domingo, 30 de maio de 2010

Dezessete Facadas

Nota Policial: uma mulher, identificada como Rosimeire Silva, matou seu marido com dezessete facadas enquanto ele preparava um churrasco no quintal. Joílson dos Santos morreu na hora. A polícia prendeu Rosimeire em flagrante.

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Acusação: - senhora Rosimeire Silva, a senhora matou o senhor Joílson dos Santos?
Ré: - sim!
Acusação: - a senhora sabe quais implicações terá o seu ato?
Ré: - sempre soube, desde o momento que decidi matar Joílson.
Acusação: - a senhora desferiu dezessete facadas em seu marido, matando-o friamente, por quê?
Ré: - Joílson era um homem odioso, merecia morrer!
Acusação: - merecia morrer?
Ré: - sim, merecia! Desde que me juntei com ele, me fazia sofrer muito!
Acusação: - a senhora pode nos relatar o que a fez tomar essa atitude?
Ré: -Joílson era um homem grosseiro, não respeitava ninguém! Bebia muito e ficava violento. Batia em mim e nas minhas filhas... Desde que vim da Bahia passei muita necessidade. Tive três meninas de um primeiro casamento, mas o pai foi embora. Sustentei minhas filhas sozinha. Fazia faxina, cozinhava para fora e só assim quitei o barraco em que a gente mora até hoje. Aí apareceu o Joílson. Motorista de ônibus, ganhava mais ou menos, prometeu ajudar. Coloquei dentro de casa e começou o inferno...
Acusação: -o que a senhora chama de 'inferno'?
Ré: -o senhor sabe o que é trabalhar o dia inteiro para dar dignidade às suas filhas? Tinha que colocar comida na mesa. Sempre disse a elas que não se podia roubar, matar, que a gente não precisa disso! Levava as crianças no culto, elas até faziam a escolinha dominical. O Joílson não respeitava nada. Chegava bêbado, reclamava da comida, me xingava, me batia, batia nas meninas e... Chegou a abusar da mais velha...
Acusação: -a senhora diz que ensina às suas filhas a não roubar, a não matar... Mas a senhora matou!
Ré: - matei, matei e não me arrependo! Meu Deus há de me perdoar. Eu fiz isso no desespero porque não aguentava mais!
Acusação: -e por que não procurou os meios legais?
Ré: -e adianta? A gente procura a Justiça e nada! Cansei de ver gente morrer e ninguém tomar providência! A Justiça não chega para a gente, seu doutor! Passamos fome, sofremos violência e tudo que a gente ganha é discurso bonito dizendo que as coisas vão melhorar. Não melhoram nunca! Então resolvi fazer Justiça eu mesma... Pelas minha filhas!
Acusação: -a senhora não confia na Justiça?
Ré: -não. 
Acusação: -então a senhora não acredita neste Tribunal?
Ré: -não, nenhum homem tem direito de julgar os outros só porque tem mais estudo...
Acusação: -mas o juiz e eu estudamos a lei para poder julgar.
Ré: -só quem pode julgar é Deus! A gente vê aí juiz aos montes recebendo dinheiro para livrar a cara dos outros, e aí quer julgar alguém? E quem deu esse poder a ele? Quem disse que ele pode julgar alguém?
Acusação: -minha senhora, a senhora está ofendendo a lei e este Tribunal. A sociedade foi quem permitiu, é em nome dela que estamos aqui hoje!
Ré: -sociedade? Mas a vida toda ela me olhou torto e disse que eu era nada e agora vem me julgar, seu doutor?
Acusação: -a senhora deu dezessete facadas no seu marido!
Ré: -Joílson falava mal da casa, da comida, me xingava, batia em mim, tinha outras mulheres e maltratava as minhas filhas. Roubava o pouco dinheiro que eu tinha... O senhor queria que eu fizesse o quê? Naquele dia ele preparava um churrasco para os amigos. Bebeu mais uma vez e disse ''você cortou essas carnes errado, sua ordinária! Nunca faz nada direito!Nem se lavar para se deitar comigo, se lava! Assim, nem na zona vão te querer!'' Fiquei com muita raiva, raiva acumulada; fui na cozinha, peguei a faca e enfiei na barriga dele. Aí ele se curvou por causa do ferimento e eu enfiei a faca nas costas dele por mais dezesseis vezes. Pedi muito perdão a Deus, muito! Foi por isso que telefonei para a polícia e me entreguei. Quem foge tem culpa, e eu não tenho culpa. Matei meu marido e sou inocente!
Acusação: -sem mais perguntas, Meritíssimo!



2 comentários:

R-E-N-A-T-O disse...

Muuuuito bom, considero esse seu melhor trabalho até aqui. Espero que continue progredindo sempre! Parabéns!

Cidadania, Música, Poesia & Afins disse...

Gosto muito dos textos. Parabéns!!!