sexta-feira, 25 de maio de 2012

Sonhamento


Conto enviado por Leonardo Lusitano.

Sonhamento

- Sonhos. Somos nós que sonhamos...ou serão eles, na feitura do real encorpado em cada um que nos sonham?
Sonhando ou sonhado, eis o sonho:
Estava em casa, não raciocino bem se em Lumiar ou na novidade de Itacoatiara. É fato que a razão faz apenas sua parte. Atrás da casa existe, no sonhamento, um rio que só descobri de ouvir. Ver nunca tinha visto. Já era noite, assim começo de noitinha. Talvez as seis horas da tarde onde o anjo- em sonho- anunciou a vinda do filho do dono de muitas moradas. Inclusive a minha? Voava a casa no céu e o lago eram nuvens escondendo-mostrando a aguinha sua de outro jeito? A fantasiação. Cabe no sonho?
O acontecimento sonhante foi que do lago, atrás da casa, vinha uma bela melodia: daquelas que a gente pensa que os anjos cantam em dia de festa pascoal, quando a vida recomeça. Aturdido com a potência desadjetivada daquilo, flutuei até os fundos ( do mundo?) e vi o que só se podia ouvir: um cardume de anjos cantando a Paixão de São Matheus, sonhada por Bach!
Sonho-entre-sonho, era o estúrdio aquilo. Puxando o mundo para si, angelicais, simplesmente cantavam para o rio! Kommt, ihr Töchter, helft mir klagen, podia-se escutar. Cantavam a vida, para que ela se movimente, permaneça a mesma na mudança. Cantavam os peixes que se entregam em alimento, como o filho cósmico sem tempo ensinou a destinarem-se. Cantavam a surpresa com aquilo que nos acostumamos a ver e desacostumamos a pensar: a natureza é divina e o homem, apenas uma parte do todo. Homens nascem, capim rebrota, porque a vida criou o ovo e a galinha. Ela vem junto.
Co-movido, entrei no rio. Quis me plasmar na celebração da natureza com os tempos. Tudo em harmonia. Todos os tempos naquela água inicial. Todo o verde, todo azul, todo o branco, o tudo e o todo em escuta concertada. E foi então que um dos anjos me disse:
-Viver não é um sonho. Viver é um sonho.

sábado, 19 de maio de 2012

Deuses Canibais e Forças Predatórias


Neste mês de maio, o blog Mau Prosador faz dois anos, e para comemorar, serão publicados textos de autores convidados. O primeiro foi escrito por Leonardo Leitão. Para mais de seus contos, acessem: http://absortoemabsurdos.blogspot.com.br/

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Deuses canibais e forças predatórias


Eu estava pensando... chove lá fora e eu estive pensando. Minha casa desabou comigo dentro e me matou. Mas minha casa não é um barraco precário construído com papelão em uma encosta íngreme e lamacenta. Minha casa tem mais de cem anos e foi construída pra durar mais de mil, eternamente. Foi construída em uma extensa campina, pelo pai do meu avô, ou pelo pai dele. À frente tem uma avenida ladeada por altas palmeiras e atrás um pasto a perder de vista. 
A água da chuva foi minando a casa, se infiltrando nos tijolos e na massa até que todo sólido ficou poroso. O único sinal disso eram uns focos de mofo aqui e ali. Normal para uma casa velha. Mas no todo ela não era tão velha sabe, ela tinha apenas uns cento e poucos anos apesar de ter sido construída para durar mais de mil. 
Eu ainda ouço na minha cabeça os tambores dos pretos, de quando eles cantavam e gritavam. Não sei se me contaram isso quando criança ou se a lembrança me foi transmitida geneticamente pelos meus ancestrais, expostos tão continuamente ao som desses rituais. Eles cantaram a toa, todos trabalharam até morrer. Eu não, mesmo morto continuo pensando, não vou morrer nunca porque meus pensamentos foram feitos para durar mais de mil anos. Por que eles batiam aqueles tambores se isso não os salvou da morte? Quais forças eles tentavam mobilizar a seu favor? Não faz diferença, não adiantou. Nada adianta. As raízes das árvores continuam movendo-se lentamente, quebrando concreto, a chuva continua minando construções, o vento transformando pedra em areia e o mar transportando areia por aí. 
Só meu pensamento continua, por mais de mil anos, eternamente, e dentro dele os tambores dos pretos.



sábado, 8 de outubro de 2011

Morte Solitária

   Uma vida interrompida. Era tudo o que se poderia dizer naquele momento. Ninguém sabia seu nome. Limitavam-se a balbuciar palavras entre si. Uns três talvez, ou quatro, nada além; o resto transcorria: pessoas indo, carros vindo, e somente um detalhe no quadro geral destoava: o cadáver de um homem, caído ali, próximo da sarjeta, ao lado do poste; de braços esticados, entrelaçados; roupas simples, um tanto encardidas; meia-idade e olhos abertos, fitos no horizonte limitado pela calçada e pela morte.
   Chegara na cidade havia pouco. Saiu da rodoviária e andou em um rumo perdido. Sua impressão modesta mal reparou no aspecto agitado e sujo do centro, tinto de cores cinzas, escorrido de um preto musgoso; nos andarilhos feios e comuns;  nos odores confusos de comida, vapor e dejetos. Não, decerto não reparou, pois assim era qualquer centro daquela região. Era o centro de onde vinha. Era o centro com que convivia - prédios crescendo desordenadamente, ruas tortas e gente; muitas gentes a esbarrarem-se. Não havia planejamento, não havia timbre nem tom. Havia um sentido metálico, opaco, triste. Havia pobreza de alma e de estilo; e o dinheiro que todos iam ali buscar!
   Quando passou daquela esquina, deparou-se com o corpo. Assustou-se: primeiro com o detalhe, depois, ganhando amplitude, o olhar analisou os outros elementos e somente encontrou indiferença. Ficou um tanto turvo, tonteou, não pôde conter a curiosidade e o desejo de aproximar-se. O homem não mais respirava. Contudo, seus olhos continham a última gota de vida e retinham perpetuamente o quadro dramático que ali tinha lugar: pés humanos, rodas, pressa - esquecimento. E, num átimo, os dois olhares se encontraram, compartilhando uma só visão do avesso da vida - ''quem está verdadeiramente morto?'' - Disse o rapaz - ''somos nós ou ele?'' Um senhor, que estava perto, franziu o cenho como que não houvesse compreendido as palavras que o jovem proferira alto sem perceber. Uma mulher perguntava se alguém havia chamado a ambulância e um terceiro meneou a cabeça negativamente.
   Inopinadamente veio a chuva. E quem estava ali se afastou. Só o rapaz, sentindo-se ainda mal, permaneceu por mais alguns minutos. Estava perdido, não lograria encontrar o endereço aonde deveria levar os papéis, não debaixo de chuva; também não podia deixar o cadáver anônimo abandonado. Encontrava-se tão aturdido que não percebera as poças transformarem-se em rio, molhando seus calçados, suas bainhas, suas pernas, sua cintura... A catadupa barrenta e contundente, empurrou-o e arrastou. Os documentos se perderam, a roupa se perdeu... E, no esforço de agarrar-se em anteparo que fosse e manter a cabeça acima d'água, tentou ocultar de sua mente os olhos sempiternos do corpo inerte. Não adiantou, eles eram fortes, vivazes, eternos! Tragaram-no para dentro daquele mar - e mais uma vez se encontraram no fundo. Aquele homem não estava mais sozinho.

sábado, 2 de julho de 2011

A Umbra

  O Texto a seguir faz parte de um exercício narrativo feito por Adem Ibrovic que consistia em contar a mesma história de Voz da Mata, mas com abordagem própria.
***

    A noite começava a cair. Os últimos raios de sol ainda reluziam na copa das árvores enquanto a escuridão se aprofundava no interior da trilha. Os dois amigos decidiram que era hora de começar a voltar antes que a penumbra se tornasse breu e se perdessem pelo caminho. Nestas ocasiões Pedro costumava sempre andar com sua lanterna e alguns equipamentos básicos de trilha, mas naquele dia tudo havia sido decidido de última hora e por isso estavam completamente desprevenidos. Além da falta de qualquer equipamento de orientação, ainda vestiam trajes incômodos para uma caminhada naquele tipo de terreno. Calças jeans, tênis de solado gasto e a inusitada camisa pólo de Marcos compunham o visual dos dois trilheiros casuais.
- Pronto! Começo a não distinguir raízes de pedras, e não vejo um palmo a minha frente! – reclamava Marcos enquanto desciam pela encosta.
- Você só sabe reclamar? – a pergunta de Pedro foi seguida por um som abafado e algumas pedras rolando. Ao olhar para trás, lá estava Marcos caído no chão com braços e pernas abertos sobre a terra.
- Marcos!!! Está tudo bem? –
- Sim, está tudo “ótimo”! Só me estirei no chão para ver o que você iria dizer... – respondeu Marcos, usando o sarcasmo que lhe era bastante característico.
- Oras, então levante-se daí e vamos andando porque não há tempo para este tipo de brincadeiras! – completou Pedro, quase que estendendo o sarcasmo do amigo para um nível muito próximo do irritante.
   A caminhada seguia, ao passo que a preocupação de ambos aumentava. A trilha, que costumava ser bastante movimentada por caminhantes indo e vindo, estava agora completamente deserta e os sons de pássaros diurnos silenciavam aos poucos para dar lugar ao barulho de grilos e cigarras. Naquele momento, todos os caminhos pareciam iguais e os dois amigos travavam um silêncio perturbador na expectativa de qual deles diria primeiro o que já era óbvio: Estavam perdidos. Na cabeça de Pedro tudo se resolveria se continuassem descendo, afinal, enquanto houvesse caminho para baixo, estariam ao menos na direção da estrada onde a trilha tinha início. Mas durante a descida, Pedro olhava à sua volta com a estranha sensação de que já haviam passado por aquele lugar.
- Merda! Acho que estamos andando em círculos... –
- Silêncio... – sussurrou Marcos, interrompendo imediatamente o amigo. – Está ouvindo isso? Preste atenção... –
   Passaram-se alguns segundos até que Pedro pudesse distinguir algumas vozes em meio aos barulhos da noite. – Tem alguém falando... E vem daquela direção. - Enquanto ele apontava com uma mão, ia abrindo caminho em meio aos arbustos com a outra e avançava na direção das vozes. Marcos não estava com um bom pressentimento sobre aquilo, mas era melhor seguir Pedro do que ficar sozinho no meio da mata e naquela escuridão. - Pelo menos vá devagar. Não sabemos o que está acontecendo... –
   Cuidadosamente os garotos se aproximavam de uma pequena encosta onde a mata não era tão densa. Abaixaram-se atrás de um monte de terra e observaram ao longe algumas luzes que se mexiam freneticamente, como lanternas balançando na escuridão. As vozes continuavam e, embora ainda não pudessem distinguir o que era dito, percebiam que se tratava de uma discussão acalorada. – Vamos embora daqui! – Marcos tentava convencer Pedro, como se pressentisse que aquele era um ponto sem volta.
   Pedro estava completamente tomado pela curiosidade, ou talvez algum tipo de senso de “destino”, que não o fazia nem ao menos considerar a hipótese de retornar sem descobrir o que estava acontecendo ali. Estavam tão perto, as luzes pareciam oscilar a uns vinte ou trinta metros à frente. O problema agora, é que ao sair de trás do monte de terra onde estavam abaixados, ficariam completamente expostos na vegetação baixa e qualquer rápido movimento daquelas luzes revelaria imediatamente a posição de suas silhuetas.
- Vamos pelas laterais. – Sugeriu Pedro.
- Como assim? Nos separar? Está louco Pedro!!! –
   Não foi preciso muita discussão para que a decisão fosse tomada. Um estampido agudo irrompeu o ar e silenciou os dois amigos, que se entreolharam ao mesmo tempo. Pedro, tomado pelo impulso do momento e já antevendo o que teria acontecido, correu na direção do barulho. – Isto foi um tiro! – Marcos, pouco antes de acompanhar o amigo, teve tempo apenas de pensar: - Ótimo, ouvimos um tiro e qual a coisa mais inteligente que conseguimos fazer? Corremos na direção de onde ele veio. Excelente Pedro... Excelente. –

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   Chegaram rapidamente ao local de onde antes vinham as vozes. Agora tudo estava calmo e silencioso. Pedro localizou de pronto a fonte das luzes que viram: três lanternas, ainda ligadas, jogadas no chão. Um pouco mais adiante, na borda da clareira, dois corpos sem vida deitados sobre uma lona quadrada e voltados com o rosto para baixo. Mesmo sob os protestos de Marcos, Pedro se aproximou dos corpos. Carregava nas mãos uma das lanternas que havia encontrado e parecia estar absorto em pensamentos distantes. O amigo gritava do outro lado da clareira, mas era como se ele não pudesse ouvir uma palavra. Abaixou ao lado da lona e virou um dos corpos para cima. O choque foi tão grande que Pedro retomou, imediatamente, o controle sobre seus pensamentos. No chão, deitado bem à sua frente e com uma perfuração de bala na cabeça, estava “ele mesmo”. O corpo ao lado era o de Marcos. – Meu Deus, somos nós! – Entre tropeços e quedas os dois correram sem olhar para trás, deixando naquela clareira mais do que corpos e lanternas, deixaram também parte de sua sanidade.
   Chegaram à base da montanha pouco tempo depois, com lágrimas no rosto e várias escoriações pelo corpo. Mas havia algo ainda mais estranho por vir. Ao olharem para o alto da montanha, vislumbraram uma cena impossível de se explicar com palavras. O mais próximo que conseguiram chegar do que viram foi um breve relato postado, dias depois, em seus blogs, onde descreviam o que viram como uma enorme mancha escura pairando no céu sobre a montanha... Uma mancha mais negra que a própria noite.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Voz da Mata



   As cores do fim de tarde esmaeciam em tons suaves de azul arroxeado e coral; as trevas, da noite que já se anunciava, cerravam vagarosamente a sua boca sobre a mata, acinzentando as folhas, outrora verdes, das árvores centenárias. A vegetação, com seus galhos, talos e furtivas flores, desaparecia do último plano, restando ao caminho apenas os troncos pardacentos de plantas que pareciam adormecer. Ouvia-se balbuciar o filete de água que serpenteava, quase sumido, na rama seca, para ir deitar-se alhures no mar; ou o passo minúsculo de algum lagarto, ou o romper de toco sem seiva - no mais, reinava o silêncio.
   A Natureza, contudo, que insiste em coabitar com a cidade, não passa sem ser perturbada, mesmo que seu ninho faça desaparecer o tempo: dois rapazes singravam degraus colocados ali, não se sabe por que mãos, para facilitar a passagem; o primeiro, movido pelo ímpeto da idade e irrefletido, andava com certa destreza, ironizando o que ficara para trás, mais novo, a quem sobrara moderação, resbunante pelas vias tortuosas da trilha. Aquele sumia das vistas deste por vezes, encontrando-se em qualquer curva, imitando animais selvagens por mera provocação, depois da qual ria-se como se fosse a brincadeira mais engraçada. A razão de estarem ali era um simples passeio: subiram um monte e agora o desciam rapidamente, pois a promessa da paisagem não desculpara a escuridão - era preciso voltar o quanto antes, para não se perderem!
   Os trajes incomodavam um pouco, porquanto fossem inadequados para o tipo de exercício que se apresentava. Mas nada fazia esmorecer a agitação que uma inusitada aventura proporcionava - o alívio bucólico da amofinação citadina servia de refrigério aos olhos e ouvidos cansados do barulho incessante. Ali puderam encontrar um universo diverso, imutável e indiferente; eivado de tintas e de sons; uma tela vívida, enfim. O que ia adiante pulava entre as pedras, tentando livrar-se da terra molhada e escorregadia, traiçoeira debaixo dos sapatos do outro, ameaçado constantemente de queda: - ande lá! - Dizia aquele, inconsequente nos melhores anos de juventude onde falta o juízo necessário do perigo - você está muito lerdo! - e continuava meio impaciente com a demora: - calma! Você leva vantagem porque fez isso antes. Ademais, eu não estava preparado! - Retrucou o outro.
   A idéia surgiu em uma mesa de restaurante, quando ao longe apontava-se o morro. Em menos de uma hora estavam no sopé. O esforço da caminhada foi compensado com montanhas, pôr do sol e brisa marinha; com metrópole incansável e luzes despontando em suas habitações, estendendo braços por todos os lados. Contudo, ao modo de Dante atravessando o Limbo, os dois rapazes foram tomados de angústia desabrida, sopitando a felicidade de ditosa paisagem, quando um deles - justamente o que conhecia a trilha - enganou-se, conduzindo ambos a uma via errada. Perderam-se; e só se deram por isso tardiamente.
   Algo proposital e misterioso havia na mata que se fechava enquanto os pés confusos avançavam; alguma presença invisível, algum observador oculto. À angústia avizinhava-se o medo e, no torvelinho de pensamentos, embrenhavam-se mais no intestino da floresta, que queria digerir os invasores depois de havê-los mastigado - pedras e galhos assemelhavam-se a dentes afiados que os feriam a cada tropeço. O mais experimentado não desejava demonstrar sua fraqueza. A verdade é que mal podia conter-se devido ao nervosismo que dominava seus membros. Sentia frio e esforçava-se por não deixar tremer seu maxilar. Frebicitante, o coração pulava. O que vinha logo atrás tinha perdido um tanto a noção da realidade, quase em um sonho ruim, numa reação orgânica imediata que o anestesiara, alternando excitação e pavor. Inopinadamente, vozes vieram da direção que seguiam: primeiro como sussurros, aumentando assim até transparecer em bulha similar a uma altercação. Hesitaram... Dois estampidos simultâneos ressoaram... Correram sem atinar para a situação; esbarraram-se, caíram e depararam-se, ao fim, com uma cena terrível: estirados na clareira, dois corpos perfurados na altura dos pulmões, de cujos orifícios saía sangue em pequenas bolhas - os dois corpos tinham os rostos exatos dos rapazes perdidos. Dias depois, acharam ambos, ainda no mesmo local, aturdidos. Mal conseguiam entender o que viram. Em laivos de lucidez, somente a breve certeza do que lhes teria acontecido caso ignorassem o aviso recebido no instante do choque: ''saiam e não voltem!''
  

terça-feira, 31 de maio de 2011

Dostoiévski e o Muro

Dostoiévski é o último convidado a chegar com duas citações de Notas do Subterrâneo.
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Fiódor Mikhailovich Dostoiévski (1821-1881)

'' 'Perdão! - dir-se-á - não cabe protestar: dois e dois são quatro. A Natureza não vos pede licença; nada tem a ver com vossos desejos, nem lhe interessa que vos agradem ou não suas leis. Sois obrigado a aceitá-la tal como é, e, consequentemente, todas as suas decorrências. Um muro, evidentemente, é um muro... etc. etc.'' Mas, meu Deus! Que me importam as leis da Natureza e a aritmética se, por esta ou aquela razão, eu detesto essas leis, detesto o fato de que dois e dois são quatro? Está claro que não poderia derrubar o muro com a minha testa, se minhas forças não bastassem; mas não aceito humilhar-me diante do obstáculo só por ser ele um muro de pedra e não ter eu forças para derrubá-lo.''

''Repito, enfaticamente repito: todas as pessoas diretas, todos os homens ativos são ativos porque simplesmente obtusos e limitados. Como explicá-lo? Da seguinte maneira: em consequência de sua limitação, eles tomam por primárias as causas secundárias, imediatas, e assim se convencem, mais depressa e mais facilmente do que as outras pessoas, de encontraram um fundamento inabalável para sua atividade. Então se tranquilizam, e isto é que importa. Para começar a agir, com efeito, é preciso antes de mais nada estar perfeitamente tranquilo, sem nenhum vestígio de dúvida.''

   Creio que ambas as passagens possam surtir em amplo debate. Elas me fazem lembrar um conto de Edgar Allan Poe, onde se diz que Deus é o único ser de felicidade plena por conhecer a causa de todas as coisas. A nós cabe uma dúvida sempiterna: qual o sentido da vida? Por que almejar, tentar conquistar, cair e levantar se a história de cada um termina em morte? Se não há final onde tudo se resolva magicamente? Os homens de ação, como bem diz Dostoiévski, com o perdão da redundância, agem; não param para pensar na razão - apenas agem. Ou então se paralizariam diante de perguntas que jamais poderão ser respondidas: qual o próximo passo? Somente incertezas adiante...
   A penúria, a privação de faculdades motoras, enfermidades, insucessos de qualquer ordem sobrevêm mesmo àqueles que se julgam afortunados - se assim pode nomear-se, a sorte muda ao sabor das circunstâncias. Entretanto, não é de sorte que o autor fala; há algo ainda mais incompreensível, não obstante sua aceitação, de característica irremediável, que são as leis da Natureza. Ora, ao deparar-se com ela - a exemplo de um muro - o homem de ação reconhece sua incapacidade de transpor-lhe. O homem de consciência, porém, digladia com esta incapacidade. Por isso Dostoiévski afirma ser a consciência uma doença: ela imobiliza ante a dúvida do porvir. Ou ainda: não se conforma com os ditames da própria vida.
   Tomar o efeito pela causa é, por mais banal que seja a analogia, outorgar uma medida, desejada como ideal pelo bem comum, sem atacar as raízes do provável vício social. É querer remediar situações, que exigiriam a devida anuência, com palavras que em nada mudarão o estado de quem atravessa uma dificuldade, de quem perdeu algo ou alguém, de quem sofre. Ter consciência de que o futuro é incerto, da falência e fragilidade do corpo, da finitude da vida - da possibilidade de sermos seres pífios e quixotescos abandonados no Universo; é decerto uma doença!

domingo, 29 de maio de 2011

Machado e as Batatas

Machado chegou trazendo as Batatas!

***
Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908)

''Supõe tu  um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição. A paz, nesse caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma tribo extermina a outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, as aclamações, recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas.''

   Segundo a Bíblia, o homem foi criado a imagem e semelhança de Deus. A menos que Ele também esteja submetido à fragilidade e limitação da matéria, o homem jamais teve uma origem divina. Ao contrário, sua transformação em ser racional foi um 'acidente' na escala evolutiva. Mesmo que seja capaz de rir, diferenciar-se de seu próximo, discernir, raciocinar e antever a morte, o ser humano não é nada além de um animal. Há aqueles, entretanto, que enaltecem a capacidade de raciocinar, em detrimento de teorias criacionistas, como se o primado da razão lhe desse um poder maior sobre a Natureza - o topo da cadeia alimentar. Talvez seja isto verdade; não obstante, a condição animal não desapareceu.
   Pode-se partir de observações simples que considerem as necessidades fisiológicas e de reprodução que exigem um esforço maior do organismo; e ir mais adiante até a impossibilidade de superar um dado universal: a violência. No entanto, a civilização, filósofa e científica, quer suprimir esta condição a todo custo. Eterno paradoxo! Aqui uma pequena tribo lutando por sua sobrevivência; ali uma nação querendo submeter a outra - e por que, eu pergunto, por que se, depois de séculos perseguindo o que é bom e o que é justo, os seres parecem não ter aprendido nada? Ou será que tantos pontos de vista nunca lograrão resolver nosso dilema, porquanto atrás de cada capa, espada, coroa ou cetro existe uma massa de carne perecível que nos torna iguais neste aspecto?
   As prerrogativas da civilização compreendem o dever de preservação da Natureza; com o devido distanciamento, contudo. Sopeamos os gêneros e prolongamos a vida; desejamos a paz e a igualdade; vestimos roupas e comemos alimentos congelados - porém, e se nós nos depararmos mais uma vez com o campo de batatas? Faremos guerra ou morreremos de inanição?  

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Proust e Dionísio

Eis que surge o Proust também, No Caminho de Swann!
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Marcel Proust (1871-1922)

''Porém, por mais que eu ficasse respirando diante dos espinheiros-alvares, mostrando a meu pensamento que não sabia o que fazer com ele, a perder e a reencontrar, seu aroma fixo e invisível, unindo-me ao ritmo que as suas flores lançavam aqui e ali com uma alegria juvenil e a intervalos imprevistos como certos intervalos musicais, eles ofertavam-me indefinidamente o mesmo charme com uma profusão inesgotável, mas sem me deixar todavia aprofundá-lo mais, como as melodias que tocamos cem vezes seguidas sem escavar mais a fundo o seu segredo.''

  Este pequeno trecho me fez recordar a leitura recente de Nietzsche por um simples detalhe: a obra de Proust, que eu arriscaria chamar de Impressionista, pois que me faz visualizar cada quadro pintado em profusão de cores, a imaginar como seria a Combray de sua época; em breve passagem, evidencia sua união com a imagem vislumbrada, em torvelinho de sentimentos e inspirações que lhe emprestava a Natureza; ao modo de um homem dionisíaco - nas palavras do filósofo: ''Agora, graças ao evangelho da harmonia universal, cada qual se sente não só unificado, conciliado, fundido com seu próximo, mas um só, como se o véu de Maia tivesse sido rasgado e, reduzido a tiras, esvoaçasse ante ao misterioso Uno-primordial.''
   Tal é a prerrogativa da arte: tornar-se um com o objeto; experimentá-lo, vivenciá-lo, incorporá-lo de maneira a representar, mesmo que numa quase totalidade, até que ponto ele toca. Proust, rememorando sua infância, compõe uma obra sinestésica, que empresta ao leitor os odores e os sabores de cores variadas; permitindo que o olhar retorne para sua própria vida, mudando de perspectiva e abrindo os sentidos para ampla percepção. Ainda que o intento do artista não seja este, mas criticar, despertar, criar novos mundos, enternecer; ele deve partir de si, do objeto que lhe é familiar; deve se revelar, colocar suas questões, seu pensamento, se fundir ao 'misterioso Uno-primordial' de sua arte. Escrever livros, por exemplo, acerca de temas alheios, termina em páginas retóricas e sem fundamento.
   Neste tocante, vemos aí pessoas que se intitulam artistas aos borbotões. Confundem o termo com celebridade. Ou mais: há aqueles que submetem a sua produção ao jugo do mercado e a tudo fazem por encomenda - ou ao gosto do grande público. Devido a isso, vemos brotar cantores de uma música só, escritores e seus 'best-sellers', modelos que viram atores, todos para serem consumidos em dado tempo, explorados pela mídia e descartados. Muitos ganham seu quinhão; alguns logram a fama e a arte vai enfeitar prateleiras, às quais recorrem os chamados intelectuais, que pagam para afetar qualquer tipo de cultura picaresca de almanaque e não passarem por ignorantes.
   Também existe uma outra classe de 'artista' que se julga muito talentosa. São aqueles que escrevem poesias sem rima e critério; são pintores de quadros abstratos; são dançarinos contemporâneos; são esses novos cantores que só valem pela melodia de suas canções, quando a letra é um fracasso. Ora, os meios de comunicação em massa transformaram estas categorias na ponta de lança, na vanguarda, em franca contradição com as celebridades de ocasião que tentam promover - no fundo, são tudo uma coisa só: pro-du-to. E, que fique claro, produto a ser consumido, pois não vale investir naquilo que não dá retorno financeiro! Fazer rabiscos em uma tela; rolar no chão e sacudir os braços; combinar porta com amor e contar histórias de bruxinhos até uma criança faz melhor!
    A arte tem a função de conduzir, primeiramente o que a compõe, depois o expectador, à comunhão com aquele Uno-primordial; ela deve se fazer enxergar no cotidiano; deve participar, não obstante a mensagem que traga, da vida de cada um.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Poe e a Esperança

Finalmente, Poe chegou para a festa!
***
Edgar Allan Poe (1809-1849)

O Dia Mais Feliz

I
''O dia mais feliz, a hora mais doce,
conheceu-os a minha alma desolada.
De orgulho e poderio, a mais ousada
esperança (bem sinto) consumou-se.
II
De poderio? Assim pensei! Mas, ai,
toda esperança é já desvanecida!
Visões do florescer de minha vida,
pobres visões, mortas visões passai!
III
E tu, orgulho, que tenho ainda contigo?
Teu veneno herde uma outra fronte incalma
onde, sutil, se instile esse inimigo.
Que possa ao menos descansar minha alma.
IV
O dia mais feliz, a hora mais doce
que meus olhos já viram ou verão,
de orgulho e poderio a aspiração
mais luminosa, tudo (eu sei) finou-se.
V
Mas se a esperança fosse dada, ainda,
de orgulho e poderio, com a mesma fria
dor que outrora senti, não quereria
nunca mais reviver essa hora linda.
VI
Pois negro era o feitiço de sua asa
espalmada, a esvoaçar, onde caía
potente essência destruidora, em brasa,
por sobre a alma que bem a conhecia.''

   O mito da caixa de Pandora, conhecida mais ou menos de todos, diz-nos que, após cada mazela, salvar-nos-ia a Esperança, único bem que dá sentido à vida dos seres humanos. Uma vida que, mesmo condicionada aos ditames do destino, trágico e desabrido, oferece uma resolução que traz alívio; a certeza de que nem tudo está perdido, de que vale a pena viver. Porém, a sorte que ora nos cabe pode ser acompanhada de algum revés. Ou melhor, sempre é acompanhada de algum revés!
   Esperança, Esperança, já diz seu nome que é consolo de quem espera; voa como pássaro por sobre nós e traz, escondido entre as penas, o 'feitiço de sua asa espalmada'. Antes não ter o seu flerte, dar cada passo sem colocar-lhe o peso da expectativa; a ânsia da volta; a espera sem fim. Pois cada minuto é uma eternidade para quem espera - ainda mais quando nunca chega!
   Esperança estava na nova casa erguida pelo homem que, vendo-a destruída pela chuva, desejou ter sido levado junto com as águas. Esperança estava em um mísero frango assado, dividido por mendigos, quando uma pedra se soltou do barranco e esmagou um deles. Nunca se pode ter certeza da chuva que cairá ou da pedra que rolará - vem a sorte e leva embora todas as Esperanças. Então cabe a pergunta: é assim algo tão salutar, que nos move e adianta, que dá sentido a tudo o que fazemos, não obstante a constante ameaça de a tudo perder nos dados ou na roleta? Não alçamos maior desgosto a não ver nada correspondido, ao depositarmos confianças, porquanto o desejável é dar sem pensar no retorno? E nós poderíamos nos livrar desta tal Esperança? Quem sabe tudo não se resuma nisso: aproveitar da casa ou do frango enquanto eles não são tirados de nós?


sexta-feira, 13 de maio de 2011

Tchekhov e o Trabalho

E lá vem Tchekhov com parte de seu conto A Casa de Mezanino.
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Anton Pavlovich Tchekhov (1860-1904)

''-O importante não é que Anna haja morrido do parto, mas sim que todas essas Annas, Mavras e Pielaguiêias vergam a coluna de sol a sol, adoecem por causa do trabalho pesado, a vida inteira temem pelos filhos famintos e enfermos, a vida inteira temem a morte e as doenças, a vida inteira tratam-se, cedo definham, cedo envelhecem e morrem em meio à imundície e ao fedor; os filhos, crescendo um pouco, entram na mesma dança; assim se passam centenas de anos, bilhões de pessoas vivem pior que os bichos, e tudo apenas por um pedaço de pão, presas de um medo permanente. Todo o horror da situação dessas pessoas está em que não têm tempo para pensar nas coisas da alma nem para se lembrar de seus semelhantes; a fome, o frio, o medo animal e montoeira de trabalho, tal qual aludes, obstruíram-lhes todos os caminhos de acesso à atividade intelectual, precisamente aquilo que distingue o homem dos outros animais e constitui a única coisa pela qual vale a pena viver. Vós socorreis essas pessoas com hospitais e escolas, mas com isso não as libertais das peias; vós as tornais ainda mais escravas, pois, introduzindo novos preconceitos, aumentais o número de suas necessidades, para não dizer já que elas terão de pagar pelos emplastros e livros ao ziêmstvo, ou seja, vergar a coluna ainda mais.''  

   O pensamento ocidental, guiado pela filosofia de segmentos do Cristianismo, dignifica o homem através do trabalho. As questões que lhe envolvem trazem à tona dois momentos da História, que ora diviram o mesmo período, a que muitos aludem sem entender: a Escravidão Moderna e a Revolução Industrial. Ambos processos complexos, com diversos aspectos, e cuja compreensão demanda visualização específica de cada caso. Não cabendo aqui uma análise mais profunda, partamos de seus princípios mais amplos, o que talvez rememorem as consciências que lhes têm reconhecimento, ainda que rarefeitos: a Escravidão Moderna caracterizou-se pelo trabalho forçado, onde seu agente, privado de direitos, tratado como propriedade, estava perpetuamente sob ameaça de violência. A Revolução Industrial, por sua vez, modificou as relações de trabalho, condicionando, a períodos longos de serviço, adultos e crianças muito mal remunerados. Está claro que, posteriormente, houve transformações profundas em ambos os quadros, muito embora haja permanências até a atualidade. Há aí, portanto, uma contradição entre a dignidade apregoada e o próprio trabalho: será que é mesmo algo dignificante?
   Trabalho, ao menos no Brasil, é como salvo-conduto, quase uma identidade, herança provável do governo de Getúlio Vargas, quando a carteira de trabalho passou a valer como distintivo - existia uma lei contra a vadiagem que mandava prender quem estivesse 'à toa' e não a possuísse. Pois bem, sinônimo de honestidade hoje é dizer-se trabalhador; algo, aliás, usado se alguém quer se livrar da acusação de um crime, por exemplo. É um engano; trabalhadores podem ser desonestos e continuar trabalhadores. O que ora se pretende discutir, contudo, é a necessidade de se trabalhar. Trabalhamos porque precisamos; precisamos comer, quitar os compromissos pecuniários, e outros tantos objetivos. Mas, e se não precisássemos? Será que as pessoas acordariam cedo, tomariam a condução lotada, se submeteriam a um patrão e a ganhos ínfimos, perderiam tempo de vida realizando coisas que podem não ter validade alguma?
   Essa foi a via que a civilização optou: nós abrimos esse caminho e construímos uma estrada por ele. Nada mais trágico. É bonito dizer que se está 'enrolado', que não tem 'tempo', que está 'atolado' - se as pessoas reparassem no quão melancólico e triste é repetir isso. Afinal, o tempo que elas dispõe ao trabalho as rouba de todos os demais compromissos com a vida; as rouba de perseguir um ideal mais elevado - o que o texto supracitado chama de atividade intelectual. Mais: não as faz parar e questionar a que ou a quem aquele trabalho serve; em que lugar ele coloca; o que ele proporciona - se ele foi uma escolha ou imposição. Trabalhar não é digno, mas saber por que se trabalha e que bons resultados ele pode trazer; se ele degrada ou embota; se ele exige um conhecimento aplicado ou se ele permite ampliá-lo.
   Trabalho é uma necessidade, reitero; muitos estão privados dele. E como seria bom se pudéssemos dedicar boa parte do dia a fazer o que nos dá gosto, prazer. Tchekhov prossegue dizendo: ''Se todos nós, citadinos e camponeses, todos sem exceção, concordássemos em dividir o trabalho que a humanidade gasta para satisfazer as suas necessidades físicas, então a cada um caberiam duas ou três horas por dia, não mais.'' Uma utopia, talvez,  que, provavelmente, nos faria receber em minutos de existência.