sexta-feira, 31 de maio de 2013

Aqueles Olhos (poesia em prosa)

   Aqueles olhos perderam toda a humanidade. Sentado ali, em um beco, na porta cerrada de um prédio, de fronte a um restaurante, silenciava. Não pedia esmolas; sequer comida. Apenas olhava, olhava - olhava o vazio; o vazio das gentes que passavam - indiferentes, inconsequentes, distraídas, ocupadas. Rosto pobre, mas olhos ricos, de filosofia, talvez, de saudosismo e de esperança. Antes tinha sede de tornar-se algo, até ficar invisível. Ainda que fosse uma cadeira onde o puxariam, acomodariam; pode ser que o elogiassem e se regozijassem de estar. Ou um vaso contendo terra, grande, ornamentado, frondoso. Entretanto, nem mais os vasos gozavam de notabilidade. Eram tão-somente passagem - tal como o beco, tal como ele.
   Os olhos vívidos, porém, no corpo agonizante, percebiam que ora vinha um homem, ora ia uma mulher. Não! Ora ia um pai, ora vinha uma esposa; ora vinham o chefe e a diretora. Sentavam à mesa, almoçavam, riam, falavam mal do trabalho, reclamavam de cansaço. O cheiro do perfume se misturava ao da carne assada; ao do cigarro posto fora, do vinho nos cacos sobre as pedras do chão; do cafezinho, dos dois beijinhos, da despedida, da ausência. E eis que lá foram seu pai e sua mãe. Seus irmãos, quem sabe? Amigos - que jamais se dignaram a retribuir aqueles olhos.
   A luz da tarde caiu pouco e pouco. A luz dos postes e dos estabelecimentos acendeu. O restaurante desceu as portas. Os transeuntes tornaram um ou dois. Depois o calar da noite. Nada mais ali. Permaneceu, contudo, de cócoras, encolhido e leve. Descalço, sentiu entre os dedos a urina quente escorrer-lhe, molhando o calção ensebado. Não mais se constrangia. Era como se um animal o fizesse - as pessoas costumam dar de ombros. Deu também; deu de si, para si: aliviar-se era um prazer. Último dos quais possuiu algum dia. 
   Veio a chuva, o frio, lavando-lhe o corpo. Sorriu e fechou os olhos. Eis que Deus o abençoa, o benze - e o chama, enfim. E antes que viesse a aurora, um homem louro, trajado de um casaco de couro preto, pôs as mãos em sua face, nos olhos que insistiam em ver, e pronunciou: - bem-aventurada alma da rua, hoje o Paraíso é teu, apenas teu!
   Aqueles olhos indigentes se descarnaram... 

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

saLdades eternas

  Bete era uma ex-atriz; malograda, diga-se de passagem. Não passou de apresentações de várzea e o máximo a que chegou foi a encenação em uma quermesse. Porém, nutria a fantasia de que era, ou seria em qualquer dia, algo reconhecida, pois mantinha viva a chama poética correndo em suas veias dramáticas. Quando afirmava isso, estava já a tal ponto alta que ninguém lhe levava a sério. E não era de se levar. Bebia um vinho, uma cervejinha, dançava em seus tamanquinhos uma melodia mais agitada e recitava Pessoa. Depois alguém a carregava para casa. 
  Feiosa, estrábica, roliça, mulher de meia-idade, aparecia sempre com roupas impróprias: uma sainha mais curta, um vestido mais apertadinho; somando às unhas vermelhas, à meia arrastão, aos beiços roxos de batom. Tingia os cabelos e, por fim, nada combinava. Gostava de jovens, jovenzinhos, sabe? Podia ter uns vinte, uns trinta; mas velho acima dos sessenta? Jamais! Queria roçar as coxas entre as pernas de um pangaré, sentir uns braços fortes lhe agarrando, uma respirada mais contundente em seu perfume barato, seus seios esmagando-se em peito cabeludo. Entretanto, ninguém queria deitar-se com Bete.
  Possuía uns amigos desvairados, amigos de bar. Amigos de palavreado frouxo, baixo; amigos sem amarras, sem pudores - personagens decadentes que, por discutirem política ou qualquer filosofia torta, odiarem religião, xingarem o pai e a mãe, terem um filho em cada casa; descobrirem autores que ninguém lia, no olhar de Bete eram seres arrojados, embora não fossem além de bêbados enfadonhos.
  Nas festas, Bete dava vexame. Não que se embriagasse. Catava os doces, pedaços de bolo, arranjos da mesa, enfiava tudo na bolsa; e no velório? Bem, a viram fazendo sinal para um carro carregando uma coroa de flores. Por isso todos falavam dela. Sorriam risos mascarados, e falavam dela. Tanto que pararam de convidá-la, fosse para o que fosse. E ficava ela, no quarto e sala alugado cheirando a mofo, sobrevivendo do que não fora...
  Três semanas se passaram sem que vissem Bete novamente. A síndica foi cobrar as taxas atrasadas. Bateu, bateu, esmurrou a porta - e nada... Nada! Bete havia sentado em frente a uma penteadeira, cheia de fotografias presas aqui e lá. Lembravam o passado, de quando era jovem, de quando era... Sei lá. Só via agora uma boneca triste, desengonçada, de quem todos recordavam com graça, a quem nunca um homem quis se unir. Esticou a face e concluiu: ''estou velha e não vi o tempo passar''. Esvaziou uma cartela de calmantes e virou um copo de conhaque ordinário. Deitou-se na cama desarrumada com suas fotografias...
  Três semanas se passaram e encontraram apenas um corpo que dormitava. Na capelinha, somente a síndica compareceu. Uma velinha de sete dias brilhava e na parede, uma coroa onde estava escrito: ''saLdades eternas''.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Nova Entrevista com uma Socialite

Entrevistador: - Estamos aqui, no Copacabana Palace, na festa de Ano-Novo com essa figura ilustre da sociedade carioca...

Socialite: - Obrigada, é maravilhoso estar com vocês novamente!

Entrevistador: - A festa está linda e você, mais ainda!

Socialite: - Gostaram? A festa tem o tema da prosperidade! Por isso fiz questão que, além do branco, tivessem muitas coisinhas douradas.

Entrevistador: - Como esse seu vestido? Dá uma voltinha para a gente ver...

Socialite: - Não é maravilhoso? Todo bordado com fios de ouro. É de uma grife italiana, feito sob medida! Aí eu decidi colocar anéis, braceletes, colar, brincos, tudo de ouro também para combinar!

Entrevistador: - Assim, o ano vai ser mesmo de muita fartura, de muita prosperidade...

Socialite: - E de paz, não é, gente? Acho que o Brasil está precisando de paz. E não só o Brasil como o mundo também!

Entrevistador: - O próximo ano tem que ser bom, porque esse não foi muito bom para você, né?

Socialite: - É verdade! Tive que fechar duas ongs, me divorciei do meu terceiro marido...

Entrevistador: - Mas foi uma separação amigável?

Socialite: - Que nada! Imagina que ele queria me dar uma pensão de dezessete mil reais! Meus advogados entraram com uma ação e pediram trinta. Ele é empreiteiro, tira no mínimo quinhentos por mês e quer me dar só dezessete mil? Meus dois outros ex me dão mais, por que ele não vai dar? Eu tenho um filho com ele, você sabe, e por causa dessa sociedade machista, eu é que vou criar, entendeu? E a responsabilidade dele como pai?

Entrevistador: - Ah, o ano que vem será melhor!

Socialite: - Com certeza! Estou aqui, tomando champanhe, nessa noite linda, para festejar esse novo ano que promete!

Entrevistador: - E quais são seus planos?

Socialite: - Recebi um convite para posar nua pela terceira vez. Pela terceira vez serei rainha de bateria. E quero abrir outra ong voltada para o tratamento de pessoas na melhor idade.

Entrevistador: - Tudo três?

Socialite: - Tudo três! Meu número da sorte nesse ano!

Entrevistador: - E que mensagem você quer deixar para os nossos telespectadores?

Socialite: - Eu estou aqui, na grife, no champanhe, toda trabalhada no ouro para desejar a todos um ano maravilhoso, sem violência e sem desigualdade social! Fiquem com Deus!
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VEJA AQUI A SEGUNDA ENTREVISTA

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Negrinho do Sinal

   O negrinho do sinal é compositor. ''Mas como?'' - perguntou a minha esposa; ué, estou dizendo, ele é compositor! - ''Ah, sei, esse negrinho é compositor? E compõe o quê?'' - Ópera, é acho que é isso sim. Noutro dia ele cantarolava um trecho enquanto distribuía os saquinhos de bala pelos retrovisores. - ''Ópera? Sei, e como ele compôs essa ópera se ele não tem instrumentos, não sabe tocar e provavelmente jamais ouviu uma ópera?'' - E artistas lá precisam disso? O talento nasce com eles, precisam apenas moldá-lo, burilá-lo, entendeu? - ''O garoto nem deve saber ler, vai compor algo tão difícil quanto uma ópera? Ah, faça-me o favor!'' - Você não comentava ontem sobre uma garotinha alemã que compôs sua própria sinfonia aos seis anos? Ele deve ser pouco só mais velho. - ''Mas a garota tinha formação, estudo, um meio bom, era alemã!'' - Olha o menino lá, o sinal fechou, vem ele... Aí, passou, ouviu? Ele está sempre cantarolando. - ''E como sabe que isso é ópera? Isso pode ser mais uma dessas músicas malucas!'' - Eu conversei com ele, oras - minha esposa riu alto.
   Certa vez, meu carro enguiçou ali. Enquanto eu esperava o guincho, o menino franzino, descalço e usando uma bermudinha azul, veio até mim. Tentou vender as balinhas, dessas que ele vende no sinal. Não quis porque não gosto de balas. Porém, isso foi pretexto para entabularmos uma conversa. Quando ouviu a música que tocava no meu rádio, perguntou: - é Mozart? - Não preciso dizer que fiquei surpreso - você conhece Mozart? - Creio, aliás, que nossa conversa começou a partir daí. Respondeu que sim, que adorava. A mãe dele trabalhou durante algum tempo fazendo faxina na casa de um velho compositor e o levava junto, pois era bem pequeno. O velho ouvia muito a Mozart, Beethoven, Chopin e as principais óperas. Foi assim que tomou gosto e aprendeu um pouquinho sobre música, instrumentos, porque o velho apreciava muito a companhia do jovenzinho, porquanto não tinha família. Morreu, parece, no ano passado. A mãe ficou desempregada e ele precisou vir para a rua. Foi aqui, entre o abrir e fechar do sinal que ele compôs a ópera! Chama-se O Viaduto. Começava com dois homens sentados nesses jardins, esses que ficam em meio as ruas, debaixo de um viaduto. São dois vendedores e cantam ''os jardins improváveis da vida florescem no asfalto, oferecendo descanso no oásis do deserto de piche''. Acho que é isso.
   - Então quer dizer que esse negrinho tem refinamento suficiente para compor uma ópera? Sinceramente, prefiro Beethoven! - Retrucou minha esposa descrente. - minha querida - disse eu - você nunca gostou de Beethoven, de ópera ou coisas afins, como pode avaliar a capacidade dele? - E ela, gritando no banco do carona: ''- o quê? Está insinuando que eu sou uma mulher inculta? Não é possível que...''
   Ela iria continuar, contudo o sinal abriu. Dei a partida e a discussão se encerrou.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Ônibus

   A estrada que ligava um município ao outro estava escura. Somente o brilho dos faróis lançava luz um pouco adiante, mais os dos demais carros que vinham pela pista contrária. O aperto no peito, quase esmagando o coração, forçando as lágrimas nos olhos, faziam-no conduzir raivosamente o ônibus por aquelas vias mal iluminadas. Abaixou um tanto a cabeça, respirou fundo - e tudo se apagou inopinadamente... Quando tornou a si, sentia uma dor terrificante pelo corpo: dor de costelas quebradas, dor de ferro atravessando a coxa, dor de pernas partidas, de ventre fendido, de sangue esvaindo - dor de morte...
   Havia três anos que estava na companhia quando Josival entrou: caboclo mediano, neto de pernambucanos emigrados, era cheio da manha risonha e simples; chegou conquistando amigos, próprio que lhe era a facilidade de levar a todos o conforto de uma nova amizade. Tomou a função de trocador. No início não se bicaram. Josival não logrou entrar naquele peito endurecido e taciturno que odiava aquele trabalho, como só alguém que faz por pura necessidade e por ter esposa e uma linda menininha para sustentar.Tanto que respondia atravessado aos passageiros, não tinha paciência com os velhos que se demoravam a subir na condução e vivia se queixando dos horários de trabalho - se cedo, se tarde, se sábado ou domingo. Mas retinha para si o queixume; aos outros apenas azedume, de maneira que nenhum colega mexia com ele.
   Josival, no terceiro mês, passou a ser um companheiro de jornada - bem ou mal -, trocando notas e moedas no mesmo ônibus. Ah, coube a ele a tarefa de abrir uma fresta ali para que se pudesse ao menos vislumbrar algo no interior. Aos poucos, entretanto, aos poucos. Falava muito, ainda que não obtivesse resposta, ria sozinho, debochava, e como adorava uma dancinha aconchegante acompanhada da boa aguardente, convidou-o para ir, dia desses, no bar perto de sua casa. 
   Foi ali que o rapazote, cinco anos mais moço, passou a ser visto com olhos diferentes - alegre, desinteressado, não muito bonito, é verdade, porém conquistador. Saltaram dos cumprimentos às conversas de bar, às visitas mútuas, ao riso frouxo. Tratavam-se na intimidade fazendo piadinhas infames, parecendo dois garotos, emprestavam dinheiro na hora do aperto, consolavam-se.
     ''Ah, Josival, o seu sorriso, a colônia barata, o peitilho aberto com o crucifixo reluzente...''- pegou-se pensando assim. Havia mudado algo em seu interior. Não sabia bem o que era, todavia. Afastou as imagens... Aquelas imagens... Não, não, como poderia? Deitou-se e abraçou sua esposa... Jo-si-val, continuou a reverberar enquanto não dormia...
     Josival não mais dividiria o mesmo ônibus, foi substituído por outro naquele horário. Não se encontravam mais, os horários não coadunavam - só ficou uma saudadezinha inexplicável e a raiva voltou. Sentia-se estranho, ainda mais quando falavam nele: Josival fez outros amigos, novos amigos...  
     Meses correram com ambos afastados. Aquilo amainou dentro de si e cria já esquecido até que, certa noite, parou no ponto final e ele estava lá, palestrando animadamente com o despachante. Disse que ia embora e pediu uma carona até a garagem. Por fim, Josival decidiu-se a ficar mais um pouco, ensombrecendo o breve sorriso no rosto do antigo companheiro. Irritado, fechou a porta e deu a partida. Sim, aquilo existia adormecido embaixo de toda a fuligem, como brasa quieta, ao menor sopro reavivada.  Mas o quê? Mas o quê? O que era aquilo? Cerrou as pálpebras e viu novamente o sorriso de Josival - na curva, outro ônibus vinha na pista contrária... Perdeu o controle...
     As pálpebras abriram-se novamente, uma última vez. O olhar vazio, perdido, procurava por ele. Foi a derradeira impressão na retina, após o que tudo escureceu...

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Amor Verdadeiro

   Ela levantou primeiro. Entrou no vestido curto cinza com estampa de cobra; espalhou um pouco do perfume importado no pescoço, escolheu algumas bijuterias, o relógio de pulseira fina, ajeitou o chanel, trepou nos saltos, pegou sua bolsa vermelha com alças douradas e cutucou o marido - ''estou indo, vou na frente, ouviu?'' - colocou os óculos escuros e ainda verificou no espelho se aparecera algum novo vinco no rosto. Ele levantou depois. Banhou-se, besuntou o cabelo com pomada, ficou entre a camisa de gola verde e a azul e sorriu por levar bem menos tempo para estar pronto; passou a mão na pasta preta e foi tomar café.

   Ele, enquanto cortava o pão, reparava de esguelha na diarista: baixinha, bem magra, de sandálias rasteiras, bermuda enfiadinha e blusinha curta. Num repente levantou e aproximou-se dela por trás. Concentrada na louça e sussurrando uma musiquinha, assustou-se com as mãos que escorregavam até seu ventre - ''o que é isso, seu Carlos?'' - tentou se desvencilhar dele -''ô morena, sabe que você ficou ainda mais bonita com esses seus cachos alourados?''- disse roçando seu corpo no dela - ''adoro esse seu perfume barato'' - ela logo reagiu - ''seu Carlos, o perfume não é nada barato, viu? Comprei a colônia em duas vezes na revista da Zulmira, entendeu? E olha, dona Vânia não vai gostar nada de saber que o senhor anda fazendo essas coisas!''- ele a virou de frente - ''esquece a dona Vânia e mostra esses biquinhos para mim, vai!'' - ela ainda relutando - ''seu Carlos, eu estou grávida'' - isso parece tê-lo açulado mais - ''deixa eu chupar esses biquinhos e eu lhe dou um celular novinho!'' - minutos depois, ele desceu as escadas do prédio com ar satisfeito e limpando os cantos da boca. 

   O motorista já esperava por ela. Entrou no carro no banco do carona e cruzou as pernas. Apesar de passar um tanto dos quarenta, sua pele ainda era lisa e tenra, e sentia um certo prazer em exibir suas coxas que escapavam dos vestidos que usava. Mesmo que não fosse uma mulher bonita, notou que o motorista andou reparando timidamente nela. Logo ele, um rapaz tão calado, formoso, porém, e longe dos trinta. Fantasiava, é verdade, com um homem mais novo, não obstante o seu marido fosse um. Mas ela desejava um bem mais, algo inexperiente, ou aparentando ser. Alguém como seu motorista, robusto e de olhos verdes; alguém com aquele perfume e pelos no peito. O carro diminuiu a velocidade por causa do trânsito engarrafado. Foi quando ela deu um piparote na guimba de cigarro, virou-se para ele e balbuciou no ouvido: ''o médico recomendou que eu andasse sem calcinha'' - depois deixou sua mão correr até a virilha do motorista ruborizado, pegou no pulso dele e levou seus dedos para baixo de sua roupa. Mandou que lhe fizesse uma massagem na região; e ela, esticando-se no banco, retesando os membros, cerrando as pálpebras, gemia baixinho. Ele só parou quando os dedos estavam molhados e ela acendia outro cigarro. Ao estacionar o carro, ela saltou e disse alto: ''passe para me pegar às seis!''

   À noite, após chegarem do trabalho, Vânia e Carlos jantaram e viram televisão; deitaram cada um em seu lado da cama e antes de apagarem a luz do abajur, beijaram-se e enfim um disse ao outro: ''amo você".




segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Picadinho

   Wilson era um homem aborrecido. Seco, austero e não obstante os tempos se forem, ele permaneceu firme ante os ventos de modernidade. Cresceu ouvindo o pai falar bem de Getúlio, e com igual veemência defendia a ditadura arrematando: ''naquela época é que era bom!'' - tornou-se um velho chato, daqueles que desata um palavrório infinito quando encontra um conhecido na rua, ou se inventa de catequizar algum jovem - ''ouça a voz da experiência, garoto!'' A bondade, entretanto, não vem com a idade. Ora, quem foi enjoado por toda a vida, o será também na morte!
   Sua esposa, de nome Vera, era uma mártir. Tinha que cozinhar, passar, cuidar da casa enfim e ainda aturar aquele homem. Em diversos momentos, arrependera-se secretamente, e imaginava outro destino para si. Mas estava velha também e não se permitia certos desejos. Seu marido levantava-se cedinho, sentava-se sempre no mesmo lugar da mesa, tomava seu café e ia ler o jornal. Daí é que começava a reclamar do governo, do preço das coisas, dos gastos mensais. E, em seguida, sua distração era achar defeitos em tudo o que via na casa e na esposa: ''o móvel da sala está empoeirado'', ''você deveria fazer arroz fresco mais vezes'', ''essa sua blusa não é muito decotada para uma mulher de sua idade?'', ''quantas vezes eu já disse que meu suco é com adoçante?'', ''estou com uma dor aqui, acho que morro em breve. O que será desta casa sem mim, hein?'' - e levantava-se para ir à banca, fazer fezinha no bicho e amofinar algum incauto vizinho. 
   Desfilava as canelas finas e as rugas franzidas no cenho, de peitilho aberto da camisa amarela, bermuda desfiada; grisalho e meio dentuço; gago exasperante ao defender suas posições amalucadas e rançosas. E discutia, xingava, era o senhor da razão - falava mal de mulher, de preto e de viado - ''está tudo errado! Eu já disse para meu filho que não quero neto mulatinho! Agora, se andar com homem, acho que eu mato! A culpa é da mãe dele, que não criou direito!''
   Vera, então, teve uma ideia. Agora não mais bufava enquanto ouvia Wilson. Limitava-se a soltar alguns risinhos discretos. E ele perguntou, certa vez, o que era. Não era nada, estava apenas pensando na receita do picadinho que serviria no almoço de domingo.
   - Picadinho? Finalmente você resolveu fazer algo diferente! Veja se fará isso direito, hein, pois penso até em chamar a minha mãe. Na última vez foi um desastre! A feijoada ficou rala, horrível! Bem, e como é essa receita, posso saber?
   -Claro, vai ser um picadinho com carne de porco! - dito isso, cravou-lhe a faca de carne no pescoço.
   No domingo, os familiares todos elogiavam o prato. A mãe de Wilson estranhou a ausência do filho.
  -Ele foi fazer uma viagem, mas fez questão que eu a convidasse... Está servida de mais um pouco de picadinho, dona Amália?

sábado, 20 de outubro de 2012

Borboleta Azul

   Aquele homem dormia em um dos últimos bancos do ônibus. Encolhido, envergado para o lado direito, agasalhado e cheirando mal. Quando viam o ser de rosto sumido na aba da boina, as pessoas escolhiam outro assento ou preferiam ficar de pé. Mãos e pés envelhecidos, carcomidos, estragados, nus denunciavam sua condição. Havia se urinado, mas isso ainda ninguém notara. Um sono profundo dormia. Nenhum barulho em redor, de fala, freio ou buzina, o fazia despertar. Rodou horas a fio pela linha circular, até que por fim o trocador resolveu sacudi-lo: ''ei, já chegamos na garagem, acorda!''
   Não recordo seu nome, acho que era algo similar a Francisco. Sei que foi professor durante um tempo. Era voluntário e ensinava adultos a ler. Também era escritor, entretanto suas histórias nunca foram escritas de fato; permaneceram na imaginação. Tinha família; se não me engano, arranjou-se com uma moça quando já entrara em idades. Dois filhos nasceram daí: Melgibso e Shéreston, ambos nomes que homenageavam atores estrangeiros dos quais ele gostava. A mãe queria batizar o primeiro filho de Romestilte, porque na casa onde trabalhava, os patrões viviam dizendo que iriam ver o 'home theater'; de onde concluiu que, tendo um nome tão bonito, deveria ser alguém importante. O marido explicou que se tratava de um aparelho. O segundo também era menino, por isso resolveu adaptar e o chamou assim - com o sobrenome Silva. Seu Silva dizia de si para si: ''Melgibso será advogado; Shéreston, um grande médico''; um se envolveu com más companhias e foi preso, o outro engravidou uma menina e viveu de bico; e a esposa, a pobre esposa, morreu desgostosa na eterna fila do transplante. 
   Seu Silva, então, quis afogar-se em um copinho de cerveja, depois de vinho barato e, finalmente, cachaça. Bebia, bebia e comia sonhos, sonhos que jamais se realizaram. E no auge da embriaguez, tinha novamente sua mulher ao lado na cama, aninhava seus filhos pequenos, nutria o desejo de um destino diverso para eles, escrevia seu livro sobre uma borboletinha azul para crianças, comprava uma casinha fora do morro... Era um  homem de valor! Mas ora, seu Silva, o senhor sempre fora um homem de valor! Quem poderia ter alfabetizado com palavras retiradas de papéis avulsos catados do lixo? Talvez virasse notícia de jornal sob o título 'superação'. Era estranho o gosto popular por esta palavra sendo que ele jamais alçara esta tão nobre e sonhada superação. Do que se tratava mesmo? Sobreviver e ser admirado por isso? Admiração nunca encheu barriga, doutor! Exemplo muito menos! Meu filho continua na cadeia e o outro repetiu o pai!
   Surtou após uma bebedeira. Sumiu na cidade, não sabia onde estava. Chamava por um e outro; chamava nomes. Diziam-no louco, bêbado, enxotavam-no. Uma ideia, então, lhe acudiu: juntou uns trocados que amealhara na rua e pagou para entrar em um ônibus. Ali podia dormir tranquilamente, e proteger-se da chuva. Rodava, rodava, rodava, esquecido de si, esquecido do mundo, perdido; rodava, rodava, rodava pela cidade, em bairro de luxo e de lixo; rodava, rodava, rodava dormindo até que...
-Ei, já chegamos na garagem, acorda! - seu Silva ao menor toque tombou, de olhos cerrados e boquiaberto.  Morrera havia algumas horas. E ninguém se dera conta... Ninguém se dera conta que, naquele coração habitara uma borboleta azul; borboleta azul que agora voava...

sábado, 6 de outubro de 2012

Menos Uma Boca

   O pobre rapaz de carnes moles, indolente e cabelos ralos, encontrava-se esparramado no colchão. Àquela hora do dia, passando das onze, aproveitava-se do silêncio langoroso fazendo movimentos tímidos de quem não quer levantar. Abriu um olho, depois o outro, bocejou e passou logo a mão num aparelho para saber das últimas notícias do mundo - ergueu a tampa e ligou; só lá pelas tantas lembrou de comer... E já era tempo de almoçar. 
   Arrastou-se pelo corredor, em trajes menores e com uma camisa de tamanho grande. O palor da pele acentuava-se ainda mais por causa dos panos brancos; o que agravava seu aspecto enfermiço, mesmo que não estivesse doente, mas apenas denotando alguém que não costuma sair muito do quarto. Catou algo para comer, requentou e esgueirou-se novamente, parando um tanto desdenhoso na porta do cômodo. Correu as vistas em torno de si: roupas espalhadas, sujas e limpas misturadas, no chão, na cadeira e na escrivaninha; revistas, copos, farelos, um bodum tenebroso tresandando toalha molhada, meias encardidas e resto de comida. Deveria arrumar a bagunça... Sim, algum dia, concluiu. 
   -Bernardo, vou na casa de sua tia - passou a mãe dizendo - depois vou com ela fazer compras, viu? - Beijou-lhe a testa e saiu, ignorando o estado do filho. Cansou-se, é verdade, de falar dos seus modos, do seu comportamento, de que deveria dar um jeito no quarto, de que ele já transpusera os trinta e ainda não tomara rumo na vida - estou velha e não suporto mais, ademais, ele sempre se tranca e liga o rádio no último volume - pensava. E, de fato, naquele universo particular, Bernardo era o único que existia - e respirava.
   Recostou-se novamente no travesseiro, comeu parcamente, largou o prato, espalhou algumas migalhas e voltou a relacionar-se virtualmente. 
   Cochilou e, quando deu por si, era tarde. Lembrou-se de tomar banho. Embora o asseio fosse inadequado, sentia com prazer, no banho demorado, a água quente bater em suas costas. Seu pai, então, esmurrou a porta:
   -Bernardo, quando tiver um emprego e puder pagar a conta, você gasta o quanto quiser! Eu não sou mais obrigado a lhe sustentar! - O pai interrompera um momento íntimo, onde quase atingia um êxtase, e teve raiva dele por isso. Fechou o chuveiro, parou para contemplar seu corpo flácido no espelho e suas olheiras de quem troca a noite pelo dia; examinou os dentes amarelecidos, uns pontos avermelhados no rosto; percebeu que possuía menos fios de cabelo, que sua barriga crescera em terrível contraste com os membros finos, que sua corcova aumentara. Vestiu-se para ouvir a ladainha paterna sobre trabalho, sobre o que seria dele quando os pais morressem, sobre o irmão que se encaminhara, sobre ser um inútil etc. Fechou, então, a porta do quarto, colocou o rádio no último volume e deitou-se outra vez.
   Possuía um personagem, entretanto, virtual que era como ele, Bernardo: vestia-se bem, namorava uma moça bonita, morava em um casarão com piscina, andava de carro próprio e visitava os milhares de amigos em suas residências, onde havia festa sempre. Dinheiro era fácil, e quando era tempo de procurar um emprego, bastava acelerar o relógio para que a noite chegasse mais depressa. Ali havia uma felicidade estranha - enquanto a realidade desmoronava.
   Dia desses, Bernardo acordou com uma sensação esquisita, uma pontada, parecia faltar-lhe o ar. Não conseguiu erguer-se, estava fraco. E, pouco a pouco, a vista escureceu. Gradativamente, então, deixou de funcionar. Como era de costume a família não se encontrar, ou melhor, haver apenas encontros furtivos no corredor, na sala, nunca na mesa da cozinha; ninguém notou sua ausência. Até o cheiro estranho no quarto foi tido como normal. Somente após uma semana, quando a faxineira retornou, foi que se deram conta: -acho que seu Bernardo está morto!
   A mãe desesperou-se, o irmão estava de saída e o pai balbuciou secretamente: -menos uma boca para alimentar!