ele: filmes e revistas no intuito de descobrir seu paradeiro. Foi quando encontrei o telefone de uma produtora e lá me deram sua direção: estava em São Paulo. Pedi o carro a meu pai e viajei por mais ou menos seis horas. Fui achar seu endereço na região central da cidade; num trecho conhecido por ser reduto de viciados e bandidos de toda espécie. Ali havia acomodações das mais baratas. Parei diante de um prédio antigo, geminado a um hotel, cuja entrada ladeava uma loja de ferragens. O portão estava só encostado, e após atravessar um longo corredor, subi as escadas até o terceiro andar. Bati na porta, ele atendeu. Passado o instante de surpresa, abraçou-me e pediu que entrasse. 
-Como me achou? - Ele perguntou.
-Numa revista...
-Eu me refiro ao endereço...
-Por que você sumiu?
-Olha só, caso tenha vindo para me admoestar e convencer a voltar para casa, desista! Não vou voltar!
-E você acha que isso é vida?
   O apartamento era de quarto e sala. Ali moravam ele e mais três. Os cômodos estavam bagunçados e cheiravam mal. Muita louça na pia; cinzas de cigarro, pacotes, garrafas, roupas molhadas, tudo espalhado. 
-O papai não vivia reclamando que eu não arranjava emprego? Pois bem, arranjei! E agora ganho dinheiro, maninho, dinheiro fácil! Fora que me divirto a beça! - Disse acendendo um cigarro - posso oferecer alguma coisa ou ainda continua careta? 
-Fa...
-Não, não, não! Aqui eu sou Roderick, entendeu? 
-E continua sendo meu irmão?
-Claro! E se você quiser, falo com uns conhecidos meus e coloco você em alguma cenas, que tal? Atualmente estou tirando uns três mil por cada uma. Fiquei famoso, reconhecido e agora as produtoras me disputam, sabe? Você não precisa voltar para aquela vida. E aí, o que me diz?
-Ficou louco? Eu vim somente saber de você...
-Melhor não falar nada para o papai e para mamãe. Diz que me encontrou, que estou bem, que estou trabalhando em um escritório. Ninguém quer matar os velhos do coração!
-Não quer saber como eles estão, como ficaram após sua partida? Não passam um dia sem falar em você e eu já vi mamãe chorando várias vezes olhando uma fotografia sua...
-Hum... Eu lamento... Bem, está chegando a hora da minha apresentação, tenho que tomar banho...
-Apresentação?
-Sim, faço apresentações em casas noturnas para complementar a renda e, às vezes, saio com as clientes.
   Roderick, além de ator, fazia apresentações onde tirava a roupa e servia de michê. Atendia todo o tipo de público: mulheres solteiras ou casadas, sozinhas ou acompanhadas de seus maridos; homens jovens e velhos. Cobrava duzentos pelo serviço de uma hora - gozando no final, está tudo certo! É só fechar os olhos e mandar ver!- Disse ele cinicamente. De verdade, não reconheci meu irmão. Esgueirando-se pelos buracos da noite, privando com gente torpe e hipócrita, míseros arremedos de uma sociedade enfermiça.
-Fique aí. Pode dormir no meu colchonete. E não se importe se o pessoal voltar, são gente boa. Hoje não tenho hora. 
   Não dormi. Passei a madrugada pensando em tudo aquilo. Andei de um lado a outro. Vi mais publicações, mais vídeos dele onde contracenava com mulheres, homens, travestis, a dois ou em grupo; cenas onde havia violência, escatologia e, sobretudo, a profanação do próprio corpo. Interroguei-me enfim: isto é liberdade? Então descobri nas gavetas de uma pequena cômoda, sacos onde havia todo o tipo de entorpecentes e seringas. Era naquilo que meu irmão investia seus ganhos. 
   Eu juro, foi a decisão mais difícil que tomei. Sabia que jamais apagaria aquilo dele, mesmo que amanhã seu arrependimento fosse maior. Reuni coragem e me convenci de que aquela era a única saída, demonstração original de afeto: levaria paz àquele espírito e interromperia definitivamente sua marcha de leviandade cega!
   Peguei os comprimidos e amassei junto com um pó branco, joguei tudo dentro de uma garrafa com uísque e misturei calmantes. Quando ele chegou, por volta das nove da manhã, ofereci a ele a bebida, afirmando que havia mudado de ideia e que iria ficar. Contente, ele pegou o copo, sem pensar muito e brindamos. 
-Finalmente meu irmãozinho deixou de ser careta! - Deu uma talagada. Insisti para que tomasse mais. E depois de três copos, resolveu que iria dormir. Mas era tarde. Caiu no soalho e começou, em delírios, a sufocar. Convulsionou e expeliu uma baba branca. Dentro de alguns minutos, parou de se debater - estava morto. Desci, peguei o carro e voltei para casa. Ele seria mais um que não aguentou aquela vida e se matou. 
   Mamãe ficou feliz em saber que meu irmão estava casado e empregado em um escritório e ansiosa por vê-lo no Natal. 
   Eu, no entanto, repito para mim mesmo diariamente: eu matei Roderick D. 

2 comentários:

Cícero Borges disse...

Muito bom!

Anônimo disse...

Ótimo! Parabéns!