sexta-feira, 4 de junho de 2010

Classe Média

   Beatriz era classe média, dessas que, para morar um pouco melhor, compram um apartamento minúsculo a perder de vista. O prédio ficava em uma rua recuada, quase sem movimento, mas valia por estar em um bairro nobre - o mais nobre da cidade. E enchia a boca para dizê-lo - mesmo que a piscina do prédio ficasse cheia aos domingos, e a vizinhança não fosse lá tão fina; mesmo que só se divisasse o mar ao longe. Ganhava um salário razoável e sustentava a casa junto com seu marido. Ambos faziam mil contas, ficavam com nome sujo, deviam condomínio e prometiam economizar. Mas Beatriz gastava o dinheiro, assim que o recebia em mãos, naquelas promoções boas de lojas bem baratinhas da região central - a blusa larga de zebra, os sapatos de bico fino, os argolões, a bolsa... E aparecia na porta do colégio das duas filhas afirmando para as outras mães que aquela roupa havia sido comprada na Zona Sul:
-menina, meu marido até brigou comigo... Eu estava passeando em Ipanema e aí vi uma liquidação boa, você não sabe! Paguei quinhentos nessa blusinha aqui! Não estava barato? E era tanta coisinha que acabei estourando o cartão! - E saía puxando as duas meninas pelas mãos. Em outra ocasião, demonstrou ser uma mulher moderna e ocupada:
-Nossa, essa vida anda tão corrida! É tanta coisa que a gente faz: academia, meditação, sessão de depilação, massagem, hidroginástica que parece que a semana não vai dar. Ah, e dou aquela passadinha no cabelereiro porque ninguém é de ferro, né? Preciso me cuidar! - Arranjou um meio de emendar o 'salão' com 'depressão' - talvez porque rimasse - pois também era bonito falar que sofria e que precisava de terapia. A verdade é que não fazia nada daquilo. O dinheiro mal bastava para pagar o colégio - o melhor da cidade. Além disso, Beatriz pouco se importava com a real educação das crianças, tentando preencher sua ausência com biscoitos e brinquedos. Talvez fosse melhor assim: Beatriz era irrefletida e nada ajuizada. Lia revistas de fofoca, falava mal do vestido das amigas, nunca permitia que as raízes dos cabelos ficassem pretas e as unhas descascadas. Fora que olhava para os lados quando entrava em seu prédio - ''vai que algum conhecido fica sabendo que moro aqui''. Tinha até uma desculpa pronta: - ''vim apanhar uma encomenda com a minha costureira''.
   O marido era um boçal. Falava baixo e não tinha força para conter a esposa. Acabava por concordar com tudo. E como Beatriz se recusasse a cozinhar, preparava uma comida ruim: macarrão instantâneo, ovo frito e farinha - e uma garrafa enorme de refrigerante. ''Eu fico na água, não quero engordar!'' - Dizia. Chegou ao ponto de falar que a mãe era uma ''bondosa senhora que trabalha lá em casa, a quem minhas filhas acostumaram chamar de avó''; e sustentar um 'casinho' extra-conjugal com um rapaz bem mais novo. Tudo para manter as aparências.
   Beatriz não era rica, não era tão bonita e nem inteligente. Beatriz era falsa nos modos e nas convicções. Sua vida era frustrante e, para sua felicidade, não tinha consciência de tamanha estupidez.  Beatriz era uma pessoa de triste figura, uma máscara tragicômica de mau-gosto. Alguém nulo, em cuja existência não havia razão. Beatriz e sua família foram despejadas. Saíram com as malas e os móveis do edifício. Uma conhecida, lá da porta do colégio, passou e viu a movimentação:
-Ué, está de mudança, querida?
-Ah, estou sim - e baixando o tom de voz - vou morar em frente à praia... Cobertura, minha filha, coisa chique!

Um comentário:

Anna disse...

Pobre Beatriz tenta enganar o mundo para ver se consegue enganar a si mesma...
A sociedade atual (em que o maior bem é aparência não o ser nem mesmo o ter) produz "Beatriz" em série. Pessoas com olhos tristes e contagiantes sorrisos no rosto.
Tá de parabéns adorei o texto!

OBS: Classe média - renda mensal entre 1000 e 3000 reais