quarta-feira, 11 de maio de 2011

Goethe e a Cruz

E temos mais um convidado: Goethe trazendo um trecho de Os Sofrimentos do Jovem Werther.

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Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832)

''Faz parte do destino humano cada um de nós carregar a sua cruz  e beber o fel de seu cálice até a última gota. Se mesmo o Filho de Deus considerou o cálice demasiadamente amargo para Seus lábios humanos, por que devo fingir, considerando-o agradável? E por que deveria envergonhar-me, no terrível momento em que todo meu ser oscila entre a vida e a morte, quando o passado ressurge como um relâmpago alumiando o abismo sombrio do futuro, e tudo desmorona em torno de mim, e o mundo inteiro parece se extinguir? Não é esta a voz de uma criatura angustiada, já sem forças, a quem uma atração irresistível arrasta para o precipício e, em um último esforço, grita: 'Meu Deus, meu Deus, por que me abandonou?' Deveria me envergonhar dessas palavras, se Ele próprio não receou em pronunciá-las, Ele, que reina sobre os céus?''

   Atualmente, talvez pela moda ou autopreservação, as pessoas têm comercializado as receitas de Felicidade ainda mais do que nunca. É forçoso observar que o gênero humano apresenta aspectos muito cruéis, algo infinitamente explorado pelos meios de comunicação, o que faz com que se busque um caminho que fabrique sonhos, que permita acreditar que a realidade pode ser diferente. Basta um olhar sobre a História, contudo, para perceber que esta mesma realidade, não obstante os laivos de esperança, que porventura ofereça uma época, sempre foi marcada por aquela referida crueldade: seja em guerras, perseguições, genocídios, intrigas, assassinatos, etc. É como se nós não pudéssemos nos libertar de características intrínsecas que lembram a todo momento que somos animais. E quando não parte da ação dos homens, é efeito da própria vida: misteriosa, incompreensível e, para muitos, injusta.
   A sociedade tenta afastar a infelicidade, a dor, a fatalidade e a morte. Mesmo que uma leva experimente a solidão e o vazio; que se veja vítima irremediável de doenças ou perdas; que deseje algo impossível; que se depare com a fragilidade do corpo diante do fim; há a necessidade de erguer painéis fantásticos, remendando a existência com imagens de alegria, de igualdade, de amor. O mal deve ser extirpado a qualquer custo; escondido, encarcerado, longe das vistas, em uma medida desesperada de cobrir o espelho e seu reflexo horrível. O que prevalece são as cândidas sensações que nos trazem os livros de mensagens boas, os filmes com final feliz, as terapias, a religião e tantos outros veículos que, assim unidos, vendem a Felicidade. Nada mais falso! E com isso, ela, a sociedade, adoece. Afinal, nem todos logram o destino desejado. Muitos são detidos no caminho e, tardiamente, descobrem que, ao contrário do que dizem, não temos compromisso algum com a Felicidade.
   Então, por que desprezar aqueles que verdadeiramente sofrem? Aqueles que não podem se superar? Aqueles que não podem se reerguer, que não vêem vantagem na miséria, no abandono, na agressão involuntária contra seu corpo e sua alma? Aqueles que jamais terão suas vontades realizadas? Pois há coisas que, nem o Estado e nem Deus, são capazes de remediar. ''Meu Deus, meu Deus, por que me abandonou?'' Por que somos tão ínfimos e tão suscetíveis?  Por que permanecemos nadando contra esta maré que rouba as nossas forças? Não seria mais fácil reconhecer a nossa incapacidade? Que não somos divinos, porém fracos? Apenas recordamos da ressurreição, todavia esquecemos da cruz!

terça-feira, 10 de maio de 2011

Schopenhauer e os Demagogos

   O segundo a chegar para a comemoração é Schopenhauer, com o trecho de A Arte de Escrever, retirado de seu livro Parerga e Paralipomena.
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Arthur Schopenhauer (1788-1860)

''Quando observamos a quantidade e a variedade dos estabelecimentos de ensino e de aprendizado, assim como o grande número de alunos e professores, é possível acreditar que a espécie humana dá muita importância à instrução e à verdade. Entretanto, nesse caso, as aparências também enganam. Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo crédito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes. A cada trinta anos, desponta no mundo uma nova geração, pessoas que não sabem nada e agora devoram os resultados do saber humano acumulado durante milênios, de modo sumário e apressado, depois querem ser mais espertas do que todo o passado.''

   Esse é o quadro que percebemos nas Universidades atualmente: alunos e professores pretensamente engajados na construção do saber. Lêem livros, debatem, fazem notas de rodapé, citam autores e a todos, diante da pompa do conhecimento, impressionam e angariam o respeito dos incautos. Porém, se olharmos bem de perto, com uma lupa que aumente sua proporção, veremos que não há efetivamente a construção do saber, mas simples imitação. O esquema, talvez, seja um tanto complexo para quem não teve oportunidade de observar pontualmente, porquanto há muitos aspectos que perfazem o dito quadro. O que se pode dizer é que se a Universidade fosse a ágora grega, haveria a predominância de demagogos.
   Evidentemente, contudo, que não se pode afirmar peremptoriamente que cada Universidade apresente tais características. Mas as temos visto muitas assim. Os professores adotam uma postura absoluta e distante, transmitem o conteúdo das aulas, recomendam textos e, de tal forma se embrenham naquela ciência, que só sabem falar dela. Não adianta que lhes peçam irem além: o conteúdo é limitado. E este mesmo conteúdo vai estampar capas de livros que enfeitam prateleiras, as quais poucos visitam - apenas os iniciados nesta arte e linguagem complexas e herméticas. Viviam gritando contra o sistema e o criticam quando podem, mas são incapazes de desfazê-lo. Ao contrário, se imiscuem e perpetuam aquilo que ora condenavam - se fazem algum trabalho que pareça mais próximo da sociedade, é pura falsidade; na realidade, são seres egoístas qua jamais abririam mão de seu quinhão. Morrerão em suas cátedras, jurando que sua ciência é maior do que as demais.
   No que tange aos alunos, a situação não é muito diferente. Adquirem o conhecimento sem questioná-lo, ou, se questionam, é para atacar o conhecimento do outro. Querem afetar a consciência e presam por valores torpes que divide a turma, a qual acharam por bem juntar-se, para não parecerem retrógrados e mesmo ignorantes. E são extremamente contraditórios: a igualdade e a liberdade se justificam no caso do próximo, quando pensam ser correto julgar; nunca no caso deles próprios, afinal, qualquer coisa que lhes embote a opinião é repressão desavisada. O falar pode ser rebuscado conforme a ocasião, podem tabém usar de expressões modernas e há quem se valha dos talentos da oratória para lograr alguma consideração entre os seus. Porém, nenhum deles parou para se perguntar a razão daquilo tudo, nem mesmo pensou na possibilidade de estar errado. No fundo, o pensamento que tanto divulgam não lhes é original; é uma cópia, uma imensa colcha de retalhos de frases de efeito tiradas de inúmeros filósofos. Culpa do ensino que obriga a tudo provar com referências - nada do que é seu pode servir, a menos que seja corroborado por algum grande pensador. Então, podemos concluir que não há produção, mas reprodução. E uma malta de fantoches que irá virar professora no futuro, mantendo o sistema como ele é. Ora, na Universidade também há padrões: seja no modo de se vestir ou na qualidade dos livros que se lê; o importante é não destoar. Claro que um aluno jamais dirá que segue padrões, pois o padrão é exatamente este!
   A Universidade é uma ilha; ela analisa a sociedade de longe; e se convém, faz seminários, colóquios, convenções para tentar saber o que há de errado extramuros. A ação, entretanto, passa longe de sua intenção. A Universidade é uma ilha, reitero; uma ilha de demagogos.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Victor Hugo e a Pólvora Desperdiçada

   Em Maio de 2011, o Mau Prosador faz um ano de existência. Para comemorar, durante o mês publicarei trechos de textos de autores consagrados, fazendo breves comentários em seguida. O primeiro a ser convidado para a pequena festa é o escritor francês Victor Hugo. Espero que apreciem.

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Victor-Marie Hugo (1802 - 1885)

''Calculou-se que, em salvas, cumprimentos reais e militares, trocas de disparos corteses, sinais de etiqueta, formalidades de cais e cidadelas, saudações ao nascer e ao pôr do sol, feitas diariamente por todas as fortalezas e navios de guerra, aberturas e fechamentos de portos, etc., etc. o mundo civilizado gastava com pólvora, por toda a terra, a cada vinte e quatro horas, cento e cinquenta mil tiros inúteis de canhão. A seis francos cada tiro, são novecentos mil francos por dia, trezentos milhões por ano, que se vão em fumaça. Mero detalhe. Enquanto isso, os pobres morrem de fome.''

   Esta pequena citação foi retirada do livro 'Os Miseráveis', obra monumental que se transforma em verdadeiro tratado durante sua leitura. O trecho é bem atual; não no que diz respeito aos tiros de canhão, mas aos gastos inúteis em um mundo onde milhares de pessoas vivem na miséria. Não é preciso ir muito longe, basta acompanhar o cotidiano das pessoas, suas vontades, suas ambições, seus valores, indissociáveis de um sistema desigual e controlador. O que dizer do consumo, por exemplo? Quase todos reconhecem as mazelas advindas do consumismo, não conseguindo libertar-se, contudo. Afirmam que o importante é o bem estar, é a saúde, e, contraditoriamente, adquirem bens de pouca serventia. Ou ainda: entram em prestações sob o risco de não poder pagar. Não há quem fique indiferente diante de uma grande soma de dinheiro - a questão é saber gastar. Entretanto, o mencionado sistema sobrevive disso, da Economia, tão festejada. E as mesmas pessoas tornam-se números e estatística em uma planilha. A política se preocupa mais com a indústria, o comércio, os faturamentos, os prejuízos e, se fala em serviços para a população, entram sempre em segundo lugar - acelerar o crescimento, esta é a chave da riqueza!
   O consumo está também, não obstante a camuflagem, nos padrões de beleza, na condenação da velhice, no novo estilo musical, na moda, no entretenimento e em tantos outros pontos onde as cifras de poucos chegam na casa dos milhões. E aí vale a questão: de que adianta tudo isto? Matar-se para ter o corpo perfeito, comprar os cremes mais caros que retardam a idade, ouvir a música em outra língua sem nem entender o que está sendo dito e aplaudir celebridades que recebem cachês altíssimos apenas por vestirem roupas de modo adequado, ou por serem belas, por protagonizarem escândalos. E com isso tudo vão os 'tiros de canhão' - supérfluos e dispendiosos!
   A pólvora desperdiçada é a alegoria desta sociedade de disparates absurdos, de polarizações, de extremos. Onde muitos tentam alcançar um objetivo, arrefecendo a competitividade e as teorias de sucesso e positividade, vinculadas ao termo de capacidade, da qual, relativamente, nem todos compartilham. E que valores elegemos? O do conhecimento aplicado, técnico e incompleto; do corpo belo; do trabalho sem escolha; do sucesso financeiro como o fim desejado; do respeito por uma profissão em detrimento de outra; de leis que somente oneram o Estado; e, sobretudo, da irreflexão - platéias e platéias consagram papéis canhestros de atores ruins, ainda que tenham dormido durante o ato.
   Os tiros são cada vez mais comuns e fazem mais barulho. Cada vez que desponta uma nova estrela, no céu da política ou da mídia, se vão mais tantos francos de pólvora. A cada nova negociação ou novo acordo assinado; a cada nova passarela e contrato; a cada novo filme, a cada novo sensacionalismo - tantas salvas de canhão e tantos gastos inúteis! O mundo civilizado talvez não devesse se orgulhar desta alcunha, posto que realmente não lhe faz juízo perante suas levas de miseráveis.


segunda-feira, 18 de abril de 2011

Apenas um Sintoma

   Todos os meios de comunicação veicularam o trágico episódio ocorrido em Realengo até a exaustão. Valeram-se de termos diversos para desqualificar o causador e incitaram a opinião pública a julgar e a perseguir sob a máscara do papel informativo. O senso comum não tem o discernimento suficiente para separar a boa matéria; ele a tudo assume como verdade e sequer sabe diferenciar um psicótico de um psicopata. Aqueles que tinham a palavra, contudo, e a envergadura para contribuir em algum esclarecimento, nada fizeram além de prestar um deserviço. Não houve uma análise satisfatória da situação. Uns acharam por bem contextualizar; outros quiseram dar receitas para evitar futuros eventos similares; houve quem se aproveitasse para fazer campanha, para adotar medidas repressivas com as prerrogativas da segurança. Por fim, só pudemos assistir a desgraça alheia sendo explorada de forma vil, e a desfaçatez da comoção forçada de quem estava indiferente a tragédia.
   Então elegeram o bullying, palavra do momento, como culpado. E mais uma vez a Imprensa saiu-se mal: adotou modelos e distorceu conceitos. Bullying é um nome diferente, inglês, mas que não existia há anos atrás; serve para definir a execração de uma ou mais pessoas por seus colegas de escola. Pois bem, acreditam que a Justiça poderá dar conta de punir seus executores. E eu pergunto: como? Colocando crianças e adolescentes atrás das grades? Estabelecendo multas? Será que a demência dessa sociedade é tanta que não a faz ver que bullying é um problema de Educação? Que é no próprio colégio que nasce e deve morrer o tal do bullying? E, assim mesmo, o bullying pode não desaparecer. Afinal, bullying não se manifesta somente no colégio e de forma evidente. Ele pode ser velado, silencioso. E aí, haverá Justiça que dê jeito?
   O assassino de Realengo foi chamado de animal, e outra questão que se interpõe é: acaso a atitude de colocar a cabeça de alguém no sanitário e dar descarga é digna de seres humanos? Isto não foi dito. A vítima do bullying pode ter uma predisposição a sérios comprometimentos psiquiátricos, e como cada um reage de uma maneira, deu no que deu. Mas os homens de ação tratam o efeito como causa. Os pais e o colégio não assumem a responsabilidade da educação das crianças e seu peso recai sobre os professores. Agora, o jeito é remediar uma sociedade que está doente. Wellington foi apenas um sintoma.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Vontade e Civilização

   Cada ato de crueldade, que aos homens escandaliza, nos desperta para nossa terrível condição animal a qual a civilização não logrou sopitar. Está certo que temos a razão como aliada e que para a sobrevivência da própria civilização é necessária a manutenção de princípios morais e éticos - o que compreende não matar. Entretanto, passam idades, eras, épocas inteiras e a violência continua presente. E por que, pergunto eu, não podemos de vez superá-la?
   Dostoiévski, grande autor realista, nos fala, em um de seus livros¹, que, não obstante a ciência seja capaz de prever cada ação, ainda assim existirá a vontade dos humanos, classificados por ele como 'ingratos'. E essa vontade, em tempos de bem-aventurança, distorce maldosamente os mencionados princípios, pelo simples prazer de se contrapor à razão, parcela ignota da constituição física. Vamos a ele: ''Que é que a civilização suaviza em nós? A civilização só faz produzir no homem a diversidade de sensações, e decididamente nada mais. E, graças ao desenvolvimento dessa diversidade, acontece que homem pode acabar encontrando prazer no sangue. (...) Seja como for, se a civilização não tornou o homem mais sanguinário, decerto o fez mais perversamente, mais covardemente sanguinário do que antes. Antes, ele via no derramamento de sangue um ato de justiça e era de consciência tranquila que ele exterminava quem lhe aprazia; hoje, embora considerando o derramamento de sangue uma coisa abominável, entregamo-nos a essa abominação ainda mais frequentemente que antes.'' Mais adiante, ele continua: ''mas a razão é a razão, e satisfaz apenas a faculdade de raciocinar do homem, enquanto que a vontade é a expressão da totalidade da vida, ou seja, da vida humana inteira, inclusive a razão e seus escrúpulos; e embora nossa vida real, tal como se exprime assim, se torne às vezes má, nem por isso deixa de ser vida, e não uma extração de raiz quadrada. (...) Que sabe a razão? A razão só sabe o que aprendeu (...) enquanto que a natureza humana age com todo seu peso, por assim dizer, com tudo o que traz em si, consciente e inconscientemente; e, mesmo errando, vive. (...) Mas repito-vos pela centésima vez: existe um caso, um só em que o homem pode conscientemente, propositadamente, desejar o que é desvantajoso para ele, o que lhe parece estúpido, muito estúpido - simplesmente para ter o direito de desejar para si até mesmo o que é muito estúpido, e não ficar preso à obrigação de só desejar o que é sensato.''
   Ouvi, certa feita, que a maior tragédia do homem foi a civilização; a todo momento essa sensatez nos faz coibir, dentro de aspectos políticos ou religiosos, a Natureza que não consegue aceitar que Deus predestinou o homem a um destino sublime; que este homem é a imagem e semelhança do Ser Divino; esta Natureza que percebe possivelmente que o mundo conhecido é apenas mera ilusão, uma construção, e que seus valores são falhos, vagos e facilmente burláveis. A vontade está acima de qualquer estudo científico - ela não pode ser dissecada por fórmulas. O que é sensato, portanto? Pode o sensato suprimir sua vontade? Ou melhor: pode o homem dizer impossível que cometa um ato de sua vontade? Que julgue seu próximo como se estivesse imune à tal Natureza? A vontade está acima da civilização!


1: DOSTOIÉVSKI, Fiodor M. Notas do Subterrâneo. 6ª ed. Rio de Janeiro: Bertand Brasil. 2008.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Alienistas Alienados

   Dizer de Machado de Assis que era pessimista é pura retórica. Talvez porque buscasse entender a alma humana acima de todas as suas demandas - e reconhecia sua irremediável miséria. Provavelmente, será esta a sensação que o leitor terá nas páginas de O Alienista, onde um cientista procura pesquisar os males psíquicos que assolam os habitantes de Itaguaí, na virada do século XVIII para o XIX. Com muito humor, carregado, porém, de certa melancolia, Machado demonstra que o discurso racional nem sempre está associado aos métodos ortodoxos, antes feito de paliativo, valendo-se das prerrogativas da própria ciência para contraditoriamente prender pessoas sãs, as quais nada apresentavam de evidentemente anormal, e cuja conclusão é algo irônica. No fundo, nada passava de um ponto de vista de Simão Bacamarte, aquele quem dá título à obra; homem que gozava do respeito e admiração locais, mas que acaba provocando reações adversas da população. Humor com melancolia significa rir da frágil condição dos seres; rir um riso triste dos que pensam deter todo o conhecimento, mas que em verdade não entendem de nada. Antes: mesmo com o pouco adquirido, não percebem o extenso caminho a percorrer; ou ainda: a impossibilidade de percorrê-lo.
   E quantos alienistas não vemos atualmente? Quantos daqueles que nos dizem o que devemos comer, vestir e pensar? Frequentemente, médicos, psicólogos, pedagogos, advogados, administradores aparecem para interpretar a sociedade, indicar os novos rumos, entender o comportamento, o modo correto de agir. Não logramos abandonar o discurso civilizatório - e mais: padronizador, higienizante, condenatório - dentro de uma perspectiva racional, defendendo que isto, e não aquilo, é o melhor para todos. Se é administrador, como se deve portar-se em entrevistas, fazer um currículo e a que geração pertence; se é médico, a refeição mais saudável ou o exercício para não morrer logo; se é psicólogo, a atitude da pessoa que pode possuir algum transtorno que a deixe louca; se é advogado, a lei que pune quem não andar corretamente; se é pedagogo, como pais e professores devem domesticar suas crianças. Reitero: o discurso civilizatório é padronizante, higienizador e condenatório. Padrozinante, pois entende que todos são iguais e devem agir da mesma maneira; higienizador porque pretende identificar as enfermidades e curá-las, mesmo onde elas não existam; e condenatório quando estimula a perseguição através das leis.
   Mas é possível que a sociedade seja civilizada desta maneira? Há alguma fórmula que possa prever os desequilíbrios da mente ou do organismo; do pai, do patrão ou do professor? Alguma fórmula qual seja  para que possamos desfrutar da tecnologia dentro da devida moral? Ou será que os cientistas de nosso tempo não sabem que as leis, os compêndios, os remédios são insuficientes para tratar do caso dos seres humanos? Pois bem, sairemos sempre como alienistas, acreditando nesta fórmula, trancafiando a todos que parecerem destoar, que parecerem loucos; não somos capazes de enxergar a nossa diferença, a nossa particularidade, a nossa individualidade, intens a que o modelo não comporta. Somos alienistas alienados, os quais no fim descobrem que quem deveria estar internado no hospício éramos nós!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Um Pouco Sobre a Justiça

   Recentemente, treze pessoas foram presas por protestarem diante da embaixada dos Estados Unidos durante a visita do presidente Obama. As treze pessoas manifestavam-se pacificamente, mas foram desabridamente repelidas e conduzidas a presídios. Não houve uma acusação formal, não houve um julgamento. Apenas a determinação de um juiz e a conivência da sociedade que, malgrado seu, não foi satisfatoriamente informada devido o caso ser assim sopitado pela grande imprensa. Uma breve nota de jornal, porém, guardou um imenso significado: a supressão dos direitos democráticos em prol de um bem maior. A frase é tão curiosa quanto a sua origem. Afinal, o que são direitos democráticos? E que bem maior é esse?
   O cidadão tem direito de protestar, tem direito de reivindicar e tem direito de se posicionar; e isso não somente em época de eleição, quando a Democracia é festejada. Se direita ou esquerda, cada um pode expressar-se, pois este é um princípio de uma sociedade que se quer livre e autônoma. Todavia, o passado nebuloso do Brasil insiste em reaparecer; passado onde havia autoritarismo e punição. E não por vias justas; por vias repressivas. Este fantasma não foi plenamente exorcizado - ele ainda nos assombra nas ações da polícia e, agora, nas medidas do judiciário.
   Certa vez, uma professora disse que o poder judiciário rivalizava com o executivo. Parece, entretanto, que o executivo encontra-se nulo. E pior: o legislativo e o mencionado judiciário, ora associados, fazem corroborar a idéia de que o bem público é algo privado. Ou será que não foi uma medida personalista, capaz de vencer a própria lei, que ordenou o encarceramento das treze pessoas sem um julgamento? Digo personalista, pois não se pode fazer prevalecer uma ideologia sobre outras dentro da Democracia - ou então teremos uma ditadura! Mais: teremos perseguições, proibições e encarceramentos propriamente ditos!
   Terrível precedente, péssimo exemplo! Isto demonstra que qualquer cidadão pode ser abordado, posto a ferros sob o pretexto da ordem, não obstante esteja exercendo o seu direito de manifestar-se. Isto demonstra que estamos vulneráveis diante das atitudes de qualquer pessoa que alcance um cargo notório, como o de um juiz, e que, valendo-se das prerrogativas, entenda que o certo é extrapolar suas reais funções! Tantas pessoas morreram em nome da Liberdade e olha aí, a História do Brasil é marcada por regimes autoritários e por golpes, de maneira que vivemos com o 'rei na barriga' e nos prosternamos até o chão às autoridades.
   Na aula daquela mesma professora, analisamos o código de 1830 e chegamos à conclusão óbvia de que quem legisla, legisla em causa própria - era assim com as leis do Império, é assim com as leis de hoje. Ao contrário do que era de se esperar: que as leis fossem constantemente revistas e questionadas; são tomadas como absolutas e, pelo visto, passíveis de serem burladas. Servem para que um calouro de direito, ou mesmo um desembargador, ufane-se, com a Constituição debaixo do braço, e diga que você poderá ser processado porque não sabe com quem está falando! O judiciário orgulha-se do seu prestígio e alardeia sua pretensão de agilidade, porém não consegue livrar-se da carga de um poder que pune ao invés de corrigir. Aí protagoniza este teatro canhestro prendendo treze pessoas que somente exerciam o seu direito de manifestar-se - coisa, aliás, garantida por lei.
   Enquanto elegermos o judiciário como aquele que realiza a vingança por nós, estaremos a mercê desse Estado desequilibrado, onde os poderes deveriam regular-se e não desaparecer uns diante dos outros.

sábado, 2 de abril de 2011

O Romantismo de Amélia

   Amélia é que era mulher de verdade - diziam; de fato, era moça, cabelos negros, pele alva, lindos olhos esmeraldinos, mediana, fresca, odor de rosas... Linda! Além de tudo era inocente. E sua inocência cativava. Se velha, pela candura e bondade; se amiga, pela atenção e deferência; se família, pelo respeito e devoção; se homem, pela beleza e ancas largas que fariam qualquer um fartar-se. Apetitosa! - Afirmariam antigamente - gostosa! - Diriam certamente nos dias de hoje.
   Amélia sonhava. Sonhava com um príncipe que lhe fizesse muito feliz. E ia aos poemas com certa volúpia, imaginando que um daqueles amores poderia estar guardado para si. Lia romances e se via resgatada, de toda maldade e todo o tédio, por um cavalo branco que a levaria ao castelo dos suspiros. Escrevia em seu diário, anotava a espera, contava os minutos e mirava a paisagem pela janela, apoiando a cabeça na mão direita, correndo os olhos pelos transeuntes, assistindo ao sol poente e depois, a lua majestosa! E ali, arfando da saudade de algo que não viveu, sentia poder rebentar de paixão por alguém que não existia. Caso se encontrasse sozinha, permitia correrem-lhe as lágrimas, as quais iam molhar a fronha de mais uma noite solitária.
   Todavia, dentre as reviravoltas da vida, surge o Dimas. Rapaz bonito, alto e de personalidade. Era desejado em segredo por muitas jovens do bairro; e invejado, talvez, por muitos outros que lhe tinham na conta de cafajeste - afinal, ainda que um canastrão de marca maior, Dimas saía com a mulher que quisesse. Certa feita, seus olhares se encontraram e Amélia sentiu palpitar-se inteira. Teve até um pouco de vertigem e mal pôde balbuciar um cumprimento quando Dimas veio falar-lhe. Foi em uma festa. Dali a alguns dias estavam namorando. Amélia escrevia seus versos, fazia desenhos de rodapé, vivia o amor em cada gesto como uma princesa encantada. Dedicava ao Dimas seus pensamentos, sua respiração e sua existência. Primeiros amores são assim: crê-se no enlace sempiterno, na sobrevivência e na eternidade do namoro. Uma breve nota, porém, deve ser observada: os pais da menina não aprovavam, mas ainda assim o recebiam em casa. Para ela, o fato da desaprovação emprestava um ar trágico a que todo o amor deve prosternar-se. Ou não seria amor. Na cabeça dela funcionava assim: amores impossíveis, fugas repentinas, sacrifícios são todos ingrediente de romance e felicidade. E temia, temia que ele morresse, temia ver-se separada de Dimas, temia não realizar todo o platonismo que, para Amélia, ganhava o clamor de um fetiche.
   Dimas, então, em um desses encontros tórridos e proibidos - no banco detrás ou na sombra da árvore; queria ir com Amélia às vias de fato. E tanto fez, tanto insistiu, que ela cedeu e armaram tudo para não perder o clandestino, o mistério. A fantasia de Amélia mistificou a união dos corpos, a comunhão que os tornaria unos, que sacramentaria o sentimento, mesmo que, em seu íntimo, achasse que deveria antes casar-se. Entregaria-se e quase não podia conter-se por isso!
   Dimas pegou um carro emprestado, buscou-a às oito e só parou próximo da rodoviária, em uma rua pouco iluminada e frequentada por tipos estranhos. O hotel ficava ao lado: construção baixa, de três pavimentos, parecendo exceder em idade devido a sua decadência. Dimas e Amélia subiram as escadas escuras e chegaram no andar do quarto: uma porta empenada abria-se para um cubículo que cheirava a mofo. Havia infiltrações pelas paredes, um colchonete, uma lâmpada pendurada por um fio e insetos, muitos insetos. A moça não esperava por aquilo, não era aquilo que ela havia imaginado. Dimas acendeu um cigarro e foi tirando a roupa; em seguida, forcejou por tirar a dela. Depois de alguma insistência, ambos enfim deitaram e ele pediu que ela fizesse coisas imundas, além de gritar um palavriado baixo e tentar agredi-la. Nua após o ato, deixou-o deitado de lado e foi banhar-se. Não havia tábua no retrete; um cano fazia jorrar a água gélida sobre ela e um sabãozinho de coco serviu-lhe para lavar a intimidade cheia de sangue.
   O romantismo de Amélia morreu  naquele quarto barato de um hotel ordinário, nos braços de um homem cuja vontade era destruir-lhe a pureza... nada mais...

segunda-feira, 7 de março de 2011

Entrevista com uma Socialite

Entrevistador: -estamos aqui com a socialite Lucinha Lafourd, que acaba de voltar de Nova York onde apresentou um desfile da sua mais nova grife. E aí, Lucinha, o que está achando da recepção aqui no Copacabana Palace?

Socialite: -estou achando tudo maravilhoso, a festa está linda; só estou estranhando um pouquinho o calor do Rio de Janeiro. Sabe como é, em Nova York faz um frio nessa época do ano!

Entrevistador: -e como foi apresentar a nova coleção de sua grife nos Estados Unidos?

Socialite: -ah, foi maravilhoso. Você sabe que eu não modelo mais, né? Meu marido tinha ciúme de mim na passarela. Aí resolvi montar essa grife e chamei vários modelos e estilistas para me prestigiarem. Agora, nós estamos querendo abrir uma filial em Londres, Paris, Milão e, quem sabe? Aqui no Rio.

Entrevistador: -parece que você superou muito bem a morte de seu marido, Pierre Lafourd...

Socialite: -ah, Pierre era maravilhoso. Morreu com noventa e três anos, acredita? Ninguém dizia, meu amor, Pierre era inteiraço! Nosso amor era verdadeiro porque não via idade; nossas almas eram jovens, isso que importava.

Entrevistador: -para quem não sabe, Pierre era dono de uma das maiores cadeias de hotéis do mundo e, curiosamente, não tinha filial no Brasil.

Socialite: -ah, mas já tem previsão para abrir uma em Ilhéus, se não me engano. Uma rede indiana quer comprar e prometeu abrir uma filial aqui.

Entrevistador: -você vai posar nua novamente?

Socialite: -como é que você sabe disso? Ah, me fizeram uma proposta, eu estou estudando com meu empresário; me chamaram também para ser Rainha de Bateria. Mas agora só estou interessada em lançar o meu cd; se Deus quiser, até novembro sai.

Entrevistador: -mas essa mulher tem alma de artista, depois de lançar um livro, agora um cd também?

Socialite: -a arte é maravilhosa, gente. Aquele meu livro vendeu feito água; era um romance que se passava na Europa e no meio tinha uns roteiros gastronômicos, umas dicas de hotéis. Eu quis unir o útil ao agradável, sabe? E tudo bem baratinho para as pessoas sem recursos poderem aproveitar também, né? Afinal, quem não gosta de viajar? E a Europa é logo ali!

Entrevistador: -a renda foi para a sua ong, né?

Socialite: -foi, e a renda do novo cd também vai. Inclusive, eu fiz um leilão, antes de viajar, em prol dessa ong que visa recolher da Zona Sul as pessoas em situação de rua. Porque todas elas estão na linha de risco, né? E a ong tem um espaço bom, um espaço onde essas pessoas poderão encontrar dignidade! Ao invés de deixá-los usando drogas, assaltando, a ong recolhe e leva para lá! Não é maravilhoso?

Entrevistador: -e o que a ong oferece?

Socialite: -lá tem cursos de etiqueta, línguas e em breve teremos corte e costura. Não basta dar o peixe, gente, tem que ensinar a pescar, e com esses cursos, eles terão os instrumentos necessários para arranjar uma profissão. Olha, se vocês quiserem visitar, nosso espaço fica em Sepetiba... As pessoas se queixam da distância, mas de táxi é rapidinho! Passem lá, estamos precisando de doações.

Entrevistador: -é de iniciativas como essa que o país precisa para melhorar!

Socialite: -é, sim! E o último governo fez um bem enorme a essa população com uma obra, que eu não chamaria nem de social, mas de caridade. Quando que a esquerda faria isso, gente? Impensável, né? Todo mundo dizia que comunista comia criancinha e olha aí, quer atitude mais cristã? Nada contra as outras religiões, gente! Foi maravilhoso, agora só voto com eles!

Entrevistador: -e agora, você já tem um novo destino para viajar?

Socialite: -amanhã embarco para Paris, meu amor, preciso renovar meu guarda-roupa! Esse calor do Brasil faz a gente suar e aí estraga minhas fazendas. Fora que Paris, nessa época do ano, é ma-ra-vi-lho-sa!

quarta-feira, 2 de março de 2011

Capitalismo Selvagem II

Na última mensagem que deixei aqui, aventurei-me a falar sobre o Sistema Capitalista. Está claro que é um tema inesgotável e que jamais caberia em um mero 'post'; aliás, é tema que mal caberia no espaço de um livro, devido aos seus múltiplos aspectos. A minha intenção foi a de abordar determinados pontos que me têm causado um certo incômodo e o fiz de forma sucinta e pouco explicativa; 'joguei no ar' como dizem. Portanto, gostaria de esmiuçar algumas coisas, o que ainda não será de modo satisfatório.

***

1- Digo que sou pessimista por não crer que uma só ideologia dê conta de abarcar e transformar um processo histórico plenamente, alterando o sistema de modo satisfatório. Ideologias são frágeis, permeáveis e mudam ao sabor do momento; são incapazes de alterar um estado essencial da natureza humana. Pois, por mais que tenhamos o status de civilizados, jamais deixaremos de ser animais. Afinal, a nossa compreensão dos direitos humanos não superou um dado universal: a violência entre os povos é algo latente, existe desde que o mundo é mundo.
2- Apesar de ser cristão, tenho severas críticas ao Cristianismo; ao me ver, a mentalidade tacanha da sociedade ocidental se deve em parte à sua cultura religiosa. Talvez, o que ora vá dizer tenha mais a ver com o catolicismo: o discurso de humildade, subserviência e compaixão tornou o nosso pensamento medíocre, nos estagnou, nos fez hipócritas. Afinal, por que é ilícito reconhecer suas próprias qualidades, enriquecer, ambicionar, desejar algo grandioso e não se contentar com pouco? Por que temos sempre que nos justificar como se pedíssemos perdão? Por que não podemos dizer o que realmente pensamos e escamoteamos qualquer reação adversa para ser politicamente corretos?  Jesus expulsou os vendilhões do templo, mas nós só lembramos de dar a outra face!
3- Ainda sobre a mentalidade cristã: as situações que provocam a comoção alheia, movimentam a sociedade em favor daqueles que sofreram prejuízos; pois bem, o Cristianismo, em todas as suas vertentes, prega a caridade e a compaixão, mas não há nada pior do que isso. Entenda-me: não há sentimento que nos torne mais superiores do que a compaixão, e não há ato que nos distancie mais do próximo do que a caridade. O indivíduo faz doações para pessoas que ele nem conhece, acreditando que cumpre um dever perante Deus e esquece-se de atuar no seu cotidiano como uma pessoa de bem. Jogar moedas no gazofiláceo, para fazerem bastante barulho e outros perceberem o tamanho da obra, é uma prática corrente. Todavia, ao invés de mandar um casaco roto através de terceiros a alguém desconhecido, deveríamos ser solidários - e não caridosos - com aqueles que estão ao nosso lado. Não quero dizer que sejamos indiferentes, mas objetivos quanto à real mudança que podemos proporcionar. De que adianta me preocupar com a fome, no outro lado do oceano, se os meus vizinhos sofrem? Por isso eu não acredito quando o empresário fulano, ou o artista beltrano, aparece na televisão para mostrar o grande favor que fez à sociedade com tais e quais projetos.
4- Afirmar que a sociedade é extremamente desigual é lugar-comum. Ela sempre foi e sempre será; já o disse, sou pessimista. Uma camada, que se diga minoria, exije seus direitos, mas com a devida punição daqueles que os violarem; ou seja, não há garantias de acesso à cidadania que desfaça a discriminação, a desigualdade, porque há sempre um ponto de vista, há sempre um referencial cultural, há sempre um desejo de punir, há sempre uma perspectiva maior e melhor em detrimento de outra - há sempre um oposto, um mal a ser combatido! Não adiantam os presidentes negros, mulheres, operários, são todos seres humanos, falhos e insígnes. Não adiantam a Justiça e a mídia que se quer combativa; elas estão sempre construíndo novos valores e perseguindo, ainda que sutilmente, quem não concorde, condenando previamente quem pense diferente ou mesmo quem deu um mal-passo, como se ninguém pudesse errar. E aí todos se calam, porque é feio dizer que a coleguinha é gorda, que detesta animais, que não gosta de pobre, que o outro teve uma conduta repreensível, etc, etc... O desejável é ser hipócrita, é julgar, mas afirmar que não o faz; é ser desigual, é alimentar um sistema com a suprema ignorância que nos torna cegos à crítica das nossas próprias práticas; é se matar na academia e nunca ter o corpo perfeito; é querer copiar o cabelo e o nariz da protagonista; é se trancafiar em casa com os animais e colocar-lhes roupa e nome de gente; é achar que cair de bêbado e beijar oito pessoas de sexos diferentes na mesma noite é ser de vanguarda; é se furtar do contato pessoal, dos laços sociais; e, sobretudo, é enriquecer os terapeutas porque nos sentimos extramente solitários em um mundo sem valores!
5- Inaugurou-se uma nova ditadura da bem-aventurança: as pessoas precisam ser felizes. E a que preço? A Felicidade plena é uma utopia e não foram poucos aqueles que já defenderam essa idéia. Talvez pelo fato de jamais conseguirmos aproveitar um instante que seja de Felicidade. E como poderíamos? A vida é regida pelos números, pelas estatísticas, pela alta do mercado; agora as grandes empresas valorizam a criatividade, a versatilidade de um profissional robótico que, feito rato, corre em uma roldana para produzir cada vez mais e, quando esgota-se - entenda-se: quando envelhece - é mandado embora. Os administradores, os economistas e as infelizes do RH vivem fazendo recomendações de como se deve ou não compor o currículo, de como se deve ou não se portar em entrevistas, de como se deve anular a personalidade de alguém para que seja bem-sucedido profissionalmente. Quem permite que eles falem? Quem lhes deu ouvidos? Quem sabe não são os mesmos que se convencem com as propagandas que vendem a Felicidade; que compram livros de auto-ajuda porque são feios e desempregados e nunca logram um lugar embaixo do Sol que ilumina o alto executivo e o galã da novela? Quem lhes disse que é essa a verdadeira Felicidade?
6- A sociedade está mais alienada a cada dia, e eu me incluo nela. Não perseguimos a instrução, não buscamos ampliar nossos horizontes. Lemos uma Literatura comercial, não estamos acostumados a refletir. Vivemos em constante medo e pedimos o auxílio do malfadado  Leviatã. Imitamos, pois não temos personalidade para reinventar. Adotamos a opinião do grupo para não destoar. Não acreditamos em nada porque não há nada em que se acreditar. Bebemos muito, perdemos os sentidos, imergimos na fantasia enganosa dos aditivos para não vermos a realidade. Rogamos pela paz e subsidiamos a violência. Somos extramente contraditórios. Queremos ser o chefe da matilha, queremos ser selecionados e continuar vivendo na ilusão de que somos os mais inteligentes animais.