segunda-feira, 28 de junho de 2010

Era Só Um Cachorro!

   Passando um homem na rua, distraído com qualquer coisa, filosofia, cisma ou mesmo bobagem, foi atacado por um cachorro feroz que escapara de uma casa próxima. Sentiu a mandíbula tenaz fechar-se em seu braço direito e os afiados dentes espetarem-lhe a carne. Deu um berro de susto e de dor e quase foi ao chão. Malogradas as tentativas de fazê-lo afastar-se, conseguiu alcançar um pedaço de madeira firme e deu golpes no bicho até partir-lhe o crânio e cair com a boca ensanguentada. Mal se lobrigava a pele rasgada coberta pela massa vermelha, agora misturando-se o seu com o sangue do cachorro. Gemeu, mas ninguém acudiu-o. Ao contrário, ouviu-se apenas uma voz gritando:
-Polícia! Polícia! Alguém chame a polícia! - Uma mulher de meia-idade, dando mostras de nervosismo, sacudia-se para chamar a atenção de um guardinha do outro lado da rua: - polícia! Polícia! - O guardinha correu e, em lá chegando, perguntou o que acontecia: -seu policial, este homem cometeu um assassinato! - os olhos do pobre rapaz se arregalaram jungidos aos do guarda - este homem acaba de matar um cachorro, veja! Eis aí o flagrante!
-Mas minha senhora, ele me mordia, por pouco não arranca meu braço!
-Ora, ora, agora quer fazer-se de vítima? Pois eu vi muito bem que o senhor descia o lenho no infeliz e indefeso animal!
-Sim, porque ele me atacava! Precisava me defender!
-Senhor policial - disse a mulher voltando-se para o guarda - essa criatura que jaz aí morta não tinha compreensão, não entendia a gravidade da situação, mordeu por instinto ou porque foi provocado talvez; este senhor entendia e sabendo-se mais forte, abusou de seu poder, privando o animal da vida! Ele não poderia ter feito isso! Não tem esse direito! Prenda este assassino!
-Assasssino? E se esse cachorro houvesse pulado na minha garganta e perfurado a minha carótida? Eu poderia ter morrido!
-Mas essa é boa! Tentando se justificar com a legítima defesa! Deveria ter pedido ajuda e não tomado tal atitude, meu senhor! E o que dirá a família desse bicho, hein? Sabe-se lá se tinha uma fêmea, se tinha filhotes? E o dono? Vai ficar desconsolado! - A mulher consternava-se.
-Minha senhora - o guarda enfim falou - o que temos aqui não se trata de um homicídio e, afinal, era só um cachorro!
-Como é que é? Bicho também é gente, seu guarda! Bicho também é gente! É por isso que esse país não vai para frente: por causa da impunidade! Esse homem tinha que apodrecer na cadeia! - A mulher estava transtornada - quantos cãezinhos não morrem todo dia atropelados, abandonados, com fome, a mercê de doenças, do frio? Todo dia eu rezo e peço a Deus pelos bichinhos indigentes, dou comida àqueles que encontro pelo caminho e já levei até alguns para minha casa. Mas os homens nunca entendem o sentido da verdadeira caridade...
-Minha senhora, este homem está sangrando e precisa de cuidados... - disse o guarda.
-Pois que morra! Deus que me perdoe, mas será menos um bandido no mundo! - E, abaixando, tomou no colo o cadáver do cão, apertou-o contra o corpo e, choramingando, sussurrou: -oh, coitadinho, não se preocupe, eu vou te dar um enterro digno, acender uma velinha e mandar rezar uma missa para você, viu? E no dia de Finados, colocarei flores no seu túmulo... Coitadinho... - levantando assim, foi embora, falando baixinho como se o animal a pudesse ouvir.

Um comentário:

Manuel Sans disse...

Nossa,amei a história!eu fico horrorizado quando vejo bichos sofrendo...
Boa noite!